quinta-feira, 28 de maio de 2026

A ilusão dos famosos que só têm dinheiro, Rosana Hermann- FSP

 Foi um alívio ler a notícia de que a jovem que desapareceu no litoral de São Paulo, depois de um passeio de moto aquática, foi encontrada com vida. Bruna Damaris, auxiliar de enfermagem de 26 anos, foi localizada com ajuda de pescadores, transportada por bombeiros e atendida por médicos.

Os nomes dessas pessoas que salvaram a vida de Bruna foram divulgados, mas eles não tiveram grande exposição. Foi também um alento saber que em Minas Gerais a mulher covardemente jogada em um penhasco por seu ex-marido sobreviveu à tentativa de feminicídio.

Ana Cláudia, diarista de 41 anos, passou 24 horas agarrada a um arbusto lutando por sua vida. Os bombeiros e policiais que a salvaram usaram técnicas avançadas de resgate em uma área de acesso muito difícil.

O choro de sua filha ao saber que a mãe estava viva e o vídeo em que Ana Cláudia aparece sendo içada por um helicóptero comoveram a todos. Foram mais de 20 militares envolvidos nessa operação. Os nomes dessas pessoas que salvaram a vida de Ana Cláudia não foram divulgados.

Todos os dias, apesar de notícias horríveis, cidadãos comuns resgatam animais de enchentes e de maus-tratos, bombeiros salvam pessoas em acidentes, policiais encontram vítimas sequestradas, profissionais de saúde salvam vidas.

Ao mesmo tempo em que esses heróis são mencionados nos textos por suas profissões, de forma anônima, vemos manchetes destacando corruptos bilionários e autoridades poderosas comendo bifes empanados em ouro e famosos que vendem joguinhos viciantes ostentando itens que valem milhões de reais.

Não se trata de romantizar a miséria e a invisibilidade ou demonizar a fama e a riqueza, mas são esses os nossos valores fundamentais, fama e dinheiro? Vamos definir que uma pessoa vale pelos bens que acumula e a notoriedade que conquista? Conhecimento, experiência e humanidade não fazem mais sentido para nós?

E se forem esses os parâmetros que vamos eleger, como vai ser a vida? Quando você precisar de atendimento médico, você vai torcer para que o cirurgião seja primordialmente experiente e humano ou famoso e com muitos seguidores no Instagram?

Claro que o cirurgião pode ser ao mesmo tempo talentoso e ter uma rede social recheada, mas o critério básico vai ser formação médica ou número de likes? Não sei você, mas eu tenho pavor de tirar sangue, porque minhas veias são invisíveis e finas e, para sofrer o mínimo possível, procuro a profissional com a mão mais leve e não a que mais viralizou no TikTok. Se for famosa, ok, mas não é o critério primordial.

Sabemos que a realidade é dura, que sucesso, fortuna, luxo e poder, assim como a desigualdade, a injustiça e a ignorância, sempre existiram e não vão desaparecer magicamente. Mas também sabemos que a compaixão, a humanidade e o conhecimento são valores essenciais que nos trouxeram até aqui.

Usar apenas a fama como medida de valor moral, o dinheiro como métrica de sucesso pessoal, me parece um sintoma triste de uma visão ilusória, típica de quem é tão pobre que só tem dinheiro.

A de quem esquece que o maior valor está na empatia, na compaixão, que fazem com um pescador sem nome, um bombeiro invisível, estendam a mão para que uma mãe não caia do penhasco, para que uma filha não morra no mar.

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