terça-feira, 6 de novembro de 2018

Politicamente incorreto, Pablo Ortellado, FSP

Politicamente incorreto

Bolsonaro se dá o direito de tripudiar a democracia e os direitos humanos, mas de 'brincadeira'

Enquanto o mundo fica atônito com as declarações de Jair Bolsonarode que vai prender opositores, perseguir a imprensa e desrespeitar os direitos humanos, seus apoiadores parecem minimizar o que ele diz, tratando tudo como excesso retórico ou bravata.
É como se o princípio de que, na política, as aparências importam estivesse abolido.
A defesa desse princípio normalmente remete a um episódio narrado por Plutarco, na biografia de Júlio César.
Durante o período do pretorado, um jovem patrício chamado Públio Clódio tentou seduzir Pompeia, esposa de César. Num gesto audacioso, ele se infiltrou no festival da Bona Dea, no qual homens não podiam entrar. Disfarçado de mulher, foi desmascarado por uma das participantes e depois acusado de sacrilégio.
César se divorciou imediatamente. No julgamento de Clódio, porém, se negou a acusá-lo. O juiz perguntou por que então havia se divorciado e César respondeu que sobre sua mulher “não deveria haver sequer uma suspeita”. O episódio deu origem à máxima de que, na política, a aparência vale tanto quanto aquilo que se é, que “à mulher de César, não basta ser honesta, é preciso também parecer honesta”.
Por esse motivo, os políticos tomam cuidado redobrado com a comunicação e quando, sob um deles, recai uma suspeita, dão declarações claras, enfáticas e reiteradas, para desfazer qualquer mal-entendido. Essa, definitivamente, não é a estratégia de Bolsonaro.
De forma deliberada ou não, ele dá declarações inconsistentes, com ênfases diferentes e até mesmo com sentidos contrários. Numa declaração, diz que os oponentes vão ter que escolher entre a prisão e o exílio; em outra, que vai reconciliar o Brasil; ora diz que as minorias terão que se curvar às maiorias, ora que vai governar para todos.
Não está muito claro por que ele atua produzindo ambiguidade. Pode ser apenas vício de campanha, já que, na falta de tempo de propaganda na TV, precisou ganhar exposição produzindo polêmicas que geravam cobertura espontânea da imprensa. Pode ser ainda uma estratégia pensada, com o radicalismo retórico servindo para agitar a militância e assustar a oposição.
O que parece mesmo, porém, é que Bolsonaro está levando para a Presidência sua atitude insurgente contra o politicamente correto, essa etiqueta discursiva em respeito às vítimas da opressão. Bolsonaro quer apresentar a boa educação como divisionismo, como vitimismo e como revanchismo. Como é preciso desprezar o cuidado com as palavras que agridem o próximo, ele se dá o direito de tripudiar a democracia e os direitos humanos. Mas tudo, é claro, não passa de brincadeira.
Pablo Ortellado
Professor do curso de gestão de políticas públicas da USP, é doutor em filosofia.

Blockbuster contra o crime, Alvaro Costa e Silva, FSP

Combate à violência no Rio faz lembrar filmes de Sylvester Stallone

Já faz um tempinho, mas alguém há de lembrar. Em 2010, depois de rodar um filme por aqui, o ator Sylvester Stallone saiu-se com a seguinte frase: “No Brasil, ao filmar, pode-se demolir casas e explodir prédios de verdade e matar gente. Eles agradecem e ainda nos dão um macaco de presente”. Diante da repercussão negativa, ele caprichou na caradura e se desculpou. Ainda disse que o país era fantástico e lamentou a piada infeliz.
Tirando a parte dos macacos —que andam ariscos e sumidos—, a frase de Stallone, diante do cenário que se quer implantar no Rio para combater a violência, soa hoje como profética. Estamos bem perto de virar locação para um desses filmes ditos de ação, que mais parecem propaganda da indústria de explosivos ou de armamentos, nos quais cidades inteiras são demolidas e pessoas são abatidas como bois e frangos.
Sylvester Stallone e Giselle Itié em cena de 'Os Mercenários' (2010), que teve parte das filmagens no Rio - Divulgação
A pré-produção do blockbuster já começou. O governador eleito,Wilson Witzel, planeja viajar a Israel em busca de novas tecnologias para a área da segurança. Sua menina dos olhos é um drone equipado com câmera e arma de grosso calibre, de uso ainda experimental. Segundo os fabricantes, o equipamento é capaz de atirar enquanto sobrevoa uma região. A dúvida é com que precisão os disparos são feitos.  
Grupos com 20 policiais civis e militares passarão por treinamento oito horas por dia, de segunda a sábado, antes de atuar como caçadores de bandidos. Na prática, sua função será diferente da dos snipers. Estes só estão autorizados a atirar em sequestradores, para libertar pessoas sob mira de uma arma, ou em inimigos declarados durante uma guerra. O ex-juiz federal Witzel garante: os atiradores de elite terão licença para matar todo bandido que portar um fuzil. As ações serão filmadas e usadas em casos de processo.
No cinema é muito mais fácil. Canastrões como Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger acertam sempre na testa do vilão.
Alvaro Costa e Silva
Jornalista, atuou como repórter e editor. É autor de "Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro".

Eleição cansativa, FSP

Pleito coloca 48 decisões nas mãos do eleitor de San Francisco, na Califórnia

Se você achou muito ter votado em candidatos para ocupar seis cargos nas eleições de outubro, considere-se feliz por não viver nos EUA. Um eleitor de San Francisco, Califórnia, por exemplo, terá nada menos do que 48 decisões a tomar no pleito desta terça.
Ele será convidado escolher um deputado federal, um estadual, um senador, o governador e mais 16 autoridades eleitas (estaduais e municipais), manifestar-se acerca do destino de 10 juízes (prorrogar o mandato ou fazer o recall) e votar em 13 iniciativas legislativas estaduais e cinco municipais.
Esse banho de democracia é positivo? A questão é traiçoeira. Não há dúvida de que as autoridades políticas devem ser eleitas. Ninguém ainda apresentou um sistema melhor do que a democracia. Mas o que dizer de cargos mais técnicos, como superintendente de educação?
O candidato democrata ao governo da Califórnia, Gavin Newsom, durante campanha - Eric Risberg/Associated Press
São, contudo, as iniciativas legislativas que escancaram os limites da democracia direta. Na Califórnia, o eleitor deverá decidir, por exemplo, se o lucro das clínicas de hemodiálise deve ser limitado por lei. Imagino que essa não seja uma questão simples nem para economistas da saúde. O que esperar então de cidadãos que não têm tempo nem disposição para aprender o suficiente de medicina e de economia para fazer uma escolha informada?
Se queremos respostas racionais para os problemas que se nos apresentam —o que me parece desejável—, faz mais sentido apostar na democracia representativa, isto é, na profissionalização dos políticos.
Não é que os parlamentares sejam gênios que compreendam tudo (muito pelo contrário), mas eles, ao menos em tese, têm a incumbência de estudar as matérias legislativas em que votarão e os recursos (um exército de assessores) para encontrar a melhor solução técnica que esteja em acordo com os interesses de seus constituintes.
Nesse desenho institucional, bastaria o eleitor escolher representantes sérios e tudo daria certo.
Hélio Schwartsman