domingo, 1 de fevereiro de 2026

Um filme que está no cartaz há mais tempo do que você imagina…, The News

 

O caso Master já tinha virado um dos maiores escândalos do país, sendo o maior resgate da história do sistema financeiro do Brasil. Um rombo de R$ 47,3 bilhões, superando os R$ 14,8 bi do Banco Nacional.

Além de políticos, passou a chamar atenção no caso as relações diretas e indiretas que o Banco Master e o seu dono, Daniel Vorcaro, mantinham com os ministros do Supremo — os próprios ministros que estão julgando o processo.

Mas a verdade é que os membros da mais alta Corte do país empilham diversos casos e polêmicas como essas. Com o passar do tempo, esses casos costumam ser esquecidos e negligenciados pela opinião pública.

A leitura de hoje será mais longa que o normal. Não porque queremos, mas porque os casos são muitos — ainda que tenhamos selecionado bastante. Eles parecem seguir um mesmo modus operandi que representa muito bem o que virou o Brasil: um lugar de impunidade, jeitinho e, digamos, segredos… Muitos segredos. Vamos nessa.

(1) José Dias Toffoli

Toffoli foi indicado por Lula ao STF em setembro de 2009, após atuar como Advogado-Geral da União e ter laços diretos com o Partido dos Trabalhadores.

(1.1) O advogado partidário que não passou em concurso

  • 1.1.1. Na época, a nomeação gerou resistência no Senado por falta de currículo técnico. Toffoli possui bacharel em direito pela USP, foi reprovado em dois concursos para juiz e não possui títulos de mestre ou doutor.

  • 1.1.2. Apesar de ter sido subchefe para Assuntos Jurídicos da Casa Civil na gestão de José Dirceu, ter relação pessoal com Zé e ter sido advogado do PT, nada o impediu de julgar o Mensalão e casos nos quais Dirceu estava envolvido.

(1.2) Voltando atrás para proteger o amigo do amigo

  • 1.2.1. Em 29/12/2014, o ministro recebeu uma mensagem do, então secretário-executivo da Previdência Social, Carlos Gabas: “Diga aí, Excelência!! Podemos tomar um café?”. O ministro respondeu: “Estou no TSE. Se quiser, passe aqui. Abs”. Depois da conversa, Gabas disse para o prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, atual ministro do Trabalho: “Tudo certo. Pede para protocolar o pedido de reconsideração”. No dia seguinte, a defesa do então prefeito interino de Santana do Parnaíba (SP), Elvis Leonardo Cezar, pediu a Toffoli para revisar a decisão que tinha o impedido de assumir o comando do município — acusado de trocar votos por presentes de Natal. Toffoli voltou atrás em seu entendimento e devolveu a Elvis o seu mandato.

  • 1.2.2. Essas mensagens foram encontradas no celular de Gabas pela PF durante a Operação Custo Brasil — que apurava um suposto pagamento de cerca de R$ 100M em propina para pessoas ligadas ao Ministério do Planejamento entre 2010 e 2015. Diante desses diálogos, integrantes do MPF de SP resolveram pedir à PGR a suspeição de Toffoli por ter íntima relação de amizade com Gabas. Mas o caso nunca foi adiante e todos os envolvidos no episódio negaram qualquer irregularidade. Ainda, a 2a Turma do STF, da qual Toffoli era integrante, anulou um braço importante da Operação Custo Brasil.

(1.3) O ministro que tinha dúvidas sobre a legalidade das provas

  • 1.3.1. Já em 2020, o ministro suspendeu o pagamento da multa de R$ 10,3 bilhões aplicada à J&F no acordo de leniência com o grupo dos irmãos Batistas.

  • 1.3.2. Segundo o ministro, com o material obtido pela operação Spoofing, que envolvia mensagens vazadas de envolvidos na Lava Jato, havia dúvidas sobre a legalidade do processo que originou o acordo de leniência.

  • 1.3.3. Apesar da esposa de Toffoli não estar envolvida no processo que corria no Supremo, ela era advogada justamente do grupo J&F. O ministro não pediu afastamento do caso.

(1.4) O engraçado roubo de um processo

  • 1.4.1. Em um vídeo de 2014 de uma palestra a universitários, o ministro Dias Toffoli conta, rindo, a história de um amigo advogado chamado Vladimir que teria furtado um processo para ajudar um grupo que havia ocupado um local.

  • 1.4.2. “Um vez, o Vladmir roubou um processo para não ter o despejo (risada). Um amigo nosso, não vamos dizer o nome dele, né? O Vladimir, o Vlad, não vamos dizer o sobrenome. Ia ter o despejo no dia seguinte. O juiz deu a liminar. A gente tinha que tentar suspender no Tribunal Regional Federal (…) Aí o que fazer? O que fazer? A gente ia ali no jurídico, lá no 17º andar. Aí o Vladimir sai correndo e some! E volta com o processo na mão (risada) (…) O que você fez Vladimir? ‘Ah, eu roubei o processo (risada). Não vai ter mais despejo amanhã. Eu falei que ia tirar xerox e sumiu’. Parece brincadeira, mas tem que bater palma para o Vladimir. Porque hoje, onde ia ter esse despejo, tem um conjunto habitacional. E essas pessoa moram lá. Até hoje.”

(1.5) O caso Master, o jatinho à final da Libertadores e o resort Tayayá

(2) Alexandre de Moraes

Moraes foi indicado por Michel Temer em 2017, após ser seu Ministro da Justiça. Possui um currículo técnico, sendo Doutor em Direito pela USP e autor de livros. Sua sabatina durou quase 12 horas, com discussões sobre a sua imparcialidade.

(2.1) A transferência de milhões de reais arquivada

  • 2.1.1. Uma operação da PF encontrou sobre a mesa de um dos principais executivos da JHSF, empresa que estava sendo investigada, uma planilha impressa com o nome "Alexandre Moraes", além de valores e as siglas PT e PSDB. Na planilha, constavam três pagamentos que somavam R$ 1 milhão.

  • 2.1.2. Enquanto a empresa enviava as notas fiscais dos serviços prestados, a PF encontrou um arquivo que apontava um envio de R$ 4 milhões à firma do ministro.

  • 2.1.3. A coordenação da Operação da PF pediu ao relator do processo a necessidade de abertura de um inquérito para apurar o caso. Porém, apenas oito dias depois do processo ter chegado no STF e sem sequer ter abertura de inquérito, o caso foi arquivado pelo ministro Fux.

  • 2.1.4. Em nota, Moraes afirmou que os pagamentos foram legais e Fux disse que o regimento interno do Supremo permitia arquivar pedidos de investigação se "o fato narrado evidentemente não constitui crime".

(2.2) O ministro que virou editor-chefe

  • 2.2.1. O ministro determinou que a revista Crusoé e O Antagonista retirassem do ar reportagens publicadas sobre um documento que envolvia um suposto apelido de Dias Toffoli. Moraes afirmava que esclarecimentos feitos pela PGR não confirmavam o teor, nem mesmo a existência de documento.

  • 2.2.2. Os materiais eram sobre esclarecimentos que Marcelo Odebrecht enviou à Polícia Federal sobre menções encontradas em seus e-mails. Sendo que, uma delas, de acordo com Marcelo, era a Toffoli — “o amigo do amigo de meu pai”.

  • 2.2.3. O e-mail enviado por Marcelo Odebrecht a dois executivos de uma empreiteira dizia: “Afinal vocês fecharam com o amigo do amigo de meu pai?”. A Odebrecht informou que a mensagem se referia a tratativas que o diretor jurídico da empreiteira tinha com o então Advogado-Geral da União, Dias Toffoli.

  • 2.2.4. No entanto, depois de pedir "à autoridade competente cópia integral dos autos referidos pela matéria, para verificação das afirmações realizadas", o ministro confirmou a existência e revogou sua decisão anterior.

(2.3) O juiz que decide antes e pede as provas depois

  • 2.3.1. O gabinete de Alexandre de Moraes no STF pediu, de forma não oficial, a produção de relatoria na Justiça Eleitoral para embasar suas próprias decisões no inquérito das fake news.

  • 2.3.2. As mensagens demonstram que existia uma troca entre Tribunal Superior Eleitoral e o STF, fora do rito oficial dos dois tribunais. Em um dos áudios, o então principal assessor de Moraes fala: “Formalmente, se alguém for questionar, vai ficar uma coisa muito descarada. (…) ficaria chato, né?”.

  • 2.3.3. Os diálogos mostram, pelo menos, duas dezenas de casos em que o gabinete de Moraes no Supremo solicita de maneira não oficial a produção de relatórios pelo TSE. Na prática, Moraes mandava produzir os relatórios, tomava decisões com base nos relatórios que mandou produzir e, então, poderia condenar os envolvidos.

(2.4) O caso Master e o contrato multimilionário da esposa

  • 2.4.1. Cinco dias depois da notícia do jatinho, descobriu-se que o escritório da mulher do Ministro Alexandre de Moraes tinha um contrato de R$ 129 milhões com o Master — no qual recebia parcelas mensais de R$ 3,6 milhões.

  • 2.4.2. Curiosamente, mesmo com o contrato milionário, em pelo menos três dos quatro órgãos que o escritório supostamente deveria atuar para o Master, o trabalho da mulher do ministro não é conhecido.

  • 2.4.3. Dias depois, Moraes teria procurado o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, pelo menos 4 vezes para fazer pressão em favor do Banco Master. Em nota, Alexandre de Moraes e Galípolo afirmaram que os encontros realizados foram para falar sobre a Lei Magnitski imposta ao ministro. As reuniões não constam na agenda oficial do Banco Central, que geralmente apresenta tanto reuniões fechadas como eventos públicos.

(3) Gilmar Mendes

Gilmar Mendes é mestre pela UnB e doutor pela Universidade de Münster, na Alemanha. Foi indicado ao STF em 2002 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem era Advogado-Geral da União na época.

(3.1) Juiz e padrinho de casamento

  • 3.1.1. Em 2017, Gilmar soltou, pela terceira vez, o empresário Jacob Barata Filho. Ele era suspeito de atuar em esquemas de corrupção e teria movimentado R$ 260 milhões em propina no setor de transportes do Rio de Janeiro.

  • 3.1.2. A questão ficou curiosa quando o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro pediu à PGR a suspeição de Gilmar Mendes no caso, já que ele tinha sido padrinho de casamento da filha de Jacob Barata.

  • 3.1.3. O ministro negou a necessidade de suspeição e ainda perguntou para os jornalistas: "Vocês acham que ser padrinho de casamento impede alguém de julgar um caso? Vocês acham que isto é relação íntima, como a lei diz? Não precisa responder."

(3.2) Os habeas corpus ao bilionário

  • 3.2.1. O ministro deu um habeas corpus para o empresário Eike Bastista — que teve sua prisão preventiva decretada depois de dois doleiros afirmarem que ele pagou US$ 16,5 milhões a Sérgio Cabral em propina.

  • 3.2.2. Aqui, novamente, o cenário se repetiu: o ministro foi acusado de ter proximidade com quem estava julgando. O Procurador-Geral da República na época, Rodrigo Janot, afirmou que Gilmar não poderia atuar no caso, já que a mulher do ministro trabalhava no escritório de advocacia que prestava serviços a Eike Batista.

  • 3.2.3. Em resposta, o escritório afirmou que atua exclusivamente na área cívil e não na esfera criminal, na qual estava sendo julgado o habeas corpus.

(3.3) O ministro que virou VAR de presidente da CBF

(4) Kassio Nunes

Kassio Nunes Marques foi indicado por Jair Bolsonaro em 2020, após ser Desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Sua sabatina durou cerca de 10 horas e contou com esclarecimentos sobre a sua trajetória acadêmica e temas como o combate à corrupção.

(4.1) Um currículo peculiar

(4.2) As idas à Europa com foragidos e acusados

  • 4.2.1. Kassio Nunes Marques também participou de uma festa de aniversário do cantor Gusttavo Lima em um iate na Grécia, que tinham a presença dos José André Rocha Neto, dono da casa de apostas Vai de Bet, e Aislla Sabrina Rocha que eram foragidos na época.

  • 4.2.2. O ministro viajou para assistir à final da Champions League, Roland Garros e o GP de Mônaco. O jato particular utilizado tinha como um dos sócios o advogado Vinícius Peixoto Gonçalves — que já havia sido denunciado no Ministério Público, teve seu nome citado em uma investigação sobre propina e atuava em processos em curso no STF.

  • 4.2.3. Em nota, o ministro não negou ter viajado para Paris, mas afirmou nunca ter tido contato com o advogado antes da viagem.

(5) Outros destaques

(5.1) Escritório de ex-ministro do STF e ex-ministro da Justiça, Lewandowski, tinha contrato de R$ 6,5 milhões do Banco Master por serviços de consultoria enquanto ele estava em mandato

(5.2) Ministro Edson Fachin manda soltar ex-deputado Rocha Loures, flagrado pela PF com uma mala de R$ 500 mil, que segundo delatores da JBS, era dinheiro de propina.

(5.3) Um áudio de Joesley Batista falando do Supremo Tribunal Federal

(5.4) Joaquim Barbosa discutindo com Gilmar Mendes e afirmando que ele não é “seus capangas do Mato-Grosso”

(5.5) André Mendonça viajou para Israel custeado pela Conib enquanto relata processo de federada da entidade

(5.6) Dama do Tráfico é recebida por quatro assessores de Flávio Dino

(5.7) Luís Roberto Barroso utilizou o avião da FAB em 146 viagens em 2024

(5.8) STF deixou de divulgar gastos com viagens de ministros

Conclusão

A conclusão é sempre sua.

Samuel Wainer questionou quem falhou em 1954: Vargas ou o povo, FSP 105

 Vinte e cinco anos depois, Samuel Wainer ainda se perguntava: quem falhou em 24 de agosto de 1954? Getúlio Vargas, que apertou o gatilho, ou o povo, que não lhe transmitiu "a mensagem de resistência à luta"?

O jornalista, fundador do jornal Última Hora e amigo próximo de Vargas, escreveu em crônica publicada na Folha, nos anos 1979, sobre os dias que antecederam o suicídio do presidente. E lembrou que o clima de tragédia já estava presente desde a campanha de 1950.

O jornalista Samuel Wainer - 1980/Folhapress

"Se for para o bem do povo, levai-me convosco", exclamou Getúlio ao aceitar a candidatura. E alertou sobre "os perigos e as ameaças que rondavam a sua porta", aventando "o sacrifício eventual de sua própria vida".

Wainer relatou um episódio revelador em Natal (RN), durante a campanha. Quando recebeu um telegrama de Assis Chateaubriand perguntando sobre um suposto atentado, Getúlio ditou pessoalmente a resposta: "Se atentado houvera, só poderia ser por excesso de amor popular".

Eleito com quase 50% dos votos, Vargas tentou um ministério de união nacional. "De nada adiantou essa estratégia conciliatória", escreveu Wainer. A oposição crescia: empresários, militares ressentidos pela deposição de 1945, interesses internacionais temerosos do nacionalismo getulista.

O jornalista terminou com a pergunta que não calava: "Falhou Getúlio, que jamais fora o líder revolucionário que seus adversários procuravam tendenciosamente pintar? Ou falhou o povo, que não soube lhe transmitir a mensagem de resistência à luta?"

Leia a seguir o texto completo, parte da seção 105 Colunas de Grande Repercussão, que relembra crônicas que fizeram história na Folha. A iniciativa integra as comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026.

24 de agosto de 1954: falhou Getúlio ou falhou o povo? (24/11/1979)

Quem teve o privilégio de acompanhar de perto o retorno de Getúlio Vargas ao poder, em 1950, sentiu frequentemente o clima de tragédia que acompanhava a marcha do reencontro do ex-ditador com o povo do seu País. No seu patético discurso de aceitação da candidatura à sucessão do general Dutra, por volta de junho de 1950, Getúlio pintou em cores sombrias os dias que o aguardavam. "Se for para o bem do povo — exclamou ele — levai-me convosco". Mas alertou seus correligionários e amigos para os perigos e as ameaças que rondavam a sua porta. E aventou mesmo o sacrifício eventual de sua própria vida, exposta à sanha dos que temiam um eventual revanchismo na sua retomada do poder pelo voto democrático.

Não foi, aliás, sem razão que sua família, especialmente Alzira, sua filha mais atuante politicamente, procurou afastá-lo do desafio que o esperava nas urnas.

Mas, em vão. O crescente clamor nacional do "queremismo", a extensão cada vez mais espalhada do "Ele voltará", acabaram por quebrar as resistências de Getúlio. Provavelmente, a possibilidade de seu mito populista ser absorvido por alguém que ele não considerava digno de herdá-lo — no caso, em especial, Ademar de Barros — também teria influído na sua decisão de reiniciar a sua grande jornada, iniciada em 30, reformulada em 37 e cortada em 45. Mas, sem dúvida, foi seu sentimento de compromisso com o povo e sua convicção de que o povo não lhe falharia mais que pesou definitivamente na sua decisão.

"ATENTADO? SÓ POR EXCESSO DE AMOR"

A esse propósito, recorda-se o repórter de um episódio ocorrido em julho de 50, que marca significativamente os laços emocionais que prendiam Vargas ao povo. Estávamos em Natal, em plena campanha eleitoral. As avassaladoras multidões que percorriam o chão calcinado e seco do Norte ao encontro de Getúlio vinham num crescendo incontrolável à medida que a caravana avançava mais para o Sul. Em certos momentos, o transbordamento passional daquelas multidões fanatizadas, como que tomadas pela presença hipnótica do grande caudilho, faziam lembrar a figura de Gandhi e seu fascínio sobre as massas hindus; tão parecidas fisicamente com o nosso nordestino.

Essa quase apocalíptica explosão de sentimento popular em torno de Getúlio acabaria por chegar ao Sul. Estranhamente ali continuava prevalecendo a convicção de que a máquina oficial eleitoral do PSD, mais uma vez fortalecida pela divisão da classe média que optava, em sua maioria, pelo brigadeiro Eduardo Gomes, acabaria dando a vitória ao seu inexpressivo candidato, o mineiro Cristiano Machado.

Nessa oportunidade, este repórter recebeu um telegrama urgente de Assis Chateaubriand, o todo poderoso comandante dos "Diários Associados", para os quais fazia a cobertura da campanha de Getúlio. Pedia Chateaubriand confirmação ou desmentido de que teria ocorrido no capital do Rio Grande do Norte um atentado contra a vida de Getúlio Vargas. Mas, este, ao ler o despacho, ditou pessoalmente a sua resposta: "Informe o Assis, de que não houve atentado algum. Mas se atentado houvera, só poderia ser por excesso de amor popular".

Carregado nos braços do povo, eleito por quase 50% do povo, enquanto os outros 50% pulverizavam-se entre o brigadeiro Eduardo Gomes, Cristiano Machado e votos nulos e em branco. Getúlio sabia que não poderia contar com a tolerância e a compreensão de seus velhos adversários. E aos quais agora se aliavam novos e poderosos interesses monopolistas internacionais, temerosos da linha nacionalista e de justiça social que Vargas havia prometido na sua campanha.

A criação de Volta Redonda e a nacionalização das riquezas minerais do subsolo, a primeira em 42 e a segunda ainda em 1939, faziam temer justamente uma extensão menos controlável das tendências emancipacionistas de Getúlio. Além do mais, o fato de ser candidato oficial do PTB atraía contra ele a feroz oposição dos grupos empresariais mais conservadores do País, especialmente os da área do comércio. Finalmente, o surgimento do peronismo na Argentina, em plena ascensão nos anos iniciais da década de 50, contribuía para aliar com seu "justicialismo" que Perón dizia inspirado em Vargas, as inquietações das classes dirigentes menos esclarecidas do Brasil. Que não hesitaram, como pôde comprovar a UDN, em tentar sob sofismas jurídicos, mais absurdos inclusive do que tentaram abolir a impossibilidade de reconhecimento da vitória eleitoral de Getúlio.

AMPLIA-SE A FRENTE ANTI–VARGAS

Finalmente, não deve ser minimizada larga parcela das Forças Armadas que, depois de conspirar contra Getúlio Vargas durante largos anos, conseguiu finalmente sua deposição em 1945.

A exacerbada oposição civil naturalmente não deixou de capitalizar ressentimentos militares nascidos pela volta de um homem por eles deposto. Volta que era explorada como uma humilhação e uma revanche contra os vitoriosos de 29 de outubro de 45. A frente anti–Vargas se consolidava e ampliava suas ambições.

Assim, depois da posse de Getúlio, que representou um doloroso parto político, partiu ele à busca da consolidação do seu governo. E constituiu como meta um ministério de união nacional. Dele faziam parte o PSD, representado por homens como Horácio Lafer; a UDN, por dirigentes como João Cleofas, mitos nacionais como Osvaldo Aranha. E naturalmente homens do PTB, além de franco atiradores como Simões Filho, o todo poderoso dono de "A Tarde", da Bahia, e Ricardo Jafet, o industrial e financista mais chegado a Ademar de Barros, o líder do PSP.

De nada adiantou essa estratégia conciliatória de Getúlio. Talvez tenha sido até mesmo prejudicial, enfraquecendo a sua autoridade e debilitando os seus laços com o povo. Além do mais, durante 15 anos de poder contínuo, ora como ditador, ora como presidente, indiretamente eleito pelo Congresso em 34, novamente como ditador em 37 e finalmente como presidente, esmagadoramente consagrado pelo eleitorado em 50, Getúlio deixou em sua esteira ódios e apoios incandescentes.

Mas, os que conheciam a sua ação e o seu pensamento, sabiam que ele era um homem tranquilo. A sua maneira, tão contraditória e imprevisível quanto a própria natureza do povo que o idolatrava, Getúlio parecia ter consciência de que apesar dos zig-zags de sua ascensão, queda e retorno ao poder ele nunca se afastara dos rumos que o levaram a chefiar a primeira revolução popular do Brasil. Algumas vezes mencionava a Revolução Mexicana de 1910, a primeira revolução popular deste século. E não escondia certo desdém pelo precipício do autoritarismo e o monopólio partidário que enterrou num passado obscuro; sem glória, nem culto, os verdadeiros heróis populares da derrubada da oligarquia feudal e clerical mexicana, os Pancho Villa e Zapatas.

FALHOU GETÚLIO OU FALHOU O POVO?

Getúlio, nos raros momentos de confidência que concedia aos que o cercavam, deixava transparecer que sua decisão de retornar ao poder, em 50, era um corolário lógico dos compromissos que o levaram a chefiar a Revolução de 30. E cuja bandeira politicamente reformista, socialmente progressista e anticolonialista economicamente, ele desejaria manter em suas mãos até o fim de seus dias.

Assim, quando a tempestade que não lhe deu uma noite de paz desde que voltou ao poder assumiu as proporções de avalanche em fins de 1953, Getúlio não pareceu surpreendido.

São hoje amplamente divulgadas algumas de suas frases no apogeu da campanha que a grande frente nacional anti-getulista, com a UDN no comando de Carlos Lacerda na sua linha de frente, conseguiram levar ao ponto de uma aparente iminente insurreição armada.

"O tiro no Lacerda é uma punhalada nas minhas costas", disse Getúlio quando soube do atentado da rua Toneleros, em que tombou morto o Major Rubens Vaz. "Quando eles tomarem assento à mesa do banquete, puxarei a toalha"; foi seu malicioso comentário quando sua deposição já parecia inevitável. Comentário feito horas antes do tiro fatal no seu coração, às 8h25 de uma manhã cinzenta de agosto de 54.

Chegamos finalmente a uma etapa em que interpretações e comentários pela era getuliana vêm finalmente despertando nos nossos atuais círculos de ciência política do conviver com Getúlio desde 1949, em seu auto-isolamento na Fazenda do Itu, até o dia de sua morte no Palácio do Catete, limitou-se a oferecer aqui apenas algumas informações objetivas sobre acontecimentos concretos que teriam levado Vargas ao suicídio. Espero que sejam úteis ao debate.

Sobre uma pergunta, cuja resposta o repórter sobre que a ciência política procure: O que falhou na ação getuliana pós-1950, que o levou ao mais dramático holocausto da história latino-americana depois do massacre heróico de Salvador Allende?

Falhou Getúlio, que jamais fora o líder revolucionário que seus adversários procuravam tendenciosamente pintar? Ou teria ele apenas um reformista conservador, incapaz portanto de operar, em 24 de agosto, o "botão" que levaria o País inevitavelmente à guerra civil? Ou falhou o povo, que não soube lhe transmitir a mensagem de resistência à luta, como lhe comunicara com tanta intensidade a mensagem de amor e ternura na sua épica jornada eleitoral de 1950?