sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Marcos Amado - Uso político da fé não tem fronteiras, FSP

 Marcos Amado

Pastor, teólogo e missionário, é autor do ebook 'Israel, o Armagedom e os Árabes Palestinos' (Martureo, 2019)

Durante os séculos 19 e 20, diversos intelectuais ocidentais acreditavam que o progresso científico e tecnológico levaria, de forma inevitável, à diminuição da influência da religião ao redor do mundo. A modernidade, supunha-se, substituiria a fé pela razão. No entanto, ao observarmos a trajetória da humanidade nos últimos 200 anos, torna-se evidente que tais previsões estavam equivocadas. Longe de desaparecer, a religião continua exercendo profundo impacto político, social e cultural.

Um exemplo emblemático dessa realidade é o Irã contemporâneo. O país que conhecemos hoje é, em grande medida, resultado da Revolução Islâmica de 1979, quando clérigos xiitas assumiram o poder e estabeleceram uma teocracia fundamentada em uma interpretação específica do Alcorão, o livro sagrado do Islã. Para muitos iranianos, aquele momento representou um novo começo: uma esperança renovada, a promessa de prosperidade e o fim da tirania e da corrupção associadas ao regime do xá Reza Pahlavi, apoiado pelo Ocidente.

Mulher com cabelo cacheado queima foto de dois líderes religiosos durante protesto. Pessoas ao fundo seguram cartazes e bandeiras, algumas usam máscaras.
Protesto contra o regime iraniano em frente ao Consulado dos EUA em Milão, na Itália - Piero Cruciatti - 13.jan.26/AFP

No entanto, esse sonho não se concretizou. Ao longo das décadas, a repressão religiosa se intensificou, buscando impor à população uma interpretação rígida do islã. Apesar de possuir vastas reservas de petróleo, a economia do país deteriorou-se significativamente. Nos últimos meses, a desvalorização da moeda local agravou ainda mais as condições de vida, levando novamente a população às ruas em protesto.

Uma das causas dessa situação crítica é a insistência da liderança política iraniana em desenvolver a capacidade de enriquecimento de urânio. Oficialmente apresentado como um programa de fins pacíficos, ele é visto por grande parte da comunidade internacional como uma tentativa de alcançar armamento nuclear. Esse projeto consome bilhões de dólares e acaba desviando recursos que poderiam ser destinados às necessidades mais urgentes da população.

Entre os objetivos atribuídos ao regime iraniano por seus discursos e por analistas internacionais, destaca-se o reiterado desejo de ver o Estado de Israel destruído. Isso transforma o Irã em alvo constante de ações militares e cibernéticas por parte de Israel e de seu principal aliado, os Estados Unidos, que também se sentem ameaçados por eventuais mísseis nucleares iranianos. O cenário evidencia a complexa interseção entre política, religião e segurança internacional.

Mas o que leva os aiatolás a se disporem a pagar um preço tão alto? Para muitos observadores, a resposta passa por uma motivação religiosa. Ela está ligada a uma declaração atribuída ao profeta Maomé, registrada não no Alcorão, mas na tradição islâmica. Segundo esse relato, nos eventos escatológicos que antecederiam o fim dos tempos, ocorreria um conflito final no qual os muçulmanos lutariam contra os judeus, culminando numa perseguição total. A partir dessa leitura escatológica, adotada por setores do regime iraniano, a destruição do Estado de Israel seria vista como parte do cumprimento das profecias e da instauração do Reino de Deus.

Essa realidade deveria provocar uma reflexão honesta entre os cristãos. Enquanto líderes xiitas enxergam a destruição de Israel como um passo necessário para o fim dos tempos, algumas correntes teológicas cristãs, inclusive no Brasil, alimentam o desejo de ver a mesquita em Jerusalém destruída e Israel triunfando sobre seus inimigos muçulmanos, acreditando que isso aceleraria o retorno de Cristo. Essa mentalidade contribui para intensificar ações de grupos radicais e reforça a animosidade entre cristãos e muçulmanos.

Foi nesse contexto que a jornalista israelense Noa Landau expressou sua frustração ao afirmar que "o desejo compartilhado pelo apocalipse agora uniu fanáticos religiosos em Teerã, Gaza, Jerusalém e Washington". Ela cita líderes cristãos que pressionam seus governos a oferecer apoio incondicional a Israel, promovendo uma teologia que legitima a guerra como meio de cumprir profecias bíblicas.

Desde os tempos do imperador Constantino, quando a igreja deixou de ser perseguida e tornou-se, gradualmente, a religião oficial do Império Romano, a fusão entre religião e Estado tem se mostrado nociva. No Brasil, nos Estados Unidos e em Israel, grupos religiosos trabalham para impor suas convicções aos governos, contribuindo para a ausência de paz e para o sofrimento humano. Não creio que esse tenha sido o ensinamento deixado pelo Príncipe da Paz.

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