terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A arte de escrever para não morrer, Mirian Goldenberg, FSP (definitivo)

 Estou preparando uma palestra sobre finitude, envelhecimento e legado. Logo no início, cito um trecho de "Despedida", última crônica de Rubem Alves para a Folha (1º de novembro de 2011).

"Essa crônica é uma despedida. Resolvi, por decisão própria, parar de escrever... Devo ter perdido o juízo... Fernando Pessoa tem um poema que diz assim: ‘Tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, tenho dó delas...’ E ele se pergunta se ‘não haverá um cansaço das coisas, de todas as coisas...’ Respondo: Sim. Há um cansaço. A velhice é o tempo do cansaço de todas as coisas. Estou velho. Estou cansado. Já escrevi muito. Mas, agora, meus 78 anos estão pesando. E como acontece com as estrelas, há sempre a obrigação de brilhar. A obrigação: é isso o que pesa".

Por que meu mestre de "escutatória", que me ensinou a "arte de escutar bonito", ficou cansado de escrever?

Ilustração estilizada mostra mulher com cabelo azul longo e ondulado, vestindo blusa vermelha, segurando um objeto fino na mão direita. Fundo azul claro com estrelas amarelas e laranja ao redor.
Claudia Liz

"Perco o sono atormentado por deveres, pensando no que tenho de escrever... Não tenho novidades a escrever. Mas tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever... O tempo dos jornais é o hoje, as presenças. Mas minha alma é movida pelas ausências: nos jornais, não há lugar para ressurreições... Jornais são seres do tempo. Notícias: coisas do dia, que amanhã estarão mortas... E é por isso que vou parar de escrever: porque estou velho, porque estou cansado... porque quero me livrar dos malditos deveres que me dão ordens desde que me conheço por gente."

Quantas vezes eu também me sinto velha e cansada de todas as coisas. A obrigação de brilhar sempre: é isso o que pesa...

Rubem Alves, aos 70 anos, escreveu "Sobre a morte e o morrer" (12 de outubro de 2003).

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"Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: ‘Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?’. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: ‘Não chore, que eu vou te abraçar...’ Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade... O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo... Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza".

Meu cronista favorito deu uma entrevista ao jornal Valor (26 de outubro de 2012) com o título "Coma os morangos".

"O pior da velhice é que as pessoas passam a nos tratar por diminutivos, como fazem com as crianças. ‘Você está doentinho? "Quer um docinho?’ É humilhante... A gente é velho quando as moças nos oferecem lugar no metrô... A percepção é que a hora de partir está chegando."

Aos 79 anos, ele já experimentava uma espécie de "morte simbólica".

"O tempo me foge... Não tenho mais tempo para escrever uma coisa com começo, meio e fim... Tenho que escrever rápido, porque não sei quando vou partir... Uma das coisas da velhice é o cansaço. Dá uma canseira de viver, sabe? Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Mas a gente não tem mais disposição para fazer a obra nascer. A gente tem que agarrar o que resta".

Comecei a escrever para a Folha no dia 1º de junho de 2010. Rubem Alves morreu no dia 19 de julho de 2014, aos 81 anos. Chorei quando li "Despedida". Se Rubem Alves estava cansado nos seus 70 anos, o que vai acontecer com uma mera aprendiz da "arte de escrever para não morrer"?


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