Em seu discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos, nesta semana, o presidente Donald Trump voltou a disparar ataques contra as energias renováveis, em particular a geração eólica. Disse que "quanto mais moinhos de vento um país tem, mais dinheiro esse país perde" e que a China "faz quase todos os moinhos de vento, mas não os usa".
Vale notar, primeiramente, que segundo o PolitiFact (o mais respeitado site de checagem de fatos dos Estados Unidos), quase 80% das declarações de Trump verificadas ao longo dos anos foram classificadas como falsas ou predominantemente falsas —um percentual que contrasta fortemente com os cerca de 40% de Biden e os 27% de Obama.
A afirmação sobre a China é particularmente absurda. Dados da consultoria Ember indicam que a China instalou quase 70% de todos os novos aerogeradores do mundo em 2025, acumulando mais de 580 GW de capacidade instalada, cerca de 45% de todo o parque eólico global em operação no final do ano passado.
Quanto aos custos, os dados são inequívocos. Segundo relatório da Irena (Agência Internacional de Energia Renovável) publicado em meados de 2025, pouco mais de 90% dos projetos de energia renovável comissionados no mundo em 2024 foram mais baratos que qualquer alternativa fóssil. A energia eólica onshore tem um custo médio que é cerca de 50% menor que o de termelétricas movidas a combustíveis fósseis. A solar fotovoltaica é 40% mais barata.
Essa vantagem das renováveis se mantém mesmo quando se incorporam gastos adicionais com sistemas de armazenagem em baterias, algo que vem se ampliando nos últimos anos (para amenizar a intermitência dessas fontes).
Trump ignora o fato de que os combustíveis fósseis ainda recebem generosos subsídios dos governos mundo afora. Segundo um estudo do FMI publicado em dezembro de 2025, os subsídios explícitos aos fósseis somaram US$ 725 bilhões em 2024. Caso sejam incluídos os custos ambientais não cobrados (poluição, mudanças climáticas, as chamadas externalidades negativas), o total de subsídios aos fósseis chega a US$ 7,4 trilhões. É uma vantagem artificial que distorce a competição e perpetua a elevada dependência dos hidrocarbonetos.
Trump também culpa as renováveis pela alta dos preços da energia na Europa. Outra mentira. O preço do gás natural na Europa é, hoje, quase o dobro dos níveis observados antes do início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em janeiro de 2022. A causa? A substituição do gás russo por GNL importado de outros países —quase 60% oriundo dos EUA—, que é mais caro devido aos custos de liquefação/regaseificação e transporte.
Ou seja: os consumidores europeus pagam hoje o dobro pela energia em comparação com EUA e China por conta da dependência de gás natural importado, não por conta do aumento da geração eólica e solar. Ao contrário: as renováveis economizaram quase US$ 470 bilhões em combustíveis evitados em 2024, segundo a Irena.
O maior erro da Europa foi apostar em uma forte dependência de energia de um único fornecedor, a Rússia. Já sol e vento estão disponíveis de forma relativamente bem distribuída em boa parte do mundo.
Repetir inúmeras vezes uma mentira não a transforma em uma verdade. Mas o presidente dos EUA segue utilizando essa estratégia de alimentar a desinformação, seja para satisfazer seu público cativo Maga (uns 20% da população dos EUA), seja para tentar distrair as pessoas das verdades inconvenientes a ele.
Quais são elas? Em primeiro lugar, Trump está metido até o pescoço no escândalo Epstein. Segundo: ele está caminhando para perder o controle da Câmara nas eleições intermediárias para o Congresso que ocorrerão no final deste ano. Não à toa o mercado de apostas indica mais de 60% de chance de que ele sofra impeachment em 2027.


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