segunda-feira, 6 de março de 2023

Hélio Schwartsman - As joias da coroa ,FSP

 Mais uma prova de que a ideologia cega está no fato de que ainda há bolsonaristas afirmando que o ex-presidente é honesto. Jair Bolsonaro deve ter batido algum recorde. O primeiro dos escândalos a sobressaltar seu governo surgiu antes mesmo de o capitão reformado assumir, e suspeitas continuam a aparecer depois que ele deixou o cargo. A notícia do primeiro cheque de Fabrício Queiroz para Michelle Bolsonaro se tornou pública poucas semanas antes da posse. O caso das joias sauditas veio à tona dois meses depois do fim do mandato.

Até entendo que, por pudicícia jurídico-republicana, devamos esperar um pronunciamento da Justiça antes de carimbar o ex-presidente como autor de delinquências específicas tipificadas no Código Penal, mas me parece que já há elementos de sobra para pelo menos suspender o juízo e não ficar apregoando uma honestidade ilusória. Mesmo que Bolsonaro venha a ser inocentado pela Justiça, já dá para afirmar que ele violou preceitos éticos. Um presidente correto teria convertido em patrimônio público os presentes da coroa saudita antes mesmo de desembarcá-los no Brasil.

Joias que o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tentou trazer ilegalmente ao Brasil para a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro; valor dos itens é de aproximadamente R$ 16,5 milhões - Reprodução - 3.mar.23/Paulo Pimenta no Twitter

No plano mais geral, o que chama a atenção nas denúncias contra Bolsonaro e familiares é o padrão baixo clero dos esquemas. Não vimos sistemas bilionários de desvios de estatais, com o duplo propósito de azeitar o apoio político ao governo e encher os bolsos de alguns escolhidos. O que surgiu —e se repetiu— foram espertezas típicas de parlamentares semianônimos. São coisas como pagar funcionários domésticos com dinheiro público, "rachadinhas""apartamento para comer gente" e apertar o botão "nada a declarar" na alfândega.

Tecnicamente, o valor do desvio não afeta sua categorização ético-penal. É igualmente errado surrupiar 1 milhão ou 1 bilhão. Mas aqueles que se alimentam de ideologias parecem dispostos a dar a seus líderes de estimação um limite abaixo do qual é tolerável roubar.

Mulheres malcomportadas - Becky S. Korich, FSP

 

Sem costela nenhum homem se sustenta. Não foi por acaso que foi da costela do primeiro homem que surgiu a mulher. Mas Adão penou, teve que esperar um pouco para conhecer a sua metade. Como nada acontece por acaso, a demora foi deliberada: para que o homem experimentasse a sua própria singularidade e incompletude.

E surge Eva, que mal chegou e já chegou transgredindo. Foi atrás da única coisa proibida entre as infinitas benesses do Jardim paradisíaco. Depois induziu o homem que, coitado, foi levado a cometer junto o pecado original. Foi aí, por culpa —ou graças à mulher— que começou a confusão entre o bem e o mal.

Ativistas dos direitos das mulheres fazem protesto contra a Cultura do Estupro no Brasil e contra a ex-ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), por conta da posição da ministra em relação ao aborto da menina de 10 anos que engravidou após ser estuprada pelo tio. Em frente ao STF, em Brasília (DF) - Pedro Ladeira - 20.ago.20/Folhapress

Eva, ao mesmo tempo que deu à luz toda a humanidade, tirou a clareza inconteste da vida. Trouxe mais complexidade ao mundo: porque a sua própria natureza já veio complexa. Tornou mais longo e árduo o caminho em busca de sentido, mas ao mesmo tempo, nos deu o mérito da procura pela nossa verdade. Introduziu o mistério e a malícia, colocou mais camadas entre o corpo e a alma. Corrompeu a linha reta, borrou o preto e o branco. Trouxe a vergonha da nudez, para que essa vergonha fosse antes conquistada para ser despida. Apresentou ao mundo a desobediência e a subversão. Eva, que reúne a essência de todas as mulheres, tirou, enfim, o mundo do tédio.

E vieram depois outras mulheres, também rebeldes, que fazem a diferença. Entre elas, Eleanor Roosevelt, que disse: "mulheres bem-comportadas raramente fazem história".

Rosa Parks não cedeu seu assento no ônibus para um branco e rompeu a lei de segregação racial dos transportes públicos. Malala peitou os talibãs e garantiu mais educação a mulheres e crianças. Golda Meir deu um banho nos líderes e ensinou que para ter pulso firme não precisa de músculos. Maria da Penha usou suas dores para gritar pelas dores de todas as mulheres. Anne Frank abriu seu esconderijo secreto e escreveu ao mundo os horrores da perseguição. Leila Diniz exibiu a barriga mais linda do mundo. De Ella a Elis, vieram as melhores vozes. De Dona Canô, os nossos maravilhosos baianosEmily Brontë teve que se chamar Ellis Bell para ser lida. Jane Austen deixou a louça suja na cozinha para escrever seus livros. Clarice é pura liberdade e a mais perfeita desordem em palavras. Chimamanda nos alertou dos perigos da história única.

Se tivéssemos uma história única, ainda estaríamos sufocadas pelo espartilho, não teríamos o direito de estudar, votar, trabalhar, gozar, se divorciar, jogar futebol.

Eva nos deixou a dor no parto. Tem dores que só mulheres conseguem suportar. Tem outras que elas jamais deveriam sentir. Feliz semana da Mulher.


Alvaro Costa e Silva Trem-bala é sonho de outro mundo -FSP

 

Estão de volta as notícias sobre o trem-bala que ligaria o Rio a São Paulo. A ANTT autorizou a empresa TAV Brasil, que tem capital de R$ 100 mil, a investir R$ 50 bilhões para que o brasileiro possa ter a sensação conhecida pelo japonês desde 1964: uma linha ferroviária de alta velocidade. Como tudo ainda é um sonho —que começou no primeiro governo Lula—, me lembrei do trem de prata.

Funcionou de 1994 a 1998. Saía-se da Leopoldina às 20h30 e, numa velocidade de 60 km/h (ideal para pegar no sono), às 6h estava-se na Barra Funda. A composição tinha um carro-bar, dois carros-restaurantes e quatro carros-dormitórios de cabines duplas com suíte (ideal para namorar). Com o barateamento das passagens da ponte-aérea (lembram-se dessa época?), os passageiros foram sumindo na proporção em que o serviço decaía, com atrasos e interrupções provocados por falta de manutenção na linha.

A proposta do trem-bala —cuja viagem duraria 90 minutos, mais ou menos o tempo que se gasta de Copacabana, na zona sul, até o bairro de Santa Cruz, na zona oeste, onde estaria localizada a nova estação —prevê o aproveitamento da malha existente. Parece piada.

A cinco minutos do Centro, a estação Barão de Mauá, na Leopoldina, está desativada desde 2004 e em ruínas —como mostrou o repórter Yuri Eiras na Folha—, resultado dos imbróglios entre a União, o governo do estado e a Supervia.

Mais que um luxo, o trem-bala seria algo de outro mundo numa cidade em que a prefeitura é obrigada a multar em R$ 2,3 milhões as empresas de ônibus que circulam sem climatização ou com os aparelhos desligados. E a CCR, concessionária que controla o sistema de barcas, faz chantagem —com ameaças de pedir falência e de interromper o serviço para os passageiros— e consegue um acordo que garante uma indenização inicial de R$ 752 milhões por desequilíbrio econômico-financeiro no contrato de concessão.