sexta-feira, 31 de julho de 2026

Depois da política, da pós-política e da antipolítica, chegou a hiperpolítica, Mario Sergio Conti, FSP

No começo era a política. Aristóteles argumentou que, por viver em sociedade, em cidades-estados, as pólis, o homem é um animal político. Mas como a política muda conforme os tempos e circunstâncias, há que situá-la na história, periodizá-la. Isso é cada vez mais difícil devido às mudanças aceleradas das últimas décadas.

A mais recente e poderosa tentativa de periodização é de Anton Jäger, historiador belga que leciona em Oxford, publica ensaios nas revistas Jacobin e New Left Review e é editor contribuinte da página de opinião do The New York Times. Detalhe expressivo: tem 32 anos.

Ele vem de publicar "Hyperpolitics: Extreme Politicization without Political Consequences" —hiperpolítica, politização extrema sem consequências políticas—, não traduzido para o português.

Sobre uma superfície laranjada estão dispostos aleatoriamente, fragmentos de um mapa político do mundo. Pela direita uma grande mão com uma tesoura continua a recortar os fragmentos. Pela esquerda uma grande fita crepe cor pardo está esticada sobre alguns dos pedaços do mapa.
Ilustração de Bruna Barros para coluna de Mario Sergio Conti de 1º de agosto de 2026 - Bruna Barros/Folhapress

O livro foi lido avidamente, segundo o The Guardian, no Reino Unido, onde, num sintoma de crise política, aboletou-se há pouco em Downing Street o sexto primeiro-ministro em dez anos. No outro lado do Atlântico, o The New York Times disse que ele traz "um dos melhores e fascinantes esforços para modelar o presente político em toda sua estranheza atordoante".

Jäger analisa a política na Europa, onde nasceu o capitalismo, e nos Estados Unidos, onde chegou ao auge. É uma política diversa da brasileira, mas tem a ver com o que ocorre aqui. São três as fases da política que detecta: a pós-política, a antipolítica e, agora, a hiperpolítica.

Intercalada por guerras, a política foi atividade reivindicatória e de massa até 1989. Foram anos de glória para sindicatos e partidos, tempos de greves e passeatas. Por isso mesmo, houve aumento de empregos e salários, até a tendência ser estancada por Reagan e Margaret Thatcher.

Aí veio o "annus mirabilis", em que se derrubou o Muro de Berlim, logo seguido pelo fim da União Soviética. Apesar das distorções e dos horrores stalinistas, deixou de existir uma possibilidade de alternativa ao status quo. Foi o fim da história e início da pós-política.

Minguaram os partidos social-democratas e comunistas. Em contrapartida, cresceu o poder de tecnocratas e de organismos supostamente neutros, como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e, nos países, bancos centrais e ministérios da economia.

No plano social, valorizaram-se o individualismo, o hedonismo e a intimidade. Na economia, o incremento tecnológico dizimou indústrias e empregos, enfraquecendo sindicatos. Houve concentração do capital, perda de poder aquisitivo, desigualdade acentuada e, mercê do afrouxamento de regras, financeirização.

Chegou-se então à antipolítica, inaugurada, grosso modo, em 2008, com a quebra de grandes bancos nos EUA. Espoucou a contestação antissistema, que levou a aglutinações tipo Occupy Wall Street, Podemos, na Espanha, e Syriza, na Grécia. A Primavera Árabe, em 2010, e as jornadas de junho, no Brasil de 2013, integrariam esse abalo geral.

O saldo organizatório dessa maré, porém, foi zero —mesmo quando Podemos e Syriza chegaram ao poder. Como os movimentos desprezavam a hierarquia e as instituições, não houve centralização da energia em partidos nem, menos ainda, articulação internacional dos desvalidos.

Aos solavancos, passou-se para a etapa atual, a da hiperpolítica. Nela, tudo é política: o acasalamento, o vocabulário, o lazer, a família, até o time para o qual se torce. A participação em eleições decresceu, facilitando a chegada ao poder de demagogos e influencers —bastava ser contra quem estava no poder. A politização micro e extrema forçou o desprezo pela política abrangente.

As elites burguesas se desterritorializaram. Buscam o lucro imediato em jogadas nas bolsas, se lixando para as nações. Vivem e investem em bolhas econômicas e existenciais. O exemplo maior dessa tendência é Trump, que vive e governa num aqui e agora perpétuo.

Ele desdiz hoje o que falou ontem; afirma que a paz com o Irã é iminente e, ao mesmo tempo, promete fazer o país retroceder à idade da pedra; não tem perspetivas nacionais e racionais; quer enriquecer e passa o trator em quem se opõe a isso.

Na base da sociedade, a atomização se radicalizou, sem deixar de gerar manifestações formidáveis. Mesmo os maiores movimentos de massa da história americana, diz Jaëger, os que se seguiram ao assassinato de George Floyd pela polícia, em 2020, não tiveram consequência prática.

É por isso que Zoe Williams, no The Guardian, resumiu a hiperpolítica numa frase: o tempo em que "tudo explode e nada muda".

Precisamos administrar a revolução da IA, Martin Wolf, FT FSP

Em minhas duas últimas colunas, argumentei que a IA (inteligência artificial) traz tanto oportunidades quanto grandes perigos, alguns até existenciais. Essa tecnologia transformadora também ameaça valores fundamentais, incluindo a responsabilização pessoal e institucional, o Estado de Direito, a democracia e até mesmo o que significa ser humano.

Além disso, será difícil regular a IA com sucesso, não apenas porque seu impacto será generalizado, mas porque o progresso está sendo impulsionado por uma competição acirrada entre empresas e entre os Estados Unidos e a China.

Duas mãos robóticas azuis repousam sobre um teclado preto, com a frase 'AI artificial intelligence' iluminada ao fundo em branco e azul.
Mãos robóticas à frente de um teclado - Dado Ruvic - 27.jan.25/Reuters

Notavelmente, uma publicação recente da Anthropic afirma que "estamos delegando uma parcela crescente do desenvolvimento de IA aos próprios sistemas de IA... Levada longe o suficiente, e com poder computacional suficiente, essa tendência aponta para um sistema de IA capaz de... projetar e desenvolver autonomamente seu próprio sucessor".

A publicação então afirma que "se fosse possível... desacelerar o desenvolvimento dessa tecnologia, para nos dar mais tempo para lidar com suas imensas implicações, achamos que isso provavelmente seria uma coisa boa". Se até a Anthropic, uma líder em IA, tem medo do que está por vir, os temores do resto de nós, especialmente dos jovens, só podem ser reforçados.

Grande parte dessa preocupação politicamente relevante diz respeito ao lado negativo do desemprego em relação ao suposto lado positivo da produtividade. Mas a velocidade e a escala da transformação que a IA produzirá são desconhecidas. Meu colega John Burn-Murdoch observou recentemente, por exemplo, que o aumento na oferta de aplicativos gerados por IA não levou a um aumento correspondente em seu uso. Também gerou um salto maior na produção nos estágios iniciais do desenvolvimento de software do que nos produtos finais.

Novamente, uma visão geral do impacto da IA no emprego divulgada pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) no ano passado concluiu que, globalmente, um em cada quatro trabalhadores está em uma ocupação com alguma exposição à IA generativa. Mas também acrescenta que "apenas 3,3% do emprego global se enquadra na categoria de maior exposição". Isso não parece uma disrupção enorme.

Além disso, no passado, houve longos intervalos entre grandes inovações (a eletricidade, por exemplo) e maior produtividade. Como Paul Krugman escreve, o crescimento da produtividade foi menor durante a era digital do que após a Segunda Guerra Mundial, um período sem tais avanços revolucionários.

No extremo oposto do debate, Vinod Khosla, um experiente investidor em tecnologia, afirma no FT que "tenho certeza de que a IA fará 80% do trabalho economicamente valioso que os humanos fazem hoje, em 80% de todos os empregos, mais rápido do que a maioria acredita. A questão não é se o subemprego em massa chegará na próxima década, mas se teremos uma estrutura política coerente pronta quando isso acontecer".

O ceticismo sobre a velocidade e a escala do impacto da IA é justificado. Mas Khosla está certo: precisamos nos preparar. A civilização pode não sobreviver aos choques existenciais e às disrupções econômicas que a IA ameaça. A incerteza justifica prontidão, não complacência.

Então, o que prontidão deve significar?

Primeiro, precisamos estar preparados para um mundo em que as máquinas tomarão decisões importantes e, em alguns casos —notadamente os de guerra e pesquisa biológica— com enormes consequências. Em última análise, os humanos precisam ser responsabilizados por essas decisões, como programadores de IA, gestores das empresas que a vendem e tomadores de decisão nas instituições que a utilizam.

Ao contrário da visão do presidente argentino Javier Milei, a IA não deve administrar instituições sem responsabilização de pessoas. Proprietários, gestores e funcionários devem estar sujeitos a penalidades criminais e civis por danos causados pela IA.

Segundo, não podemos confiar no senso moral e na autocontenção dos criadores de IA. Já tivemos uma experiência terrível com as redes sociais. Como observei: "Disseminar mentiras e fraudes pode ser um bom negócio. Pior, disseminar publicações que tornam a vida das pessoas insuportável pode ser um bom negócio... A inteligência artificial parece propensa a piorar nossa situação coletiva ao criar fraudes 'perfeitas' de todos os tipos".

A Anthropic pode querer desacelerar o ritmo. Mas está em uma corrida: não pode controlar o que seus concorrentes fazem. Não permitimos que empresas farmacêuticas lancem medicamentos que não passaram por um regime de testes adequado por uma razão muito boa. Algo semelhante deveria se aplicar a novos softwares de IA. Além disso, em um negócio competitivo, tais regimes também precisam se aplicar globalmente.

Terceiro, é por isso que os regimes não podem ser apenas nacionais. Deve haver um acordo global sobre como a IA será testada e controlada e como a responsabilidade por danos será imposta. A UE, ao que parece, está mais uma vez desempenhando o papel de reguladora de primeira (ou última) instância. Isso pode não ser uma coisa tão ruim.

Pessoas ao redor do mundo até confiam na UE para ser uma reguladora melhor do que os EUA ou a China, provavelmente porque acreditam que ela será menos capturada por interesses empresariais ou pelo desejo de usar a IA como arma. Mas, idealmente, a China e os EUA deveriam ser as pedras angulares de qualquer acordo. A IA é arriscada demais para que todos a desenvolvam sem controle.

Por último e particularmente importante, há uma boa chance de que a IA, com o tempo, devaste o mercado de trabalho, aumente a desigualdade e crie uma concentração extraordinária de poder econômico —e, portanto, político— nas mãos de um número ínfimo de empresas e pessoas. Se somarmos isso às muitas outras ameaças que a tecnologia representa, confrontamos um enorme risco de uma derrubada autocrática da democracia.

Na verdade, isso já está acontecendo. Aqueles que desejam ver a sobrevivência do governo do povo, para o povo e pelo povo devem tentar impedir isso. A implicação mais óbvia é que uma boa parte da renda e da riqueza aumentadas deve ser compartilhada. O momento de se preparar para isso é agora. Se não agirmos, será tarde demais.

'À medida que o crime se profissionaliza, mortes violentas deixam de ser bom negócio', diz assessor do governo, FSP

 

São Paulo

Os assassinatos registrados no Brasil caíram pelo quinto ano consecutivo, e no entanto o crime organizado e a percepção de insegurança cresceram e estão no centro do debate público nacional. A melhoria nas estatísticas desse e de outros delitos graves parece ter pouco efeito sobre a preocupação com a violência.

E não há contradição nisso, segundo o sociólogo Daniel Hirata. Hoje assessor especial do Ministério da Justiça e Segurança Pública do governo Lula (PT), ele chama atenção para o que realmente provoca a sensação de vulnerabilidade dos brasileiros: a influência de organizações criminosas sobre grandes territórios urbanos e os crimes patrimoniais, especialmente roubos de celulares.

Hirata recusa a ideia de que seja possível tratar as mais de 6.000 mortes em intervenções policiais no país como "dano colateral" no enfrentamento à criminalidade. Pelo contrário, ele argumenta que brutalidade e corrupção policial andam juntas e, em muitos casos, favorecem o crescimento das facções narcotraficantes, milícias e outras organizações criminosas.

Ele falou com a Folha por videoconferência.

O Brasil vive uma tendência de queda nas mortes violentas intencionais que já dura oito anos. No entanto, a sensação de insegurança e as facções criminosas estão no centro do debate nacional. Existe um descompasso entre realidade e percepção?
Não há contradição entre esses dois fatores. Sabemos que desde 2018 as mortes violentas intencionais vêm diminuindo por uma série de fatores: num nível supermacro, o envelhecimento da população [favorece a queda nos assassinatos]; num nível mais conjuntural, há a dinâmica de enfrentamento entre os grupos criminosos.

Algumas políticas também ajudaram nessa diminuição. Mas a percepção da segurança pública envolve uma série de dimensões que não têm, necessariamente, relação com as ocorrências criminais. Houve aumento das capacidades logísticas e operacionais dos grupos criminais, e diversificação dos seus mercados de atuação. O desenvolvimento desses grupos foi escalando, é correta a percepção de que há um problema com o crime organizado no Brasil.

Outra coisa que impacta fortemente a percepção da segurança pública é o crime patrimonial, sobretudo roubo de celulares. Em São Paulo, isso é muito perceptível: se você tirou o celular do bolso, as pessoas já ficam assustadas, falam para tomar cuidado. É um objeto de valor considerável, e a vida das pessoas está lá dentro, né? Isso faz com que a gente entenda porque as mortes violentas caem, mas a percepção da violência continua ou até aumenta.

Homem de cabelos escuros e barba rala, vestido com terno preto e gravata, segura microfone enquanto fala em ambiente formal com cadeiras pretas ao fundo.
O sociólogo e pesquisador Daniel Hirata, assessor especial do Ministério da Justiça e Segurança Pública - Divulgação/Ministério da Justiça e Segurança Pública

Há pesquisas que mostram que dezenas de milhões de pessoas no país convivem com organizações criminosas em seus próprios bairros. A sensação de insegurança não vem justamente disso?
Com certeza. O controle territorial armado impacta fortemente as rotinas das pessoas. Há um confisco de uma série de prerrogativas estatais, como regulação de mercados, mediação dos conflitos. Temos barricadas, um tipo de justiçamento informal, monopolização de setores da economia que são fundamentais —gás, água, internet, para ficar só em alguns exemplos. Claramente isso impacta na percepção de segurança, porque é algo que as pessoas vivem todos os dias.

Existe um plano eficaz, e viável, para retomar controle territorial das facções criminosas no país?
Hoje, sabemos quais são as dimensões fundamentais para a retomada de territórios. Em primeiro lugar, [é necessária a] atuação policial de inteligência antes das operações, de modo a identificar lideranças, mercados sob influência desses grupos, agentes do Estado corrompidos.

A segunda dimensão é o que vem sendo chamado de urbanismo social: abertura de vias, melhoria da mobilidade e da infraestrutura urbana, provimento de serviços de água e luz. Terceiro ponto: acesso à Justiça. É fundamental que as pessoas mobilizem instituições públicas para mediar conflitos.

Quarto: integração econômica. É muito importante saber quais são as capacidades de empreendedorismo, comércio e emprego. Cada local tem uma dinâmica própria. Há casos em que a reocupação [estatal] impede o desenvolvimento de capacidades econômicas, o que é contraproducente no enfrentamento ao crime organizado. Por último, todas as análises baseadas em evidências apontam que políticas focadas na primeira infância são aquelas que mais oferecem resultados a médio e longo prazo.

As UPPs ficaram marcadas pelo desaparecimento e a morte do pedreiro Amarildo de Souza, pelo qual PMs foram condenados. A violência policial explica o fracasso das UPPs, ou há outras explicações?
A questão fundamental é a confiança nas instituições. A retomada é o momento em que a institucionalidade pública tem que construir, de forma muito intensa, a confiança da população. Toda vez que a tentativa de retomada fracassa, há uma quebra de confiança muito grande. Com as UPPs, houve um predomínio da atuação policial. Ela é fundamental, mas sozinha não oferece alternativas às pessoas e tende ao fracasso. E houve um problema de expansão. Houve pressa em fazer tudo, o que tem a ver sobretudo com ciclos eleitorais, e que prejudicou muito a implementação.

O único componente das mortes violentas intencionais que continua crescendo no Brasil é a letalidade policial, mesmo após três anos de um governo federal que critica esse fenômeno. Por que essa estatística segue crescendo?
É um problema histórico no Brasil, é grave, e tem a ver com um equívoco que parte de uma oposição entre o controle do crime e o respeito aos direitos humanos e às garantias constitucionais. Essa oposição não existe. Todas as sociedades em que o crime pôde ser controlado são também aquelas em que as garantias e direitos constitucionais são respeitados. Temos que ter, sim, uma política firme de enfrentamento à criminalidade organizada, mas dentro dos parâmetros legais, com supervisão e responsabilização. A oposição entre segurança e respeito à legalidade envenena a possibilidade de se avançar nessa direção. É uma barreira muito grande, que tem de ser transposta.

É raro que o sistema de Justiça leve a julgamento policiais envolvidos em suspeita de homicídio. O aumento da letalidade policial ocorre por falta de treinamento das forças ou falta de controle externo?
Me parece que é um conjunto. Se um promotor ou um policial da Corregedoria vai analisar o que aconteceu, [é necessário] ter um parâmetro muito claro e definido. Sem padronização, há insegurança inclusive para o próprio policial agir. Uma concertação tem de ser feita entre diversas instituições para que isso avance.

Há um certo imaginário de que policiais extremamente brutais são incorruptíveis. O que a gente percebe é o oposto. Muitas vezes, os policiais que agem de forma brutal —portanto fora dos parâmetros legais— são aqueles que também são encontrados em práticas de corrupção. Estamos falando de penetração do crime organizado em instituições públicas. Atuar sobre esse problema [da violência policial] é atuar também no enfrentamento ao crime organizado.

O Brasil esclarece menos 40% dos seus homicídios. Como o país pode melhorar essa estatística, especificamente?
A taxa de esclarecimento de homicídios no Brasil é muito abaixo da média mundial. As prisões se fazem majoritariamente em flagrante e as provas são basicamente testemunhais, subjetivas. Há todo um investimento a ser feito em infraestrutura nas polícias científicas e nos IMLs [Institutos Médicos Legais]. Em seguida, precisamos ter a valorização profissional. Os peritos raramente entram nos debates de segurança pública, e eles têm muito a dizer.

A sociedade brasileira está cumprindo a contento sua capacidade de resolver problemas de segurança, ou a redução dos assassinatos está mais ligada às transformações que estão fora do controle do poder público?
É possível que tenhamos, em alguns lugares e sob certas circunstâncias, redução das mortes violentas intencionais que esteja relacionada mais com o aumento das capacidades do crime [organizado] do que com a atuação do poder público. Isso é possível porque, à medida em que o crime se complexifica e se profissionaliza, passa a atuar em mercados legais que exigem discrição. Mortes violentas passam a não ser um bom negócio. Isso não só é uma questão brasileira, é uma questão que ocorre no mundo inteiro. Nós temos que reduzir essas capacidades logísticas, financeiras, que o crime organizado construiu ao longo dessas últimas décadas. Temos que conseguir tapar os buracos regulatórios que permitem a entrada do crime organizado em mercados legais.


Raio-x | Daniel Veloso Hirata, 50

1980, São Paulo (SP). Sociólogo com graduação, mestrado e doutorado na USP (Universidade de Sâo Paulo), é professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) desde 2014. Antes de tornar-se assessor especial do Ministério da Justiça, em janeiro de 2026, coordenava o Geni (Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos), um dos principais centros de pesquisa sobre violência do Brasil.