quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Anhangabaú público ancora ideia para requalificar o centro de São Paulo, FSP

 Clayton Castelani

São Paulo

Avançar pela rua Formosa sob o viaduto do Chá requer explicar a um segurança o intuito da caminhada em dias de grandes eventos no vale do Anhangabaú. A esplanada de 43 mil m² no Centro Histórico de São Paulo tem acessos frequentemente fechados para apresentações musicais e outras atividades com cobrança de ingresso desde que a iniciativa privada assumiu a gestão do espaço em dezembro de 2021.

Dinâmica que vai na contramão do projeto que embasou a reforma de R$ 105 milhões executada na gestão do então prefeito Bruno Covas (1980-2021) para transformar a área em um parque urbano.

Resgatar a ideia de uma ampla área de lazer em um cartão postal da capital paulista é a proposta do arquiteto Silvio Oksman para o quinto e último projeto da série Centro em Transição, que mostra planos de especialistas em urbanismo para a requalificação da região central da cidade.

Pessoa vestindo camiseta preta, bermuda preta e boné azul caminha sozinha sobre grande área pavimentada clara com várias marcações retangulares no chão.
Homem caminha sobre o piso de concreto com chafarizes desativados no vale do Anhangabaú, na região central da cidade de São Paulo - Eduardo Knapp/Folhapress

O ciclo de reportagens será concluído neste sábado (24), véspera do aniversário do município, com a publicação de um documentário que reúne os planos para o parque Dom Pedro 2ºBom Retirolargo da MisericórdiaCampos Elíseos e Anhangabaú.

Sócio do escritório Metrópole Arquitetura, Oksman tem entre suas especialidades projetos de modernização de edifícios antigos que se tornaram obsoletos e subutilizados. As bordas do vale estão repletas de propriedades carentes desse tipo de transformação.

Cerca de uma dezena de prédios muito próximos pertencem ao poder público, na maioria propriedades do município. Imóveis que poderiam ser concedidos à iniciativa privada para usos múltiplos, mesclando habitação social, residenciais de classe média e escritórios, entre outros, projeta Oksman.

Recursos obtidos com essas concessões estariam atrelados à manutenção do parque. O novo modelo serviria para compensar o custeio público do espaço ou ressarcir a concessionária —o consórcio Viva o Vale é detentor do direito de explorar a área por dez anos— pela perda de arrecadação com a proibição do fechamento do local para eventos privados.

Com esse dinheiro, o gestor do espaço seria obrigado a fazer funcionar atrações já presentes no vale, como os 850 jatos d’água instalados sob o piso. O elemento aquático teria a função de refrescar frequentadores nos dias quentes. Hoje, os chafarizes passam a maior parte do tempo desligados.

Outro atrativo criado pela reforma que poderia ser reabilitado é o conjunto de quiosques instalados nas laterais do parque. Atualmente, as bancas passam quase todo o tempo sem funcionar e cercadas por grades.

Espera-se que o parque, ao funcionar plenamente, provoque efeito semelhante ao gerado por outras áreas de lazer, como jardins públicos e afins: a atração do mercado imobiliário, setor fundamental para o repovoamento dos distritos centrais da cidade.

Reformular a concessão para impedir a utilização do espaço como arena também eliminaria o excesso de barulho gerado pelos shows que ocorrem no local, um dos principais empecilhos para tornar esse trecho do centro atrativo para empreendimentos residenciais, segundo Oksman.

"Se a gente olhar de outra forma para o espaço público, numa área repleta de infraestrutura, o Anhangabaú poderia, ao invés de ser o pior elemento, ser o que qualifica todo o seu entorno", diz o arquiteto.

Ao se tornar desejado pelos paulistanos, o Anhangabaú seria um empurrão a mais para incorporadores e construtores a investirem em retrofits de prédios particulares no entorno, uma vez que a legislação municipal já oferece estímulos financeiros neste trecho da cidade.

O Anhangabaú está em uma área na qual a prefeitura tem um programa específico para a modernização de prédios. Alguns dos benefícios previstos para imóveis recuperados estão isenções de impostos municipais e o reembolso parcial de valores gastos com obras.

Novos estímulos específicos para o Anhangabaú também poderiam ser criados, de acordo com o plano de Oksman.

"O mercado constrói a cidade e estamos rodeados de oportunidades. A gente tem muita vacância, muita área construída, e espaços ainda livres para novos prédios", diz o arquiteto. "A qualificação do Anhangabaú pode qualificar seu entorno imediato de forma brutal".

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