sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Mario Sergio Conti - Haddad analisa sabichões, prosaicos e povão em novo livro, FSP

 A política despreza a escrita. Até aí, nada demais. Na regra, os brasileiros são ágrafos. Engenheiros, funcionários, médicos, artistas, pilotos, astrólogos, sacerdotes, atletas e cientistas pouco escrevem.

O motivo óbvio é o baixo nível da educação nacional, cuja última patologia, divulgada há dias, foi a constatação que um terço dos estudantes de medicina não sabem o beabá de... medicina. Além do que, escrever dá trabalho, enquanto papagaiar é mamão com açúcar, basta abrir a boca.

Políticos ladinos não põem no papel o que pensam e querem porque o que pensam e querem é bem-bom para seu desfrute exclusivo. O lero-lero oral lhes serve de névoa para ocultar a cupidez. Por que um Kassab desses poria, preto no branco, que quer se arrumar e o Brasil que se exploda?

A exceção é Fernando Haddad. Não só escreve artigos acerca do que fez e faz –foi prefeito, ministro da Educação e está à frente da Fazenda– como produz cartapácios. É um mistério onde arruma tempo para tanto.

Há três anos, publicou "O Terceiro Excluído", uma meditação sobre o futuro que se abre à humanidade feita com base na biologia, na linguística e na antropologia. E agora a Zahar lança "Capitalismo Superindustrial - Caminhos Diversos, Destino Comum", um livro tão ambicioso quanto inventivo.

Ao centro, o busto de Fernando Haddad em tons vivos e contorno escuro. O rosto, com gesto de reflexão,  está circundado por variados balões de pensamento. 
Bruna Barros/Folhapress

Ao contrário do trabalho anterior, este último está lastreado na história. Recua ao Império Romano, passa pela Idade Média e acompanha a formação da modernidade até chegar à atualidade. A amplitude é também geográfica: como a sociedade do capital nasceu na Europa, é dali que parte, detendo-se na Ásia e nas Américas.

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"Capitalismo Superindustrial" é abrangente porque estuda uma entidade que vara o tempo e o espaço, as classes. Desde sempre as classes dominantes preferem falar em indivíduos. Margaret Thatcher chegou ao desplante de afirmar que a sociedade não existe, apenas pessoas e famílias.

Haddad põe a questão nos eixos. Explica que as classes precedem o capitalismo. Em Roma havia patrícios, cavaleiros, plebeus e escravos. Na Idade Média, senhores, vassalos, mestres e companheiros.

Para Marx, haveria no capitalismo a progressiva divisão da sociedade em duas classes, burguesia e proletariado, advinda do choque do incremento tecnocientífico (forças produtivas) com a organização social fundada na propriedade privada (relações de produção). Haddad diz que tal polarização "aparentemente não se deu".

Ele lida com uma bibliografia enorme, com pensadores de várias tendências, de revolucionários a reformistas e conservadores. Mas o que estrutura o livro são as ideias de Marx, tidas não como as tábuas da lei, e sim como matéria passível de críticas e discordâncias.

É nesse espírito que investiga a fragmentação das classes. Há hoje trabalhadores braçais e qualificados. Os desempregados criados por crises e os definitivos, o "precariado", cujo trabalho é inútil. O operariado que usufrui do sistema de bem-estar social e o lumpesinato, que, para Marx, "a condição de vida o predispõe a vender-se à reação".

Nas classes dominantes também há pulverização, trabalhadores patronais: executivos, diretores e gerentes que funcionam como correias de transmissão dos proprietários. São assalariados regiamente remunerados que, sem deixar de vender sua força de trabalho, demitem, impõem metas, zelam pela obtenção de lucro.

Nesse estilhaçamento, Haddad detecta uma classe emergente, a integrada por "cientistas, engenheiros, técnicos e consultores contratados pelo capital para promover um contínuo processo de inovação tecnológica e administrativa interno às empresas". Não são os antigos funcionários qualificados, e sim "agentes inovadores que vendem sua força anímica" –a classe que revoluciona a tecnologia, o "cognitariado".

Essa classe anima o capitalismo superindustrial do título do livro. Nele, a reprodução material e espiritual da sociedade se dá por meio da mercantilização da ciência e do conhecimento. As classes não proprietárias, nesse panorama, seriam três: o cognitariado, o proletariado e o precariado. Ou seja, sabichões digitais, trabalhadores prosaicos e o povão sem eira nem beira.

Frente a essa situação, que é internacional, um russo das antigas perguntaria: que fazer? Nem "Capitalismo Superindustrial", nem Lênin redivivo, nem ninguém pode ter uma resposta pronta. Mas Haddad vislumbra dois caminhos inescapáveis, um concreto e outro imaterial: algum tipo de articulação internacional e muita imaginação política.

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