terça-feira, 15 de setembro de 2026

Na IA, possibilidades não são profecias e dúvidas não são certezas, João Pereira Coutinho _FSP

 A festa acaba em 2030? Dizem que sim. A festa, aqui, é a humanidade inteira. A limpeza, essa, será obra da inteligência artificial, cada vez mais autônoma, cada vez mais poderosa, cada vez mais letal.

A nós, pobres símios, sobram mil dias, mais coisa menos coisa. O que você pretende fazer com eles?

Antes de abandonar o trabalho, o casamento, a casa e a higiene, um aviso: pode não acontecer. Notícias do apocalipse não nasceram hoje. Muito menos o medo e a esperança que o apocalipse alimenta na alma dos homens.

Da esperança falarei a seguir. O medo é mais comum: todas as sociedades projetam no apocalipse a ameaça que mais as inquieta. E, nesse quesito, há uma diferença abissal entre o mundo pré e pós-industrial.

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse em versão robótica
Angelo Abu/Folhapress

Da Antiguidade aos alvores da Idade Moderna, foi a Bíblia que marcou o compasso: os Quatro Cavaleiros poderiam aparecer a qualquer altura para devastar o mundo com invasões, guerras, fomes e pestes. A experiência empírica do homem antigo e medieval só confirmava esse horizonte deprimente.

A Revolução Industrial expandiu o temor por via da técnica: sim, as guerras, as fomes e as pestes continuaram a pairar sobre o nosso destino, mas as máquinas tomaram conta do filme até os nossos dias.

Do holocausto nuclear aos bugs informáticos; do aquecimento global (antropogênico, claro) à inteligência artificial, os nossos apocalipses são incomparavelmente mais sofisticados que os temores primitivos dos antecessores.

Mas o apocalipse não desperta apenas medo. Existe esperança nesse momento revelador. Os Quatro Cavaleiros antecipam a Nova Jerusalém —uma promessa tão poderosa que, na Idade Média, alimentou o frenesi de movimentos milenaristas dispostos a purificar o mundo para apressar o reino dos céus.

E quando o reino deixou de ser dos céus, passou por vezes a ser do proletariado: o apocalipse capitalista, que Marx profetizou e Lênin cumpriu, seria o primeiro passo para uma sociedade sem classes. Foi, de fato, o fim do mundo —para 100 milhões de almas.

Mesmo hoje, por entre os temores da inteligência artificial, não faltam apocalípticos que aguardam a aceleração final da tecnologia rumo a um futuro pós-humano.

Nos últimos tempos, tenho lido com interesse —um interesse clínico, entenda— os textos de Nick Land, um dos nomes centrais do chamado "iluminismo das trevas" e influência no Vale do Silício. A salvação do mundo, para ele, não está em frear os excessos da máquina tecnocapitalista.

Pelo contrário: a sua "sede de colapso" só pode ser saciada pela aceleração das forças destrutivas e criativas do próprio capitalismo. A superação do homem pela máquina é um dos cenários possíveis e desejáveis.

No fundo, Nick Land está como os futuristas de um século atrás: fascinado pela velocidade e pela vertigem, acreditando, como dizia Marinetti no seu "Manifesto", ser do nosso interesse "entregar-nos inteiramente ao Desconhecido, não por desespero, mas apenas para saciar os poços profundos do Absurdo".

Onde estão os enfermeiros quando mais precisamos deles?

Não é de admirar que os futuristas tenham visto no fascismo nascente a resposta às suas preces. Também não é de espantar que a vertente "neorreaccionária" associada a Land, desprezando a "decadente" democracia liberal, prefira agora soluções mais radicais.

A festa acaba em 2030?

A festa pode acabar a qualquer momento porque, lamento informar, ninguém vai sair daqui vivo. Além disso, serei o último a subestimar a capacidade humana para a estupidez em larga escala.

Mas a histeria dos últimos dias com a inteligência artificial traz ecos de uma história familiar: nossa tendência para preencher grandes zonas de angústia e incerteza com narrativas apocalípticas coerentes.

Por outro lado, há traços de tecnopessimismo que parecem reproduzir, de forma demasiado perfeita, vários dos "pecados mortais" que o roboticista Rodney Brooks identificou nas nossas previsões sobre o futuro da tecnologia.

Entre eles, está a "antropomorfização" das máquinas através de categorias humanas ("querer", "desejar", "temer"), a transformação da ignorância em magia (ou, no caso, vilania) e uma tendência irresistível para escrever roteiros de filmes de Hollywood.

Isso não significa que a IA seja inofensiva. Nem sequer significa que cenários extremos devam ser ignorados.

Significa, apenas, que possibilidades não são profecias —e que dúvidas não são certezas.

Entre completar frases e exterminar a humanidade, quando foi exatamente que entraram em cena as intenções homicidas?

É uma progressão de carreira notável, mesmo para os padrões do Vale do Silício.

Saúde no Brasil desperdiça até R$ 360 bilhões por ano, diz estudo- FSP

 

São Paulo

O sistema de saúde brasileiro desperdiça entre R$ 240 bilhões e R$ 360 bilhões por ano. O número consta do documento "Os 5 Inegociáveis da Saúde: Uma Agenda para as Lideranças Políticas Brasileiras 2027-2030", elaborado pela Fesaúde (Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo) e pelo SindHosp (Sindicato dos Hospitais, Clínicas, Laboratórios e Estabelecimentos de Saúde do Estado de São Paulo).

O cálculo aplica parâmetros da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) ao gasto brasileiro.

Segundo o levantamento, a maior parcela do desperdício —entre R$ 100 bilhões e R$ 150 bilhões por ano— vem do uso inadequado de tecnologias, de compras ineficientes e de falhas na operação dos serviços.

Bandeja metálica com diversos instrumentos cirúrgicos alinhados, incluindo pinças, tesouras e bisturis, em ambiente hospitalar com iluminação difusa ao fundo.
A saúde movimenta R$ 1,19 trilhão por ano no Brasil, equivalente a 9,4% do PIB - DSimage Adobe Stock

As organizações citam como exemplos exames e procedimentos desnecessários, cuidados de baixo valor, eventos adversos evitáveis e diferenças no tratamento de casos semelhantes, que somam entre R$ 89 bilhões e R$ 133 bilhões.

Ainda conforme o documento, fraudes, corrupção, judicialização evitável, abusos e burocracia respondem por R$ 51 bilhões a R$ 77 bilhões gastos.

A saúde movimenta R$ 1,19 trilhão por ano no Brasil, equivalente a 9,4% do PIB.

Uma redução de 20% no desperdício potencial libera entre R$ 48 bilhões e R$ 72 bilhões por ano, de acordo com a pesquisa. Exames de imagem e laboratoriais repetidos por falta de compartilhamento de resultados entre o SUS (Sistema Único de Saúde) e a saúde suplementar custam entre R$ 15 bilhões e R$ 25 bilhões por ano.

O documento foi apresentado a assessores de saúde de campanhas presidenciais em 14 de setembro, na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

A aposta da Novig nos peitos de Sydney Sweeney - Joanna Moura, FSP

 

Uma plataforma de apostas lança uma campanha publicitária em que se vê uma mulher nua, com suas partes íntimas cobertas por bolas de futebol americano, raquetes e outros equipamentos esportivos, enquanto repete que a empresa oferece "apenas esportes".

A empresa em questão é a americana Novig, cujo diferencial em relação à concorrência é o foco no chamado "mercado de previsões esportivas", ou, em bom português, nas apostas esportivas. A atriz que estrela a campanha é Sydney Sweeney, conhecida por sua atuação na série "Euphoria".

Mulher nua em posição de quatro apoios sobre superfície escura, com bola de futebol sob a mão direita, bola de basquete apoiada nas costas, bola de tênis entre as pernas e bola de futebol americano na mão esquerda. Fundo preto com logotipos 'NOVIG' e 'Just Sports' no topo.
Comercial da Novig estrelando Sydney Sweeney - Reprodução

Não demorou para que a comunidade esportiva reagisse. Atletas mulheres de diferentes modalidades se pronunciaram, acusando a campanha de reduzir a presença feminina no esporte a um corpo sexualizado.

Além disso, criticaram a escolha de dar protagonismo a uma mulher que não faz parte do universo do esporte, preterindo atletas profissionais que costumam enfrentar dificuldade para serem reconhecidas, receberem patrocínios e terem condições mínimas de se dedicar ao esporte como atividade principal.

A ex-ginasta americana Gracie Kramer reagiu publicando imagens de sua trajetória com a frase "É assim que uma mulher no esporte se parece". A nadadora australiana Ariarne Titmus, quatro vezes campeã olímpica, chamou o anúncio de "um tapa na cara" de todas as mulheres que dedicaram a vida ao esporte. Já a velocista britânica Amy Hunt lembrou que esporte feminino é feito de "músculos, trabalho duro, sangue, suor e lágrimas".

Há quem diga que a campanha foi pensada justamente para gerar polêmica. A estratégia tem nome: "rage bait" é um conteúdo deliberadamente provocador, criado para despertar indignação e transformar críticas, comentários e compartilhamentos em alcance gratuito.

A escolha de Sydney Sweeney como protagonista pode ser um indício da tática. A atriz tem se tornado uma figura recorrente nas guerras culturais americanas: em 2025, estrelou uma campanha da American Eagle que brincava com a semelhança entre as palavras "jeans" e "genes", que, em inglês, têm a mesma sonoridade. Ao afirmar que Sydney tinha "bons genes", o anúncio foi acusado de reforçar a ideia de superioridade branca.

Eu concordo, em parte. É bem possível que a Novig tenha contado com a polêmica para multiplicar o alcance da campanha. Mas há algo que essa discussão parece ignorar: o comercial não foi feito para agradar às mulheres —muito menos às atletas. Ele foi pensado e executado para homens. São eles o principal público apostador nos EUA.

Pesquisas apontam que, por lá, homens participam de apostas esportivas em uma proporção duas vezes maior que as mulheres. Além disso, mulheres tendem a apostar de forma menos frequente e menos movida pela emoção, enquanto os homens são mais propensos a comprometer um percentual maior de seus ganhos em apostas.

A intenção por trás da escolha de centrar o comercial na figura de uma mulher jovem, loira, sexy e pelada não parece ter sido, portanto, gerar polêmica.

A verdade incômoda dessa história não é que uma plataforma de apostas está objetificando uma mulher em sua campanha (alguém realmente esperava nobreza e consciência de uma empresa que lucra com a desgraça alheia?). O que mais incomoda é entender que a campanha é um sucesso porque, infelizmente, em 2026, objetificar o corpo de uma mulher parece ser a estratégia mais eficaz para se comunicar com uma grande parcela dos homens.