Em 2022, o Brasil atingiu produção recorde de trigo de 11 milhões de toneladas, e a esperança era que o país, a partir daquele momento, elevasse cada vez mais a oferta interna do cereal. Não é o que está ocorrendo. Mais uma vez, o país reduz a área, produz menos e eleva a importação.
Isso ocorre em um momento em que a produção mundial da safra de 2026/27 (de julho a junho) cai, principalmente pela forte seca nos Estados Unidos. A produção mundial recuará 25 milhões de toneladas, para 819 milhões, após o recorde de 844 milhões no período 2025/26, segundo dados do Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).
Os produtores brasileiros, principalmente paranaenses e gaúchos, os líderes em produção, estão cautelosos. A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) estima uma área de 2,14 milhões de hectares para este ano, 12,5% abaixo do espaço destinado ao cereal em 2025. A produção, nos cálculos do governo, recua para 6,4 milhões de toneladas, 19% a menos. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) prevê área de 2,4 milhões de hectares e espera uma safra de 7,3 milhões de toneladas.
O Paraná, segundo maior produtor nacional e que está com o plantio deste ano em andamento, deverá semear 746 mil hectares, segundo o Deral (Departamento de Economia Rural). Se o clima cooperar, a produção poderá chegar a 2,44 milhões de toneladas no estado. Esses dados, no entanto, ainda devem passar por revisão, com possibilidade da indicação de novas baixas. O líder, Rio Grande do Sul, segundo o IBGE, semeia 1,1 milhão de hectares, com produção prevista de 3,3 milhões de toneladas.
Vários fatores afastam os produtores do Sul da cultura do trigo. É uma lavoura cara, e os preços, muito voláteis, nem sempre garantem margem de retorno. Neste ano, o cenário é ainda pior devido à escassez de crédito, ao endividamento elevado, aos juros altos e à pouca possibilidade de recursos do seguro agrícola. Além disso, a guerra no Oriente Médio trouxe aumento nos preços do diesel e dos fertilizantes. Outro fator de preocupação são os efeitos do El Niño, que deverá ser mais intenso do que na média de anos anteriores.
No mercado internacional, a safra 2026/27 não repete os números recordes da anterior. Um dos poucos países a elevar a produção, a China assume a liderança mundial, com volume de 141 milhões de toneladas. A União Europeia produz 9 milhões a menos, somando 136 milhões, e os Estados Unidos têm queda de 12 milhões. A Rússia, a maior exportadora mundial, colhe 86 milhões, 4 milhões a menos. Estão ainda na lista de redução de safra Austrália, Canadá, Ucrânia e Argentina.
O Brasil será o quinto maior importador de trigo na safra 2026/27, somando 7,4 milhões de toneladas, segundo números do Usda. A liderança fica com Indonésia e Egito, ambos com 12,5 milhões, seguidos de Argélia e Bangladesh. Os estoques mundiais de trigo caem 4 milhões de toneladas, ficando em 275 milhões, conforme as estimativas atuais.
O Brasil entrou neste ano com estoques iniciais de 1,64 milhão de toneladas de trigo. Com consumo próximo de 12 milhões de toneladas e safra com volume menor, o país deverá importar 7 milhões, segundo a Conab. A safra deste ano deverá ser a menor desde 2020, e as importações, as maiores desde 2013.



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