Há várias formas de ler os resultados do Enamed, o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, que começou a ser aplicado em 2025. Otimistas podem se regozijar com o fato de que dois terços das escolas de medicina, que se multiplicaram de forma descontrolada nos últimos anos, tiveram desempenho classificado como satisfatório. Pessimistas, por seu turno, podem destacar que 33% dos 39.258 concluintes foram considerados não proficientes. Estamos falando de um exército de quase 14 mil indivíduos que passarão a atender pacientes sem conhecimentos teóricos para isso.
O mundo está repleto de assimetrias informacionais. O cidadão que vai a um médico não tem condições de aferir diretamente se o profissional que o atende está qualificado. Ele parte do pressuposto de que, se o sujeito está legalmente autorizado a atuar, é porque está preparado. Infelizmente, isso nem sempre é verdade. Mesmo o paciente ultracuidadoso, que só vai a médicos formados pelas melhores escolas, corre riscos. Uma instituição que tenha conseguido nota máxima no Enamed ainda pode ter 10% de seus egressos categorizados como não proficientes.
O melhor modo de resolver isso é vinculando a licença médica à aprovação no Enamed. O Inep, o órgão do MEC que elabora exames, já desenhou a nova prova para permitir que ela cumpra a função de distinguir quem tem conhecimentos para ser médico de quem não tem (o sistema de avaliação anterior não servia para fazer esse filtro), mas falta aprovar uma lei para que isso ocorra. E o lobby das escolas médicas, contrárias à prova, é um lobby poderoso. Minha impressão, porém, é que em algum momento não muito distante a vinculação do exercício profissional à aprovação no Enamed será inevitável.
Houve um instante em meados dos anos 2010 em que foi necessário formar mais médicos. Só que, como sempre acontece no Brasil, falhamos miseravelmente na implantação e agora temos muito mais escolas do que precisamos formando muito mais gente do que o necessário e com preparo insuficiente.

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