domingo, 22 de fevereiro de 2026

Ruy Castro _FSP

 

Todas as reportagens que se fizeram sobre o excepcional ator Robert Duvall, morto no domingo (15), citaram sua fala no papel do tenente-coronel Kilgore em "Apocalipse" (1979), de Francis Ford Coppola. De farda, mas sem o dólmã e com um chapéu de ranger da Cavalaria americana, em meio às explosões no Vietnã, ele diz, já com uma ponta de nostalgia da guerra: "Adoro o cheiro de napalm pela manhã".

É uma grande fala, escrita pelo roteirista John Milius. Duvall a imortalizou, mas só tem sentido no filme. Você nunca a aplicou na vida real. Frases boas de filmes são aquelas que entram para o nosso dia a dia e não se sabe de quem são ou de onde vieram. Como "Ninguém é perfeito", que Joe E. Brown diz para Jack Lemmon em "Quanto Mais Quente Melhor" (1959), de Billy Wilder. Quem a escreveu? I.A.L. Diamond, parceiro de Billy como roteirista em 12 filmes.

E "Quando a lenda supera a realidade, publica-se a lenda", em "O Homem que Matou o Facínora" (1962), de John Ford? De quem é? De James Warner Bellah. E "Amar é não ter de pedir perdão", em "Love Story" (1970), de Arthur Hiller? De Erich Segal. E "Vou fazer uma proposta que [você] não conseguirá recusar", em "O Poderoso Chefão" (1972), também de Coppola? De Mario Puzo. E "Siga o dinheiro", em "Todos os Homens do Presidente" (1976), de Alan J. Pakula? De William Goldman.

"Casablanca" (1942), de Michael Curtiz, deixou duas frases para a história: "Nós sempre teremos Paris", suspira Humphrey Bogart para Ingrid Bergman, e "Prenda os suspeitos de sempre", ordena ao soldado o chefe de polícia Claude Rains. De quem são? De Howard Koch ou dos irmãos Julius e Philip Epstein, dos vários que trabalharam no roteiro.

E "Elementar, meu caro Watson"? Ficou famosa por causa de um filme, "As Aventuras de Sherlock Holmes" (1939), de Alfred Werker, criada pelos roteiristas Edwin Blue e William Drake e dita por Basil Rathbone como Sherlock. Não consta de nenhum dos 66 contos e quatro romances de Arthur Conan Doyle sobre Holmes. Cinema também é cultura.

Hélio Schwartsman - Trincheira tropical, FSP

  

Ler Ruy Castro é sempre uma festa. "Trincheira Tropical", seu mais recente livro, não é uma exceção. O subtítulo da obra, "A Segunda Guerra Mundial no Rio", tem algo de enganoso, já que Ruy não se limita nem ao período do conflito, nem ao balneário fluminense. Ele fala do Brasil inteiro durante a primeira metade do século 20 e dedica muitas páginas à Itália, onde lutaram os pracinhas da FEB.

Três carros conversíveis estacionados lado a lado à noite, com ocupantes visíveis. Ao fundo, o Pão de Açúcar e outras formações rochosas sob céu escuro com lua cheia.
Annette Schwartsman

Ruy se concentra em como o cotidiano dos cariocas foi afetado pela guerra. Aí entram histórias de espionagem, racionamento, blecautes etc. Num delicioso exercício etimológico, o autor conta que, a pretexto de vigiar a costa, casais de namorados estacionavam seus carros nas ruas escurecidas do Leme e do Arpoador e se pegavam. Eram as "corridas de submarino", que dicionários até hoje registram como gíria para namorar.

O livro também trata de política, música, literatura. Stefan Zweig e Georges Bernanos, então exilados no Brasil, figuram em várias passagens. Tratando-se de Ruy, não poderiam faltar algumas estocadas na paulista Semana de Arte Moderna, que teve lá suas ligações com o fascismo.

Ao resgatar ótimas histórias e narrá-las com sua prosa cativante, Ruy nos transporta para o período retratado. É quase como se estivéssemos lá. Daí não decorre que o livro não provoque reflexões sobre nossa própria época.

Getúlio Vargas é um dos personagens centrais do livro. Ruy o pinta como foi: um político astuto, mas também um ditador, que não hesitou em mandar matar e torturar. Pessoalmente, não tenho dificuldade em admitir que pessoas são complexas. Monstros podem fazer coisas boas e pessoas boas às vezes cometem monstruosidades, mas esse não é o espírito de nossa época, que exige atestados de idoneidade moral até de figuras históricas que viveram em tempos em que a moral era outra.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Bernardo Carvalho - Contra seu tempo, Ian McEwan confronta mal-estar do presente em livro, FSP

 Faz duas semanas, num voo entre Porto Seguro e São Paulo, um homem teve uma parada cardíaca fulminante e morreu antes de podermos pousar em Vitória. Eu estava na frente do avião e demorei a entender por que alguns passageiros corriam para o fundo, com os celulares na mão e as câmeras ligadas, depois de um dos tripulantes invocar, pelo alto-falante, a presença de um médico.

Como se não bastasse o horror da realidade irreversível, a imagem dos passageiros gravando com seus celulares a morte de um homem contribuiu com uma dimensão ao mesmo tempo patética e sinistra para a leitura que eu vinha fazendo desde que embarquei.

"O Que Podemos Saber", de Ian McEwan, sai em março pela Companhia das Letras. É um livro sobre o mal-estar do presente. Num futuro pós-apocalíptico, um professor universitário busca um poema supostamente genial, perdido cem anos antes (nos dias atuais), quando os piores prognósticos do aquecimento global e de uma guerra nuclear ainda não se concretizaram.

Homem maduro com pele clara e cabelos grisalhos, vestindo camisa branca, olhando diretamente para a câmera com fundo preto.
O escritor Ian McEwan - Joel Saget - 2.out.23/AFP

Por meio do deslocamento da narrativa para depois da catástrofe, quando a humanidade já está reduzida à metade e o peso dos anos envolve o desaparecimento do poema numa mística de especulações, McEwan faz referência à negação suicida do que é evidente, do que está diante de nós, mas que não podemos (ou não queremos) ver na transparência do presente. É uma reflexão admonitória sobre o que se perdeu quando já não é possível voltar atrás.

Como explicar que está tudo errado a passageiros com celulares na mão, gravando e exibindo a morte de um homem, se eles não conseguem entender isso por conta própria? Se são capazes de fazer o mesmo, diariamente, com suas próprias vidas?

"O Que Podemos Saber" é um romance sobre a literatura e o presente. A certa altura, surge a questão da responsabilidade do escritor e do que pode o realismo diante da cegueira suicida do mundo. Por um momento parece que o autor, por meio do debate entre seus personagens, vai pôr em dúvida o realismo que ele acredita praticar. Não dura muito tempo.

É natural que, assim como, apesar da nossa consciência, não conseguimos nos livrar do modo de vida que nos mata, tampouco um autor consiga levar a cabo o questionamento do próprio romance como representação do tempo em que ele vive.

Mais de uma vez, por intermédio de uma personagem secundária, professora de literatura francesa, McEwan recorre, como paradigma moral, à conferência "O Artista e Seu Tempo", proferida por Albert Camus, na Suécia, em 14 de dezembro de 1957, dias depois da cerimônia de entrega do prêmio Nobel.

Com base numa frase fora de contexto ("A arte vive de limites e morre de liberdade"), a professora conclui que "talvez Camus estivesse rejeitando a experimentação literária". A conclusão capciosa na verdade endossa um lugar-comum que o romance já havia manifestado ao ironizar os clichês de outra personagem, uma escritora minimalista e "demasiado intelectual", cujo sucesso acabou reduzido a um punhado de acadêmicos.

Na crítica fácil do que parece difícil, a professora de francês (não dá para saber quanto desse juízo é compartilhado pelo autor) confunde realismo com kitsch, com o estilo mais adequado às convenções e ao gosto do seu tempo. Na sua leitura preconceituosa dos "experimentalismos", ela propõe uma literatura mais direta e mais simples para tempos difíceis.

Não é o que Camus diz em sua conferência de 1957. Em meio à gritaria dos mandamentos e das normas, encurralado entre a ordem do realismo socialista e a irresponsabilidade da arte pela arte, o escritor louva o risco contra todas as igrejas. A conferência é sobre coragem, não sobre regras, convenções e preconceitos: "Criar hoje é criar perigosamente".

Camus faz o elogio da ruptura, de RimbaudNietzsche e Strindberg, da literatura contra os juízes do seu tempo: "Somente no risco se encontra a liberdade da arte. (...) O artista livre, não menos que o homem livre, não é o homem do conforto. O artista livre é aquele que, sob grande pena, cria a sua própria ordem".