Ontem vi dois meninos parados numa banca perto de casa. Eles tinham o álbum da Copa do Mundo nas mãos e esperavam ansiosamente pelos seus pacotinhos, para começar a juntar as quase mil figurinhas das 48 seleções.
A primeira vez que saí sozinho de casa foi justamente para comprar figurinhas na banca da esquina, a do João, lá pelos meus oito anos. A expedição foi um sucesso e voltei centenas de vezes para comprar a revista Placar, os quadrinhos da Disney e do Mauricio de Sousa, o Jornal da Tarde, a Folha. Até hoje leio jornal em papel; a esquina é outra, o jornaleiro —o Auro— é outro, eu provavelmente sou outro, mas o prazer em pegar o jornal e ler durante o café da manhã é o mesmo.
As bancas têm esse caráter local e estimulam a intimidade com a vizinhança. Elas já foram pontos de lazer, notícias e encontros. Eram tão importantes que ganharam o espaço mais nobre das cidades: as calçadas. Em São Paulo, as bancas podem ocupar até 50% da área da calçada, desde que tenham o termo de permissão de uso. São concessões públicas que dão preferência à pessoa física, com uma cota para pessoas mais velhas ou portadores de deficiência.
O Brasil já teve centenas de jornais e as pessoas corriam para as bancas para saber as notícias. Durante a década de 1990, a Folha e o Estadão disputavam a liderança com mais de 500 mil exemplares por dia cada um, com picos ocasionais de um milhão. Hoje a audiência das versões digitais supera em muito o número de jornais impressos, dos quais uma parcela ínfima é de vendas avulsas.
Como consequência, o número de bancas despencou. Em São Paulo, das 5.000 bancas existentes no início dos anos 2000, sobraram apenas 1.700 mil em 2020. O curioso é que, segundo a prefeitura, o número voltou a subir um pouco nos últimos anos e hoje existem exatas 2.148 licenças de funcionamento na cidade.
O aumento dos últimos anos tem a ver com a mudança do caráter das bancas. Se antes vendiam publicações, hoje elas oferecem uma miríade de produtos, abrangendo quase tudo o que alguém pode precisar em seus deslocamentos: balinhas, pilhas, cigarros, bolachas, brinquedos, água de coco, guarda-chuvas, capinhas de celular, refrigerantes, chaveiros, bonés e, meu preferido, jornais velhos embalados para o xixi dos pets, num inesperado memento mori para os jornalistas vaidosos.
Há ainda aquelas bancas que se especializaram. A banca Tatuí se transformou numa simpática livraria, a banca Curva, antes de ser destruída por uma árvore, era um verdadeiro centro cultural. Outras estão oferecendo serviços que ficaram sem espaço na nova organização imobiliária: chaveiros, xerox, encanadores, serviços gerais.
Se as bancas se reinventam, também a legislação precisa se atualizar. Será que o comércio tradicional, que paga aluguel em imóveis, sente a concorrência das bancas, que acabam vendendo as mesmas coisas ao redor de estações de metrô e outros lugares movimentados? Também é bom rediscutir aquelas bancas que servem apenas como veículo para ações de ‘ativação’, como gostam os marqueteiros. Uma delas pintou a lata de roxo e vendia exclusivamente latas de uma marca de bebida. Apesar de simpática, é uma ação de utilidade e legalidade discutíveis.
Há ainda um grande número de bancas que ficam fechadas, ocupando espaço público nobre sem oferecer nada em troca, diminuindo a fluidez de quem anda e prejudicando a segurança. Melhor que a prefeitura as retire ou que as troque por alguma outra atividade que valorize as calçadas.
Talvez não sem alguma dose de saudosismo, mas também por esperança na vitalidade urbana, torço muito para que as bancas não acabem e que achem modelos para se modernizarem. Como mostra a empolgação com as figurinhas, o produto impresso tem seu fascínio e provavelmente se manterá por tempos ainda, com os livros, as palavras cruzadas, os quadrinhos, as revistas e produtos editoriais criativos. Se não todas, mas uma grande parcela das bancas talvez consiga emular a experiência do ponto de encontro, de leitura e integração com a vizinhança.
Vale a pena refinar a legislação para usar as bancas ou o que quer que elas sejam no futuro como parte da estratégia pela vitalidade das calçadas.

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