segunda-feira, 25 de maio de 2026

O apagamento da artista barroca Miquelina Constância das Chagas, FSP

 Vicente Vilardaga

Pouca gente ouviu falar de Miquelina Constância das Chagas. As informações sobre ela são escassas. Sua história foi completamente apagada pelo patriarcado e ignorada pelos autores dos livros que tratam de arte sacra em São Paulo. O que se sabe é que se destacou como mestra pintora e douradora trabalhando em algumas das principais igrejas da cidade na primeira metade do século 19. Também atuou como empreendedora e comandava uma equipe de homens artesãos com diversas especialidades.

Miquelina é uma personagem rara. Não se sabe ao certo quando nasceu e morreu. Parda, alfabetizada e extremamente talentosa, ela foi responsável, por exemplo, pela douração dos três altares da igreja da Ordem Terceira de São Francisco. Pintou e dourou a sacristia da igreja da Ordem Terceira do Carmo e foi responsável pela ornamentação da igreja da Nossa Senhora da Boa Morte. Sua atividade se concentrou de 1820 a 1840.

Miquelina comandou por 15 anos a restauração da igreja da Ordem Terceira de São Francisco - Karime Xavier/Folhapress

Expoente do barroco paulista, foi identificada por Mário de Andrade, que pouco descobriu e falou sobre ela. Apenas estudos recentes revelaram o alcance e o alto nível de sua arte, além de alguns poucos detalhes sobre sua vida.

Uma pesquisa realizada pela historiadora Danielle Manoel dos Santos Pereira da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), chamada "Uma Mestra Pintora e Douradora em São Paulo no Século 19", analisou fontes primárias como os recibos dos serviços prestados pela artista e o censo de 1836 para saber mais sobre sua trajetória.

Pelo censo, a pesquisadora descobriu que Miquelina se declarou casada, embora não apareça o nome de seu marido; ela se definiu como parda e informou ter 37 anos. Também disse que era nascida em São Paulo e exercia o ofício de pintora. Informou ao escrivão que tinha uma filha de cinco anos chamada Maria e que morava em sua casa uma moça de nome Joanna Baptista, de 24 anos, possivelmente uma agregada. Num outro documento pesquisado aparece que Miquelina vivia no distrito norte da Sé de São Paulo.

Igreja histórica com fachada branca e detalhes amarelos, incluindo torre com sino e cruz no topo. Pessoas estão na entrada principal e escadaria frontal. Céu parcialmente nublado ao fundo.
A artista foi responsável pela ornamentação do interior da igreja da Nossa Senhora da Boa Morte - Marcelo Justo/Folhapress

Os recibos passados por ela para seus clientes mostram uma caligrafia primorosa e revelam os primeiros nomes de alguns de seus oficiais e serventes, como Massimo, Francisco e Domingos. Há referências à maestria de Miquelina nos seus ofícios. O primeiro grande serviço que prestou foi à igreja do Carmo, a partir de 1826. Na sequência, em 1830, emprestou seu talento para a irmandade da Boa Morte, onde trabalhou por três anos. Entre outras coisas, foi responsável pela pintura de uma cruz da sacristia.

Sua empreitada mais longa, porém, foi na igreja de São Francisco. "Trabalhando por longos anos para os franciscanos, a mestre esteve envolvida em pinturas e dourações de 1833 a 1848", diz a pesquisadora. "Ela era arrematante da obra completa dos altares, que incluía conserto, segurança, assentamento, douração e pintura."

Miquelina pintou e dourou a sacristia da igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo - Rivaldo Gomes/Folhapress

Parecia que os serviços relacionados à arte sacra naquele tempo estavam restritos aos homens. A historiografia reforçou esse equívoco em relação à Miquelina, sumariamente ignorada. Os pesquisadores do passado que contaram a história da arte sacra em São Paulo excluíram sua existência e ignoraram sua importância. Seu nome, porém, ecoa nas igrejas paulistanas, como diz Danielle.

Além de Miquelina, há outra mulher dedicada ao ofício da pintura sacra no começo do século 19: Anna da Conceição, a religiosa do Mosteiro da Luz, cujo pai, Francisco das Chagas Silva, era pintor e transmitiu seus conhecimentos para a filha.

A presença feminina na arte daquela época talvez tenha sido maior do que imaginamos hoje, mas prevalece a visão de que só havia homens nessa labuta. Não se concebia que existisse alguém como Miquelina, ao mesmo tempo, artista e empresária.

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