quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Hannah Arendt e Simone de Beauvoir nos ensinam a dimensão política de julgar, Juliana de Albuquerque -FSP

 Durante o recesso de final de ano, passei boa parte do meu tempo revisitando alguns textos de Simone de Beauvoir com a intenção de produzir um artigo acadêmico em comemoração aos 80 anos de publicação de "Por uma Moral da Ambiguidade" (1947).

Foi a partir desse exercício que também acabei escrevendo sobre Beauvoir em minhas colunas de dezembro e do início deste mês, justamente na semana do aniversário da filósofa, nascida em 9 de janeiro de 1908.

Mulher ao fundo observa séria, sentada.
A filósofa Simone Beauvoir no Teatro João Caetano, em São Paulo - 5.set.60/Acervo UH/Folhapress

Recentemente, um dos temas que tem me chamado bastante atenção em seus escritos trata da tensão entre política e moral, talvez em virtude do nosso momento político, em que questões morais têm se mostrado cada vez mais relevantes; talvez também porque, durante os últimos anos, eu tenha me dedicado cada vez mais à leitura de outros pensadores, como Hannah Arendt.

Beauvoir e Arendt abordam essa tensão de maneiras distintas. Hoje, no entanto, eu gostaria de destacar uma coincidência no percurso dessas duas filósofas, algo que até agora havia me passado despercebido.

Faço isso apenas com a intenção de ressaltar a importância de relermos os nossos autores prediletos, porque acredito que todo texto é inesgotável. Isto é, ele sempre há de se tornar mais rico de significados e possibilidades a partir das experiências e da bagagem intelectual que trazemos conosco a cada releitura.

Como se sabe, em 1961, Arendt esteve em Jerusalém a convite da revista New Yorker para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann, oficial nazista responsável por coordenar a deportação de judeus para campos de concentração e extermínio. Foi a partir dos artigos escritos para a New Yorker que ela publicou "Eichmann em Jerusalém: um Relato Sobre a Banalidade do Mal" (1963).

A publicação de "Eichmann em Jerusalém" gerou uma imensa controvérsia, principalmente entre os intelectuais judeus norte-americanos, muitos dos quais acusaram Arendt de culpabilizar as vítimas e de relativizar a responsabilidade de Eichmann pelo Holocausto ao retratá-lo como um burocrata, em vez de um fanático ideológico.

Mas algo que muita gente desconhece é que, durante a segunda metade da década de 1940, Beauvoir também refletiu sobre um evento comparável. Seu ensaio "Olho por Olho" (1946), publicado na revista Les Temps Modernes, de Jean-Paul Sartre, aborda o julgamento de Robert Brasillach, jornalista e célebre escritor francês que, durante a Ocupação, foi editor de um periódico colaboracionista.

Fervoroso antissemita, Brasillach publicou em seu jornal listas de nomes e endereços de judeus franceses, contribuindo para que muitos fossem destituídos de suas cidadanias, demitidos de seus empregos, presos e, posteriormente, deportados para campos de concentração.

Embora Brasillach tenha sido condenado à morte, vários intelectuais franceses do pós-guerra, incluindo Albert Camus, assinaram uma petição para que a pena não fosse aplicada. Beauvoir, entretanto, recusou-se a assinar o documento, pois entendia que Brasillach deveria, sim, ser condenado à morte, mas discordava da justificativa da sentença, que o acusava de traição.

Segundo Beauvoir, para que o sentenciamento de Brasillach pudesse, ainda que de modo precário, surtir o efeito desejado pela sociedade francesa da época, ele deveria ter sido julgado em termos concretos, com base em suas ações. Ela entendia que Brasillach deveria ter sido sentenciado pelo modo como negou a humanidade de outros seres humanos, e não apenas por traição.

Aqui, o posicionamento de Beauvoir dialoga com o de Arendt, que, ao escrever sobre o caso Eichmann, considera justificável a pena de morte aplicada ao réu, mas propõe uma sentença diferente daquela proferida pelos juízes israelenses. Segundo Arendt, Eichmann merecia a morte por executar uma política que negava a outros povos o direito de existir, tomando para si o poder de decidir quem poderia habitar a Terra. Portanto, nenhum ser humano teria obrigação de compartilhar o mundo com ele.

Apesar das diferenças nas abordagens de cada caso, tanto Arendt quanto Beauvoir destacam a importância política da nossa capacidade de julgar. Por isso, considero especialmente enriquecedora a minha recente experiência de retornar ao texto de Beauvoir com um pouco mais de bagagem, à luz do que Arendt escreve sobre Eichmann. Pois essa releitura me trouxe novos recursos para dialogar com duas das minhas pensadoras prediletas.

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