A má notícia veio na semana passada. A Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) queria barrar na Justiça a divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Logo depois, veio a boa notícia: o pedido foi negado, e na segunda-feira os dados do Enamed foram divulgados.
O comportamento da Anup equivale ao de um médico que se recusa a mostrar ao paciente os resultados de um exame mandado pelo laboratório.
Deu o que se previa: de uma maneira geral, os melhores cursos são de universidades públicas (gratuitas) e os piores são de faculdades privadas (pagas).
Uma guilda querendo abafar os resultados de um exame é um mau sinal. Se esses resultados estão relacionados com a proficiência dos médicos, o comportamento da associação de universidades particulares passa a ser um problema de saúde pública.
A guilda argumentava que a divulgação dos dados traz "riscos de danos irreparáveis aos alunos e às instituições de ensino superior". Quem traz riscos e danos irreparáveis para a sociedade são as faculdades de medicina que cobram mensalidades de até R$ 15 mil para formar alunos sem a capacidade necessária para exercer a medicina.
Médicos de renome, como o cirurgião Raul Cutait, batalham há anos para que o poder público avalie as faculdades de medicina. Elas são cerca de 400 e há outras 300 pedindo para funcionar. O Brasil passa por uma epidemia de novas faculdades de medicina. Pelo andar da carruagem, na próxima década o Brasil poderá bater a marca de 1 milhão de médicos. Resta saber se esse doutor é capaz de diagnosticar um caso de diabetes. Num exame de 2023, era alta a porcentagem dos incapazes.
O Enamed que a guilda queria abafar revelou que 3 em cada 10 cursos de medicina foram reprovados no exame que mede a qualidade da formação. Esse ensino custa perto de R$ 1 milhão à família de um aluno de faculdade particular. Segundo o Enamed, metade dos alunos não tem a proficiência necessária para exercer a profissão.
Em 2023, 13% dos cursos mostraram-se insatisfatórios, em 2025 foram 20%. A situação piorou e provavelmente os doutores da guilda de faculdades privadas suspeitavam disso. Seis em cada 10 faculdades privadas tiveram resultados insatisfatórios. Foram avaliados 351 cursos de medicina e ouvidos cerca de 90 mil alunos.
Quando a guilda das faculdades privadas tenta abafar o resultado do Enamed fortalece-se a ideia de uma prova semelhante ao exame da OAB para estudantes de direito. A faculdade forma bacharéis, mas só são advogados aqueles que passaram na prova da OAB. Se uma seleção desse tipo filtra os advogados, mais motivos existem para que se crie um filtro para os médicos.
Médico incapaz, por burrice ou interesse político, foi o do presidente Costa e Silva em 1969. Depois de ter perdido a fala por duas vezes, o marechal perguntou-lhe: "Isso não é derrame?"
"Não", respondeu o médico do palácio.
Era uma isquemia cerebral que em algumas horas emudeceu o presidente e paralisou seu lado direito, incapacitando-o.

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