segunda-feira, 25 de maio de 2026

Desejada autossuficiência do Brasil em trigo ainda está distante, FSP

 Em 2022, o Brasil atingiu produção recorde de trigo de 11 milhões de toneladas, e a esperança era que o país, a partir daquele momento, elevasse cada vez mais a oferta interna do cereal. Não é o que está ocorrendo. Mais uma vez, o país reduz a área, produz menos e eleva a importação.

Isso ocorre em um momento em que a produção mundial da safra de 2026/27 (de julho a junho) cai, principalmente pela forte seca nos Estados Unidos. A produção mundial recuará 25 milhões de toneladas, para 819 milhões, após o recorde de 844 milhões no período 2025/26, segundo dados do Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).

Homem de camiseta azul e boné cinza segura válvula de sistema de irrigação em campo verde sob céu azul com poucas nuvens.
O agricultor Kody Carson em sua plantação de trigo em Olton, no Texas, que está sofrendo com a falta de chuva - Tom Polansek - 20.abr.26/Reuters

Os produtores brasileiros, principalmente paranaenses e gaúchos, os líderes em produção, estão cautelosos. A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) estima uma área de 2,14 milhões de hectares para este ano, 12,5% abaixo do espaço destinado ao cereal em 2025. A produção, nos cálculos do governo, recua para 6,4 milhões de toneladas, 19% a menos. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) prevê área de 2,4 milhões de hectares e espera uma safra de 7,3 milhões de toneladas.

O Paraná, segundo maior produtor nacional e que está com o plantio deste ano em andamento, deverá semear 746 mil hectares, segundo o Deral (Departamento de Economia Rural). Se o clima cooperar, a produção poderá chegar a 2,44 milhões de toneladas no estado. Esses dados, no entanto, ainda devem passar por revisão, com possibilidade da indicação de novas baixas. O líder, Rio Grande do Sul, segundo o IBGE, semeia 1,1 milhão de hectares, com produção prevista de 3,3 milhões de toneladas.

Trator azul com barra de pulverização larga aplica produto sobre fileiras de plantações verdes em campo agrícola visto de cima.
Agricultor trabalha em plantação de trigo na província de Henan, na China - Du Jie - 25.mar.26/Xinhua

Vários fatores afastam os produtores do Sul da cultura do trigo. É uma lavoura cara, e os preços, muito voláteis, nem sempre garantem margem de retorno. Neste ano, o cenário é ainda pior devido à escassez de crédito, ao endividamento elevado, aos juros altos e à pouca possibilidade de recursos do seguro agrícola. Além disso, a guerra no Oriente Médio trouxe aumento nos preços do diesel e dos fertilizantes. Outro fator de preocupação são os efeitos do El Niño, que deverá ser mais intenso do que na média de anos anteriores.

No mercado internacional, a safra 2026/27 não repete os números recordes da anterior. Um dos poucos países a elevar a produção, a China assume a liderança mundial, com volume de 141 milhões de toneladas. A União Europeia produz 9 milhões a menos, somando 136 milhões, e os Estados Unidos têm queda de 12 milhões. A Rússia, a maior exportadora mundial, colhe 86 milhões, 4 milhões a menos. Estão ainda na lista de redução de safra Austrália, Canadá, Ucrânia e Argentina.

Colheitadeira branca e vermelha opera em campo extenso de trigo dourado sob céu azul com poucas nuvens. Poeira levanta atrás da máquina durante a colheita.
Colheita de trigo no distrito de Kasharsky, região de Rostov (Rússia) - Sergey Pivovarov - 24.jul.25/Reuters

O Brasil será o quinto maior importador de trigo na safra 2026/27, somando 7,4 milhões de toneladas, segundo números do Usda. A liderança fica com Indonésia e Egito, ambos com 12,5 milhões, seguidos de Argélia e Bangladesh. Os estoques mundiais de trigo caem 4 milhões de toneladas, ficando em 275 milhões, conforme as estimativas atuais.

O Brasil entrou neste ano com estoques iniciais de 1,64 milhão de toneladas de trigo. Com consumo próximo de 12 milhões de toneladas e safra com volume menor, o país deverá importar 7 milhões, segundo a Conab. A safra deste ano deverá ser a menor desde 2020, e as importações, as maiores desde 2013.

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