sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Ruy Castro- Tragédia anunciadaFSP

 Deu no The New York Times. Em 1965, alpinistas americanos a cargo da CIA chegaram a metros do cume de uma das montanhas mais altas do Himalaia, na Índia, levando equipamento destinado à exploração do oceano e do espaço. Só que, nesse caso, com outras intenções: vigiar a China, que acabara de entrar no clube nuclear detonando uma bomba atômica. Iam plantar um espião no topo do mundo.

Mas o inesperado fez uma surpresa. Uma tremenda tempestade de neve provocou invisibilidade total do terreno —era impossível completar a subida. O comandante da expedição ordenou a volta antes que também ficasse impraticável e, com isso, o abandono do material. E assim foi feito: esconderam-no numa caverna de gelo, na esperança de que, quando retomada a subida, ele fosse recuperado.

Um ano depois, voltaram para continuar a missão, mas, para surpresa geral, não acharam o equipamento. O próprio entorno em que ele fora depositado desaparecera. E pior: dele fazia parte um gerador alimentado por um combustível radioativo, o SNAP 19-C, contendo quase um terço do plutônio usado na bomba que destruiu Nagasaki em 1945. O calor do gerador o levara para as profundas. Todo o material radioativo estava agora inalcançável.

Isso foi há 60 anos, mas só há pouco a abertura de arquivos alertou para a possibilidade de uma tragédia. Com o derretimento das geleiras pelo aquecimento do planeta, o dispositivo nuclear pode deslizar para o interior da montanha e despejar o plutônio nas nascentes do Ganges, o rio sagrado da Índia, de que dependem milhões de pessoas. E se a radiação chegar às suas águas?

Se acontecer, pense nas pessoas que tiveram suas cinzas despejadas no Ganges: o líder espiritual Mahatma Gandhi, os roqueiros George Harrison e Jerry Garcia, os governantes Jawaharlal Nehru e sua filha Indira Gandhi, o jazzista Charles Mingus e possivelmente John Coltrane, o citarista Ravi Shankar e muitos mais. Que fatalidade, não? Vera Fischer também se banhou no Ganges, mas, por sorte, há muito tempo.

Homem parcialmente submerso no rio, tomando banho e lavando o rosto. Ao fundo, ponte metálica grande e barco pequeno no rio em dia com neblina densa que reduz a visibilidade.
Um homem toma banho no rio Ganges, em Calcutá, na Índia - Sahiba Chawdhary - 8.dec.25/Reuters

Bebês expostos à pobreza apresentam atrasos no desenvolvimento motor já aos seis meses- Fapesp

 Análises conduzidas por pesquisadores da UFSCar mostraram que condição pode ser facilmente revertida por meio de estímulos e estratégias simples, o que reforça a necessidade de programas voltados para essa população

Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – A pobreza pode afetar o desenvolvimento motor dos bebês já aos seis meses de idade. Essa é a conclusão do primeiro estudo brasileiro que investigou mês a mês a quantidade e a qualidade do desenvolvimento motor e sua relação com a vulnerabilidade socioeconômica nos primeiros meses de vida. Conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o trabalho acompanhou 88 bebês dos três aos oito meses, sendo 50 deles em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Os resultados foram publicados na revista Acta Psychologica.

“Além desses bebês alcançarem marcos motores [como agarrar objetos, virar e sentar] mais tarde que os não expostos à pobreza, eles apresentavam menor diversidade de movimentos, repetindo sempre a mesma estratégia para pegar um brinquedo, por exemplo”, explica Carolina Fioroni Ribeiro da Silva, bolsista da FAPESP cujo estudo foi objeto de seu doutorado.

Para Eloisa Tudella, professora da UFSCar e orientadora da pesquisa, esses atrasos sutis em lactentes expostos à pobreza podem ter impactos importantes mais adiante, nos períodos pré-escolar e escolar. “Embora não tenha sido o foco direto da pesquisa, evidências indicam que atrasos motores leves no primeiro ano de vida podem influenciar o desenvolvimento global e se associar a problemas comportamentais na idade escolar, incluindo transtorno do déficit de atenção com hiperatividade [TDAH] e transtornos da coordenação”, afirma.

Boa notícia

O estudo mostrou ainda que há espaço para reversão já que, aos oito meses, os atrasos já não eram mais significativos. Essa possibilidade de melhora é atribuída ao engajamento das mães, que passaram a reproduzir em casa as orientações dadas durante as visitas (nenhum pai se apresentou como responsável para receber as pesquisadoras).

“A maioria das mães expostas à pobreza era adolescente e não sabia como estimular os bebês após o nascimento. Durante as visitas, nós ensinávamos práticas simples, como colocar a criança de barriga para baixo, usar papel amassado como brinquedo ou conversar e cantar para o bebê. Todas as mães se mostraram muito receptivas, copiavam as ações durante as avaliações e passaram a interagir mais com os filhos, favorecendo seu desenvolvimento motor”, conta Silva, atualmente em pós-doutorado na Heinrich Heine University, na Alemanha.

Conhecidos como “tummy time”, os períodos curtos em que o bebê fica de bruços sobre um tapete, acordado e supervisionado, são indicados para fortalecer cabeça, pescoço, ombros, costas e braços, contribuindo para a preparação da musculatura e a coordenação necessárias para que o bebê seja capaz de rolar, sentar, engatinhar e ficar de pé.

“Em muitos lares, os bebês passavam mais tempo confinados em carrinhos, com poucas oportunidades para explorar o ambiente, fortalecer os músculos e experimentar diferentes formas de se mover, pois não havia espaço para isso”, afirma Silva.

O trabalho utilizou pela primeira vez no Brasil o Infant Motor Profile (IMP), instrumento desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Groningen, nos Países Baixos. Diferente de escalas que avaliam apenas se o bebê atingiu determinado marco motor, o IMP analisa também a qualidade dos movimentos – variação, fluidez, simetria e desempenho. Isso permite identificar precocemente riscos neuromotores, planejar intervenções mais precisas e acompanhar a evolução das crianças ao longo do tempo.

Segundo Tudella, outra vantagem do instrumento é reduzir a necessidade de avaliações mais caras e complexas, como ressonância magnética em bebês, que em geral exige sedação.

Caos doméstico

Ao longo das 334 avaliações realizadas no estudo, as pesquisadoras identificaram o sexo masculino como fator de risco, já que os meninos tiveram uma probabilidade 2,57 vezes maior de apresentar desenvolvimento motor atípico em comparação com as meninas. As pesquisadoras não sabem explicar exatamente o motivo para essa diferença. No entanto, estudos anteriores sugerem que bebês do sexo masculino seriam biologicamente mais suscetíveis a processos inflamatórios, o que, somado à pobreza e a ambientes pouco estimulantes, ampliaria o risco de atraso motor.

A presença de muitos adultos no mesmo domicílio foi outro aspecto que esteve associado a piores resultados, possivelmente por gerar um ambiente mais caótico e com menor espaço seguro e oportunidades para o bebê se movimentar.

Entre os fatores de proteção identificados estão a oferta de brinquedos que estimulam a motricidade fina – mesmo os improvisados e mais econômicos – e a idade mais avançada das mães. No estudo, a média de idade materna era de 24 anos, com variação de sete anos, sendo as mães expostas à pobreza em sua maioria adolescentes. Já aquelas com melhores condições socioeconômicas estavam próximas dos 38 anos.

Os pais coabitarem a mesma casa e a maior escolaridade materna também foram associados a melhores resultados.

Silva explica que os primeiros dois anos de vida são o período de maior neuroplasticidade de um indivíduo, quando ele “absorve” intensamente os estímulos do ambiente. “Como não é possível eliminar de imediato fatores estruturais como a pobreza ou a gravidez na adolescência, programas de acompanhamento nos domicílios seriam ótimos paliativos”, afirma a pesquisadora, que defende a criação de programas com agentes comunitários de saúde e fisioterapeutas, dando maior visibilidade às necessidades dessa população.

O artigo Contextual risk factors for atypical motor development in infants exposed to poverty: a longitudinal study pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/pii/S000169182501368X.

Ronaldo Laranjeira - Cannabis medicinal é muito risco para (quase) nenhum benefício, FSP

 Ronaldo Laranjeira

Médico psiquiatra especialista em álcool e drogas, é professor titular de psiquiatria da Escola Paulista de Medicina/Unifesp e presidente da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina)

A função de uma agência sanitária é proteger a população com base na melhor ciência disponível. As recentes medidas da Anvisa que ampliam o uso e regulamentam o cultivo da Cannabis sativa para fins medicinais vão no sentido contrário.

Há dois problemas centrais: a fragilidade da evidência científica e o atalho institucional que levou a preocupantes decisões da agência reguladora, que abrem precedentes para o aumento do consumo de maconha, maior número de dependentes da substância e consequente elevação da criminalidade.

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Folhas e flores da planta de Cannabis em um cultivo particular nos arredores de Brasília - Pedro Ladeira - 14.ago.2024/Folhapress

É público que a Anvisa só avançou no tema após determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que fixou prazo para regulamentar o cultivo da Cannabis medicinal. Ocorre que o assunto nunca foi aprovado pelo Congresso Nacional, instância à qual cabe legislar sobre o assunto.

No campo científico, o entusiasmo também não se sustenta. Uma revisão ampla publicada recentemente no Journal of the American Medical Association (Jama) concluiu que as evidências não apoiam o uso de Cannabis ou canabinoides para a maioria das condições para as quais é promovido, como dor aguda, insônia, ansiedade ou depressão. As exceções são raras e restritas, sempre com formulações farmacêuticas padronizadas.

O mesmo estudo é claro ao afirmar que diretrizes baseadas em evidência não recomendam Cannabis inalada nem variedades com alto teor de THC para fins médicos. Ainda assim, é justamente esse tipo de produto que tende a se expandir quando o discurso "medicinal" se mistura com interesses comerciais e ativismo político.

Os riscos estão bem documentados. A literatura aponta associação entre Cannabis e maior risco de sintomas psicóticos, transtornos de ansiedade, prejuízos cognitivos e piora de quadros depressivos, além de sinais crescentes de risco cardiovascular, como infarto e AVC em usuários frequentes. No campo da dependência, estudos recentes indicam que o chamado "uso medicinal" não reduz o risco de transtorno por uso de Cannabis. Ao contrário: usuários com essa justificativa apresentam, em média, maior frequência de consumo.

A regulamentação da Anvisa prevê limites de teor de THC e controle rigoroso do cultivo, mas a experiência internacional demonstra que o teor estipulado pode ser facilmente desrespeitado ao longo da cadeia produtiva, seja por falhas técnicas, seja por desvio deliberado. Uma planta cultivada legalmente pode, com relativa facilidade, ultrapassar os limites estabelecidos ou ser redirecionada para mercados paralelos.

Nesse contexto, é ilusório supor que a liberação do cultivo não terá impacto sobre a criminalidade. A produção da droga em território nacional tende a facilitar desvios, alimentar o tráfico e fortalecer mercados ilegais. Experiências internacionais mostram que a criminalidade organizada não desaparece com a regulamentação: ela se adapta, explora brechas regulatórias e mantém operações paralelas, muitas vezes com maior escala.

Há também o efeito simbólico da política pública. Ao chancelar a Cannabis para fins medicinais sem respaldo científico robusto, o Estado contribui para a normalização de uma droga psicoativa, reduzindo a percepção de risco, especialmente entre jovens. Isso tende a ampliar o consumo geral e a pressão sobre sistemas de saúde, segurança pública e assistência social, dentre outros.

Em saúde pública, prudência não é conservadorismo. É responsabilidade. E em democracia, respeitar os limites entre os Poderes não é detalhe jurídico, e sim condição para decisões legítimas, seguras e sustentáveis.