Vem repercutindo bastante nas redes sociais nos últimos dias o relato de um empresário do setor de comércio de Santa Catarina. Ele apontou que iria fechar seu negócio por conta da dificuldade de contratar mão de obra e associou isso ao programa Bolsa Família. Como quase tudo nos últimos tempos, esse episódio nasceu carregado de preconceitos e gerou forte polarização. E, quando isso acontece, geralmente um debate mais equilibrado costuma ser a primeira vítima.
De fato parece haver evidências empíricas de que a forte expansão do Bolsa Família, tanto em termos de cobertura como de valor médio do benefício, gerou algum efeito negativo sobre a oferta de trabalhadores e aumentou a informalidade, como argumentei em uma coluna anterior.
Contudo, é importante destacar que esse efeito pode estar se reduzindo bastante mais recentemente, sobretudo desde meados de 2025. Isso porque o número de beneficiários vem recuando, seja por conta da melhoria do mercado de trabalho (que faz com que muitas pessoas deixem o programa), seja pelo aperto na fiscalização pelo governo.
Entre 2014 e o final de 2021, o número de beneficiários do programa oscilou de 14 milhões a 14,5 milhões (famílias). Com a alteração para o Auxílio Brasil no final de 2021, a cobertura foi ampliada para pouco mais de 18 milhões até meados de 2022. Às vésperas das eleições presidenciais de 2022, o governo anterior promoveu uma nova rodada de ampliação, de modo que o contingente de beneficiados se aproximou dos 22 milhões ao final daquele ano.
Entre o começo de 2023 e junho de 2025, esse número recuou um bom tanto, para perto de 20,5 milhões. Ao longo do segundo semestre de 2025, a queda foi mais expressiva, com a cobertura chegando a 18,7 milhões em dezembro de 2025. Portanto, em relação ao pico, observado na virada de 2022 para 2023, houve uma redução de mais de 3 milhões de famílias beneficiadas pelo programa.
Ademais, embora as estimativas empíricas –realizadas com dados que ainda não levaram em conta essa queda expressiva dos beneficiários no segundo semestre de 2025– apontassem para algum efeito negativo sobre a oferta de mão de obra, não necessariamente isso era de todo ruim, já que parte dessas pessoas, sobretudo os mais jovens, passaram a estudar mais (como apontou meu colega de Instituto Brasileiro de Economia, Daniel Duque, em um estudo publicado em agosto do ano passado), algo que tende a gerar efeitos favoráveis sobre o mercado de trabalho mais à frente.
No mais, uma política pública deve ser avaliada a partir da comparação entre os seus benefícios e seus custos (ou seja, o saldo líquido). Por mais que essa ampliação recente do Bolsa Família possa ter feito emergirem alguns efeitos contraproducentes sobre a oferta de mão de obra, os benefícios do programa ainda superaram largamente seus custos, como atestam diversos estudos. De todo modo, o ideal seria tentar aprimorar continuamente o programa, buscando potencializar os efeitos favoráveis e minimizar os efeitos desfavoráveis (até mesmo porque os recursos fiscais não são infinitos).
Voltando ao caso do empresário, outros fatores certamente estão afetando muito mais adversamente a oferta de mão de obra para as empresas além do Bolsa Família. Se entre 2016 e 2024 havia excesso de desemprego, hoje isso já não acontece, uma vez que estamos próximos do chamado "pleno emprego".
Por fim, empresários como ele estão cada vez mais sofrendo concorrência com a chamada "gig economy", o mundo dos trabalhadores por aplicativos, que são "conta própria". De acordo com estimativas do Banco Central, o número de pessoas nesse segmento saltou de 770 mil em 2015 para 2,1 milhões em 2025.

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