domingo, 10 de maio de 2026

Becky S. Korich - A banalização do 'eu te amo', FSP

 O "eu te amo" anda solto demais. Diz-se com uma facilidade que me espanta a cada dia. Não é que as pessoas estejam amando mais; é que o "eu te amo" passou a valer menos.

Gostar é pouco, mesmo que seja muito.

Dizem "eu te amo", mesmo que não seja tanto.

Antes, guardava-se o "eu te amo" para pessoas raras, aquelas que fazem o mundo tremer por dentro e a pele arrepiar por fora. Hoje, diz-se que se ama a todos os que não se odeia.

Quando, no modo adolescente de sentir as coisas, eu me apaixonei loucamente por uma pessoa, demorei meses para dizer "eu te amo". Queria ter certeza —como se isso existisse. Eu venerava meus pais, adorava minhas amigas (amava algumas delas), gostava da minha vizinha de porta, era apaixonada por música, viciada em chocolate, aficionada por cinema, dependente do mar, encantada pelo cachorro. São tantas as formas de gostar. Amar era outro departamento. Era o andar mais alto do edifício, onde cabia pouca gente.

Jogo da velha com corações vermelhos
S. Hermann/F. Richter por Pixabay

Hoje, ama-se tudo isso, junto, misturado, nivelado. O "eu te amo" virou um carimbo afetivo, quase burocrático. Simples, sem esforço. Ama-se uma infinidade de amigos —não sei como a pessoa consegue ter tanto tempo. Ama-se o cabeleireiro que acertou a franja, o sashimi de atum, o novo amigo, o artilheiro do time, a caneca de estimação. Ama-se geral, o tempo todo.

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Se eu amo tanta coisa e tanta gente, como vou dizer "eu te amo" para quem amo de verdade? É tão bom gostar intensamente de alguém sem precisar amar.

A palavra inflacionada perde valor, esgarça-se. O "eu te amo" exauriu o verbo e transformou o amor em algo passivo. Afrouxou até se dissolver na corrente das palavras escorregadias, até caber em qualquer boca, em qualquer mensagem, em qualquer post —da superfície para fora, sem alterar o ritmo cardíaco.

O "eu te amo" deveria continuar tendo algum risco. Carregar uma mínima vertigem. Não ser dito como hábito, ser dito com menos frequência e mais perigo.

Quem ama de verdade não se basta com palavras. E essa pode ser a explicação: pulverizando tantos "eu te amo", nós nos protegemos do que o amor realmente exige. Generalizar o sentimento é um jeito de domar essa ameaça. Dizer o amor em voz alta, em público, é diluí-lo em mil cenários, mil pessoas, mil pretextos, para que ele nunca chegue inteiro, nunca nos encurrale numa única direção.

É bom que se ame mais vezes e mais pessoas. Mas é fundamental que dentro de nós continue viva uma parte do amor que Chico Buarque traduziu. Aquele que rompe o mundo, queima os navios, confunde as pernas, enlaça o paletó no vestido, faz o corpo errar da veia e se perder em outra circulação.

Que não se perca a coragem, nem a fé, nesse amor.

Quantas pessoas se ama, de verdade, na vida? Se resgatássemos o sentido e guardássemos o amor como um objeto sagrado, que se mede na temperatura e não na repetição, saberíamos 

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