O conselho da paz (CP) de Donald Trump é a tentativa de criar um "bypass" do Conselho de Segurança (CS) da ONU sobre o qual o presidente americano possa imperar. Não será, portanto, uma força estabilizadora em termos globais. O mais provável é que vire uma ferramenta da qual o Agente Laranja se utilizará a fim de impor seus caprichos ao mundo.
Paradoxalmente, o CS só funciona —e pouco— porque não funciona. Traduzindo, o principal órgão decisório das Nações Unidas, no qual as cinco potências vencedoras da 2ª Guerra Mundial têm poder de veto, só entra em ação quando existe um relativo consenso em relação ao que deve ser feito. E é assim que deve ser, se o objetivo é produzir soluções para problemas globais de forma multilateral. Se gerar consensos já é difícil em situações normais, torna-se quase impossível em momentos, como o que vivemos, de maior desconfiança entre os cinco membros permanentes do CS.
É interessante também observar que se, até ontem, o CS operava com um bloco ocidental (EUA, Reino Unido e França) relativamente unido que buscava atrair as mais soltas China e Rússia para causas específicas, desponta agora uma nova ordem que contrapõe as potências com agendas imperialistas (EUA, China e Rússia) às que se ressentem do desaparecimento do multilateralismo liberal (Reino Unido e França).
O mundo, porém, é um lugar complexo. O CP trumpiano é uma embromação, mas talvez seja o caminho mais fácil para trazer alguma normalidade para Gaza. Ele deve servir para impedir Israel de retomar os ataques e para supervisionar o desarmamento do Hamas. Sem esses dois passos, Gaza não terá um futuro.
Isso coloca o Brasil, convidado para integrar o CP, em posição delicada. Se, de um lado, ajudar na normalização de Gaza é uma ação louvável, de outro, legitimar a farsa de Trump pioraria o planeta. O mais sensato é desconversar, tomando o cuidado de não despertar a ira do Agente Laranja. Ele já ameaçou a França com uma sobretaxa de 200% na champanhe porque Macron recusou seu convite.

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