Imagine um sujeito que compra um carro por R$ 90 mil e, no processo de divórcio, apresenta papéis ao juiz dizendo que o veículo (em posse da ex-mulher) vale R$ 1,1 milhão. Sem restauração ou reparos. Apenas uma reavaliação conveniente.
O exemplo é para ilustrar um intrigante episódio revelado recentemente no onipresente escândalo do Banco Master. Como noticiou o Valor Econômico, um conjunto de cédulas de crédito foi adquirido por um fundo ligado ao grupo por cerca de R$ 850 milhões e, mais tarde, apareceu reavaliado em seu balanço por aproximadamente R$ 10,8 bilhões. Doze vezes mais.
No mundo real, ativos assim raramente se multiplicam dessa forma apenas porque alguém decidiu olhar para eles de outro ângulo. E me chamou a atenção o veículo escolhido para operar a mágica: um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC).
Os FIDCs já somam quase R$ 1 trilhão em patrimônio e representam cerca de 7% de toda a indústria de fundos no Brasil —mais do que os fundos de ações. Tornaram-se uma engrenagem relevante do sistema financeiro.
A explicação é estrutural: quase 75% do crédito no país passam pelos bancos. Mas a tendência é de redução dessa concentração, com o mercado de capitais assumindo uma fatia cada vez maior do financiamento da economia.
Os FIDCs estão no centro dessa transição, antecipando créditos, na compra de recebíveis —contratos, duplicatas, parcelas futuras, precatórios. Compram com deságio e recebem o valor cheio lá na frente. A diferença remunera seus investidores.
O problema é que para permitir a oferta de crédito para cadeias muitas vezes longas, pulverizadas e difíceis de auditar, os FIDCs dão bastante espaço para criatividade financeira. Isso gera bons e legítimos negócios, ao mesmo tempo que dá espaço para quem gosta de trabalhar longe do compliance.
Por isso o investidor precisa entender o que, de fato, é feito dentro do FIDC em que ele aplica —ou em que tipos de FIDCs investe o fundo que recebe seu dinheiro. Não basta saber que é "crédito". É preciso saber de onde ele vem, como é validado e o que acontece quando o fluxo esperado não se confirma.
Além do caso das cédulas de crédito, que citei acima, vale citar também o exemplo da Fictor, mais uma envolvida no caso do Banco Master. A empresa captou investidores prometendo altos e garantidos retornos por meio de estruturas privadas pouco reguladas, chamadas SCPs (Sociedades em Conta de Participação), nas quais, em outras palavras, fazia o que quisesse com o dinheiro. Depois de crescer nesse modelo, migrou seus investidores para FIDCs.
Nesta semana, começou a atrasar pagamentos, e investidores com os quais conversei não fazem ideia de onde seu dinheiro estava sendo aplicado.
Nada disso significa que os FIDCs sejam um erro. Ao contrário. Eles podem ser instrumentos excelentes para gerar retorno num país em que o crédito ainda é caro, a intermediação bancária segue concentrada e os juros nas alturas criam oportunidades reais para quem sabe estruturar bem o risco.
Mas quando um instrumento passa a carregar uma fatia relevante do financiamento da economia, o nível de escrutínio precisa crescer junto. Quem souber diferenciar o joio do trigo certamente será premiado. Quem não fez o dever de casa já começa a sentir cheiro de queimado.

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