sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O medo da rua é a doença da cidade, Mauro Calliari, FSP

 Como dizer que uma cidade está doente?

O antropólogo francês Olivier Mongin sugeriu algumas chaves para fazer esse diagnóstico. Uma delas tem a ver com a relação com o espaço público: quando os espaços de passagem se tornam mais importantes do que os espaços de permanência, algo está errado.

A prioridade para a circulação de veículos se traduz em perda da vida pública. E fatalidades. Em São Paulo, em 2025, morreram 1034 pessoas no trânsito. O segmento que mais cresceu foi o de pedestres, com 410 mortes. É o maior número em dez anos.

As palavras e os números parecem mascarar o óbvio: pedestres, motociclistas, passageiros, motoristas, ciclistas são apenas categorias temporárias, mas todos são, melhor não esquecer, pessoas. Pessoas que estavam indo para o trabalho, encontrar o namorado, fazer uma prova na faculdade ou comprar uma escova de dentes quando morreram no trânsito.

Dois carros colidem em via urbana próxima a comércio fechado. Um veículo está com a frente danificada e o outro encostado em calçada sob marquise. Há destroços e cones de sinalização na pista.
Carros danificados após motorista atropelar clientes de bar e arrastar veículo estacionado na avenida Imperador, na Vila Jacuí, zona leste de SP - Reprodução - 19.jan.26//TV Globo

Cada pessoa que morre atropelada é a ponta de um iceberg. Para cada morte, há dezenas de feridos. Para cada ferido, há dezenas de acidentes. Para cada acidente, há dezenas de quase acidentes. São milhares de eventos ou quase eventos nas ruas por dia.

O receio de lidar com esses medos e conflitos todos pode justificar a decisão de pegar um carro (e aumentar o congestionamento) ou simplesmente ficar em casa. Uma mãe não deixa mais sua criança ir sozinha à escola. Um cadeirante pensa duas vezes antes de tentar chegar até a pracinha. O programador em home office pede o hambúrguer no delivery em vez de descer até a padaria da esquina. É o que vimos na última pesquisa de mobilidade –a redução de viagens diárias per capita.

O resultado é a perda de urbanidade, essa atitude que permite a convivência entre estranhos e que se baseia no encontro. Talvez seja mesmo o caso de diagnosticar oficialmente nossa doença urbana.

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Dá para apontar culpados? Claro que dá.

Se os motoristas dirigem olhando para o celular, se um ônibus trafega acima do limite, se motociclistas ignoram cotidianamente o sinal vermelho, podemos e devemos apurar responsabilidades individuais. Entretanto, há responsabilidade difusa pela má formação de motoristas e, certamente uma responsabilidade pública pela falta de fiscalização.

A Prefeitura é responsável por disciplinar e fiscalizar o trânsito. Mas, quando abre mão de medir as fatalidades, quando se omite para não ser chamada de "indústria de multas", quando aceita a falta de agentes da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) nas ruas, pode-se dizer que está confortável com a situação atual.

Falta admitir que existe o problema do trânsito e que ele tem efeitos sobre a própria vida urbana.

Dá para fazer muito mais, além da fiscalização. Dá para redesenhar ruas e reduzir velocidades. Aumentar a área de calçadas em todas as travessias, reduzindo o risco nas esquinas e perto dos sinais de trânsito. Existe até um bom projeto chamado Áreas Calmas, com velocidades baixas e sinalização específica, hoje restrito a quatro pequenos trechos, que poderia ser expandido de verdade.

E falta trabalhar os dados com inteligência: analisar os pontos mais fatais e reformar as vias mais perigosas com sinalização, calçadas e faixas. Aqui deveria entrar a cooperação com o governo estadual, que tem responsabilidade sobre as estradas que cortam o município e também matam muito. Falta, como em outras áreas da região metropolitana, um órgão que olhe a mobilidade na Grande São Paulo, de maneira integrada.

A doença urbana tem cura mas, na semana do aniversário da cidade, o medicamento não está sendo nem cogitado.

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