quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Pedra sobre pedra, contrato sobre contrato, Mauricio Portugal Ribeiro, FSP (definitivo)

 Nas catedrais bem construídas, não é preciso saber rezar. Basta sentar-se, respirar fundo e olhar ao redor: o silêncio ganha forma, o espírito se expande e os desejos do corpo recuam. Algo ali nos desloca do imediato e nos reconcilia com a ideia de permanência.

Isso vale também, à sua maneira, para os grandes templos da Antiguidade –gregos, romanos, egípcios– e até para as pirâmides, que eram túmulos e, ao mesmo tempo, declarações públicas de poder, ordem e continuidade. Foram obras concebidas por gente de saber enciclopédico, erguidas ao longo de décadas ou séculos, e "aperfeiçoadas" por milênios de uso, ruína e restauração. Tornaram-se símbolos do que humanos conseguem fazer quando trabalham para além do próprio horizonte.

Catedral gótica de Milão iluminada em luz amarela contra céu escuro. Pessoas na praça em frente, algumas tirando selfies, com postes de luz acesos ao redor.
A catedral Duomo, em Milão, na Itália - Fabrizio Bensch - 2.nov.25/Reuters

E isso ocorreu em épocas em que, como lembraria Newton, a chance de subir nos ombros dos antepassados para ver mais longe era escassa. O saber acumulado circulava pouco, a memória institucional era frágil e o registro era caro: só uma pequena parcela era letrada. Havia muito conhecimento –filosófico, teológico, artístico–, mas raramente sistematizado para produzir engenharia como a entendemos hoje. A ciência aplicada e a técnica moderna só ganhariam corpo, de fato, a partir do Renascimento.

Mas, o que isso tem a ver com infraestrutura, que é o tema desta coluna?

Tudo. Infraestruturas são instrumentos para satisfazer necessidades essenciais. Na Antiguidade e, sobretudo, na Idade Média, os templos eram o centro da vida da cidade. A religião —liturgias, sacrifícios, festas, assistência, pertencimento— organizava a vida coletiva com força comparável àquela com que hoje organizamos as cidades em torno de água, saneamento, energia, mobilidade, conectividade e moradia.

Imagine-se, então, uma obra que levará gerações: pedra sobre pedra, à mão; cada vitral, cada arco, a sacristia, o claustro, o órgão; criptas, túmulos, capelas de reis, clérigos e nobres. Aliás, a nave no sentido Leste-Oeste, comum nas catedrais góticas, e os vitrais são temas em si: planejados milimetricamente para um controle refinado da iluminação passiva, séculos antes da engenharia luminotécnica moderna. E tudo isso em sociedades que muitas vezes conviviam com fome, doenças e baixa expectativa de vida – ainda assim apostando que a geração seguinte continuaria a tarefa hercúlea de concluir o monumento.

Isso só é possível quando cada indivíduo, poeira ao vento no universo –como diria o Gênesis, Paul Simon ou Carl Sagan– se enxerga como elo, não como ápice: reconhece quem começou, preserva e amplia o que recebeu, e confia que outros farão sua parte. É uma ética da continuidade.

É aqui que o mito fundador de Roma, narrado na Eneida, de Virgílio, oferece uma imagem perfeita. Eneias foge de Tróia em chamas levando Anquises, o pai, nos ombros, e caminhando de mão dada com Ascânio, o filho. É o emblema máximo da pietas romana: não abandonar o passado que nos sustenta e não soltar a mão do futuro que nos julgará.

O Brasil precisa dessa mesma disposição, agora aplicada ao ciclo de planejamento, contratação e investimento em infraestrutura. Obras essenciais não cabem no calendário eleitoral nem se sustentam com sobressaltos regulatórios, improviso orçamentário ou descontinuidade contratual. Exigem projeto, capacidade técnica, instituições que aprendem, e uma cultura que trate a entrega pública como patrimônio intergeracional.

Num tempo em que o setor volta a ser prolífico, a lição das catedrais é clara: é preciso honrar aqueles que contribuíram para chegarmos até aqui; e é preciso a consciência de que as necessidades essenciais de hoje nem sempre serão satisfeitas nesta geração. Mas cada geração pode –e deve– assentar a sua pedra, deixando para as próximas um terreno mais firme onde continuar a obra.

Talvez, para devolver sentido às grandes obras coletivas, precisemos resgatar algo além de técnicas e contratos: uma mitologia comum e um certo heroísmo cívico. Voltar ao espírito latino-romano –que transformava a construção do mundo material em dever moral, honrava o passado e assumia responsabilidade pelo futuro– pode ser o caminho para reconciliar infraestrutura e civilização, sempre lembrando que sociedades não se erguem apenas com obras, mas com narrativas que ensinam cada geração a assumir o risco, o esforço e a glória de construir para além de si mesma.


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