sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Gustavo Alonso - O ego de Lula no sambódromo, FSP

 

Muitos se perguntaram o que Lula ganhou com o desfile em sua homenagem realizado pela Acadêmicos de Niterói no sambódromo do Rio de Janeiro no último domingo (15). Por que bancar uma aposta tão personalista, fazendo o PT correr riscos políticos incalculáveis?

Lula não é ditador. Mas seu ego personalista parece não ter limites, com conivência submissa de sua base. Um exercício rápido de troca de personagens provaria o descalabro da aberração. Estaria correto Bolsonaro a aparelhar uma escola para exaltar sua vida e obra política em ano de eleição? Ainda mais com dinheiro público? Imagine o escândalo que seria entre as esquerdas, com razão.

Boneco gigante de homem branco com barba e terno escuro levanta o punho direito durante desfile noturno de carnaval. Pessoas observam e caminham ao redor, com iluminação artificial e estrutura decorativa ao fundo.
Boneco gigante de Lula durante desfile da Acadêmicos de Niterói - Pablo Porciúncula - 15.fev.25/AFP

Nem é preciso voltar tanto no tempo para ver que nossas esquerdas já foram mais coerentes. As atuais críticas à Acadêmicos de Niterói pela homenagem a Lula em ano eleitoral ecoam um episódio de 20 anos atrás, mas com os protagonistas invertidos. Em 2006 o PT criticou com razão a Escola de Samba Leandro de Itaquera, de São Paulo, por utilizar esculturas gigantes de José Serra e Geraldo Alckmin (ambos do PSDB na ocasião) em seu desfile, também às vésperas das eleições.

Diante da aberração política, aparentemente ninguém parou para analisar o enredo da Acadêmicos de Niterói e constatar o que pode ter agradado tanto ao ego de Lula. Tive acesso ao "Livro Abre Alas", material que é distribuído aos jurados pela Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro antes dos desfiles. Nele, cada escola de samba detalha suas escolhas estéticas, do enredo às fantasias, dos carros alegóricos aos menores adereços.

O "Livro Abre Alas" da Acadêmicos de Niterói é explícito na exaltação ao presidente em exercício. No entanto, mais do que o que foi dito no samba-enredo e na apresentação da escola, é preciso analisar os silêncios. Quase sempre é neles que está o controle da informação. Num show de performance verborrágica, o samba enredo se calou sobre fatos centrais da trajetória do presidente Lula. Vamos a alguns deles.

Em nenhum momento adversários históricos do presidente Lula, como FHC e Collor, foram citados. Uma direita mais coerente que a atual, que o derrotou três vezes nas urnas, foi apagada de sua trajetória. No samba enredo da Acadêmicos de Niterói, os seus inimigos são a ditadura militar e o fascista Bolsonaro. Deleta-se qualquer razoabilidade política em função de polarizações narrativas. Não quer Lula? Olha o que tem aí à espreita: ditadores e fascistas. Essa é exatamente a retórica que o PT instrumentaliza a cada eleição.

Outro silêncio chama muito a atenção. Como se sabe, o personagem histórico Lula não surgiu no vácuo. Ele foi fruto de lutas sociais da base. O Partido dos Trabalhadores foi expressão de três setores importantes que o fundaram: 1) os operários do ABC em mobilização contra empresas da região; 2) intelectuais da USP de linhagem marxista, em busca de associação com estes trabalhadores e 3) a igreja católica da Teologia da Libertação.

Destes três grupos, apenas o primeiro foi exaltado, justamente porque é a origem direta de Lula. Não à toa o samba-enredo se intitulava: "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil". Intelectuais e igreja católica nem sequer foram citados no desfile. No "Livro Abre Alas" tampouco aparecem. Apagando-se outras narrativas da própria esquerda, concretiza-se a ideia de Lula como salvador da pátria. No entanto, a retórica personalista lulista é infiel à própria história do PT.

Não é de hoje que o ego de Lula faz mal às esquerdas. E tudo leva a crer que nesta eleição viveremos novamente esse "dia da marmota", tudo novo de novo, igual como sempre.

Lamentável. Mas não é só culpa da "direita malvada" e das "elites conservadoras", como quis fazer crer o enredo da Acadêmicos de Niterói em endosso à narrativa lulista. Louvar um líder tão personalista configura-se numa submissão histórica das esquerdas brasileiras, que forja seus próprios grilhões.

Nickolas J. Themelis e Yuri Schmitke - A guerra financiada contra a geração de energia a partir do lixo -FSP

 Nickolas J. Themelis

Professor emérito de Engenharia da Terra e Ambiental da Universidade Columbia (EUA)

Yuri Schmitke

Presidente-executivo da Associação Brasileira de Energia de Resíduos (Abren)

Nos últimos anos, uma poderosa rede de ONGs internacionais mobilizou-se contra o Waste-to-Energy (WtE) —tecnologia que converte resíduos não recicláveis em eletricidade e calor, ao mesmo tempo em que reduz drasticamente as emissões de metano provenientes de aterros sanitários.

Por trás de slogans ambientalistas, porém, esconde-se uma verdade incômoda: muitas dessas organizações são financiadas por canais filantrópicos sem mecanismos de responsabilização, que ocultam tanto a identidade de seus doadores quanto as motivações políticas que os impulsionam.

Essas entidades apresentam-se como defensoras do meio ambiente; contudo, registros financeiros revelam que são beneficiárias de enormes somas provenientes de intermediários filantrópicos dos Estados Unidos e da Europa. Esse sistema permite que empresários, corporações e até interesses comerciais influenciem políticas ambientais sob o disfarce do altruísmo.

Unidade de recuperação energética de resíduos em Dublin, Irlanda - Clodagh Kilcoyne - 30.ago.2023/Reuters

Uma dessas instituições, inclusive, tornou-se uma das vozes mais estridentes contra o WtE nos Estados Unidos e no cenário mundial, tendo financiado estudo com fake news elaborado e disseminado no Brasil. No entanto, seu orçamento é sustentado por subsídios institucionais provenientes de entidades de repasse sediadas nos EUA. Segundo declarações fiscais oficiais dos Estados Unidos (Form 990), essa mesma ONG recebeu milhões de dólares de fundos destinados à filantropia no últimos anos.

Em outro exemplo claro, há um vasto conglomerado filantrópico na Europa que financia centenas de organizações em todo o continente, mas se recusa a divulgar detalhes de subvenções por beneficiário.

Esse cenário revela uma contradição estrutural dentro da filantropia climática. Ao priorizar ideologia sobre dados científicos, esses financiadores minam os próprios objetivos que afirmam perseguir. Em outras palavras, os contribuintes europeus financiam ONGs que fazem lobby contra tecnologias que a própria União Europeia reconhece como essenciais para metas de economia circular, recuperação energética e mitigação do metano. Trata-se de um caso marcante de incoerência política —onde a ideologia, e não a evidência científica, define prioridades ambientais.

O consenso científico deixa pouco espaço para dúvidas. Usinas modernas de Waste-to-Energy, equipadas com sistemas avançados de limpeza de gases e monitoramento contínuo de emissões, operam dentro de alguns dos padrões ambientais mais rigorosos do mundo.

Diversos estudos renomados demonstram que sua contribuição para a poluição atmosférica é insignificante quando comparada a outras fontes industriais, além de reduzir significativamente o volume de resíduos enviados a aterros.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) identificou a mitigação do metano de aterros como uma das maneiras mais rápidas e econômicas de reduzir o aquecimento global no curto prazo. A recuperação energética de resíduos —juntamente com reciclagem e compostagem — é um componente crítico de estratégias integradas de gestão de resíduos.

O futuro ambiental do planeta não pode ser ditado por atores sem responsabilização, cujas agendas são ocultadas por camadas de patrocínio fiscal e anonimato de doadores. O WtE não é uma solução única para todos os problemas, mas é uma ferramenta essencial para reduzir emissões de gases de efeito estufa, gerar energia renovável e proteger a saúde pública.

Chegou a hora de um acerto de contas público. A transparência deve valer para todos —governos, empresas e ONGs. Somente quando as verdadeiras fontes de influência forem expostas será possível promover um debate honesto sobre como construir um mundo mais limpo e resiliente.