sábado, 31 de janeiro de 2026

Mauricio Portugal Ribeiro - A nova política ferroviária e o discurso que a acompanha, FSP

 A política ferroviária recentemente anunciada após quase três anos de governo, apesar de tardia, tem vários méritos, particularmente quando comparada ao Pro Trilhos, programa de investimentos em ferrovias por meio de autorizações ferroviárias, criado em 2021, e que deu origem às ironicamente chamadas "ferrovias de papel". Mas é preciso ajustar o discurso que a acompanha a nova política e apressar o passo.

A política tem sido apresentada como inovadora, inclusive em sua forma de financiamento. Ela tem sido qualificada como um Viability Gap Fund (VGF), evocando experiências internacionais bem-sucedidas e sustentando que esse modelo não produziria impacto fiscal direto. Contudo, desde a Antiguidade se sabe que nomina sunt consequentia rerum: os nomes seguem as coisas, não o contrário. Aliás, Shakespeare expressou a mesma ideia ao lembrar, em Romeu e Julieta, que uma rosa manteria o seu perfume mesmo que recebesse outro nome. A retórica pode ser elegante; a contabilidade pública não se deixa seduzir por ela.

Trem de carga azul com várias locomotivas e vagões segue sobre ponte elevada de concreto que cruza rio de água barrenta. Vegetação densa e área rural cercam a ponte sob céu claro.
Trem passa por ferrovia sobre rio em Rondonópolis (MT) - Zanone Fraissat - 9.nov.25/Folhapress

Trocar o nome do instrumento não altera sua natureza econômica. Chamar o pagamento de VGF não o transforma em algo distinto do que ele é: desembolso de recursos públicos durante a fase de implantação da ferrovia. Trata-se de dinheiro pago enquanto a obra acontece, caracterizando gasto primário.

Além disso, rigorosamente, a política anunciada não se constitui em um VGF. Nos modelos internacionais, o VGF pressupõe orçamento segregado, previamente constituído e institucionalmente apartado. Aparentemente, não é isso que ocorrerá no caso brasileiro. À luz da compreensão hoje dominante do princípio da unidade orçamentária, a criação de um orçamento separado para esse fim não é trivial.

Se a política ferroviária vier a concretizar uma efetiva apartação de recursos do orçamento geral especificamente para investimento em infraestrutura, isso será a realização de um antigo anseio do setor, que jamais conseguiu ser implementado de forma estável e permanente. Por ora, o que se desenha são desembolsos orçamentários ordinários, sujeitos às mesmas restrições fiscais de sempre. Denominá-los VGF não altera sua natureza orçamentária nem seu impacto fiscal.

Também não parece adequado sustentar que esse modelo seja superior às PPPs (Parcerias Público-Privadas). Na prática, trata-se de uma concessão administrativa ou patrocinada com aporte, ainda que sem pagamento de contraprestação ao longo da operação. O Estado antecipa recursos para viabilizar o investimento privado, como faria em uma PPP com aporte. A diferença está menos na economia do arranjo e mais em seu enquadramento jurídico e na narrativa fiscal que o acompanha.

Por não haver contraprestação periódica, o modelo não gera dívida contratual pública nos moldes tradicionais das PPPs. É justamente daí que decorre a afirmação de inexistência de impacto fiscal. Isso não elimina, porém, o efeito do aporte sobre o gasto primário, com incremento do déficit público nos primeiros anos da concessão e com o previsível aumento da necessidade de endividamento do ente governamental. Em um país já bastante endividado, esse efeito é relevante.

Por outro lado, como o endividamento para cobrir os déficits públicos a serem ampliados pela nova política será por meio de títulos soberanos, o custo dessa dívida certamente será menor que o de dívida por meio de PPP, que embute prêmios nem sempre amistosos para compensar o risco de o pagamento público ir parar no regime dos precatórios.

Nada disso é juridicamente irregular ou necessariamente negativo. É perfeitamente possível estruturar essa política com base na legislação sobre contabilidade pública atual, utilizando a categoria de subsídio público ali prevista. Trata-se de solução conhecida no direito financeiro. Aliás, em 2012, eu e Gabriel Galípolo defendemos publicamente, em artigo em coautoria, a realização de pagamentos públicos ao longo da obra em contratos de concessão como subsídio explícito e orçamentariamente reconhecido. Esse debate influenciou o governo na época e levou à criação da lei sobre aporte público em PPPs.

Enfim, a política anunciada é adequada e necessária para enfrentar gargalos históricos da logística brasileira. Mas é preciso apressar o seu ritmo e adequar o discurso que a acompanha. Ferrovias exigem investimento pesado, planejamento de longo prazo e coordenação entre Estado e mercado. Isso não é defeito; é o próprio manual de instruções do setor. O que fragiliza políticas dessa envergadura não é o custo que elas têm, mas a insistência em fingir que ele não existe.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Pé frio de Trump, Ruy Castro - FSP

 Parece castigo divino. Justamente quando Donald Trump ameaça falir o planeta se a Dinamarca não lhe der a Groenlândia, o caos ambiental —no qual ele não acredita e favorece com suas medidas de fim do mundo— castiga os EUA com o pior inverno dos últimos 40 anos: nevascas brutais, cidades a 30° abaixo de zero, mortes por hipotermia, comércio, indústria e transportes parados e vida impossível fora de casa.

É como se o Ártico, que ele tanto ambiciona, ouvisse seus bramidos e se despejasse de uma vez sobre sua cabeça e a de seus eleitores —pena que também sobre a de quem não vota nele.

Com tanta neve que se converte em gelo (a camada de cima derrete e a água se recongela), é significativo que o braço armado de Trump, o Immigration and Customs Enforcement (Serviço de Controle de Imigração e Alfândega), atenda em inglês pela sigla ICE —gelo. Trata-se da polícia encarregada da identificação, detenção e deportação de pessoas de cabelo preto escorrido, incluindo meninos de 5 anos. Para compensar o estilo gelado com que conduz suas operações, o ICE dispara tiros à queima-roupa em cidadãos americanos inocentes e imobilizados.

Talvez Trump seja pé-frio. Em abril último, quando da morte do papa Francisco e às vésperas da eleição do sucessor pelo Vaticano, um repórter perguntou a Trump se tinha um favorito para o cargo —como se o assunto lhe dissesse respeito. A pergunta era encomendada e Trump já estava com a resposta pronta: sim, ele mesmo poderia ser um grande papa. O clero ignorou seu palpite, claro, mas —surpresa!—, como se Trump lhe tivesse dado a ideia, elegeu o cardeal Robert Francis Prevost, um americano. E não apenas americano como muito ligado à América Latina e, sagrado Leão 14, atento à crueldade contra os imigrantes.

No Brasil, o verão pega fogo, mas os bolsonaristas também estão levando um balde de gelo. Como explicar que, de repente, Trump, que nem sabe mais quem era Bolsonaro, passe horas ao telefone discutindo a cena internacional e trocando carinhos com... o Lula?

Tolerância com Trump saiu caro - Hélio Schwartsman, FSP

 O homem é o mesmo, mas a diferença entre o Donald Trump do primeiro mandato e o do segundo é abissal. Os desatinos da primeira administração, que não foram poucos, ainda podiam ser interpretados como um acidente de percurso, consequência de um resultado eleitoral que surpreendeu não apenas os desavisados eleitores americanos como o próprio Trump, que entrara na disputa com baixas expectativas.

O primeiro ano do segundo mandato, porém, não dá dúvidas. As tendências autoritárias do Agente Laranja e seu desapreço pelas instituições, que já haviam aparecido em germe em sua passagem anterior, se tornaram a matéria-prima do governo.

Policiais em equipamento tático avançam em rua com fumaça densa. Um policial aponta arma para frente, enquanto outro detém pessoa no chão. Detritos espalhados pelo chão indicam confronto recente.
Agentes confrontam manifestantes durante protestos contra as ações do ICE em Minneapolis - David Guttenfelder - 24.jan.26/NYT

Trump 2 fez terra arrasada da ordem global do pós-Guerra, dinamitou a política de alianças dos EUA e está destruindo o sistema universitário do país, que lhe assegurava liderança na ciência, entre outras realizações duvidosas. Criou até uma guarda pretoriana, o ICE, quem vem usando com objetivos políticos—uma marca inequívoca de regimes totalitários.

Dado que a personalidade é mais ou menos estável ao longo de toda a vida, a transformação se explica pela curva de aprendizagem. Na primeira gestão, Trump precisou apoiar-se em quadros do Partido Republicano para compor seu secretariado. Esse pessoal, que não era antissistema, operou para limitar os estragos que os impulsos mais selvagens do mandatário poderiam causar. Foram secundados nessa tarefa pela burocracia estável do governo.

Trump viu e não gostou. Atribuiu a derrota de 2020 ao "deep state" e, quando reconquistou o cargo, evitou cercar-se de gente que poderia moderá-lo, convocando auxiliares tão ou mais radicais que ele. Também procedeu a uma razia nos quadros da burocracia estável.

Outra lição assimilada foi a de que as instituições não agiriam para contê-lo. Nem a Justiça nem o Congresso o responsabilizaram pelos muitos desmandos da primeira gestão, que incluíram a insurreição de 6 de janeiro de 2021.

O resultado desse duplo movimento é o Trump sem freios com o qual o mundo agora lida.

Governo prevê R$ 100 mil para Datena na EBC e programação focada na segurança pública, FSP

 Catia Seabra

Brasília

O governo Lula (PT) deve pagar R$ 100 mil mensais para José Luiz Datena comandar programas em horários de destaque da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), voltados aos públicos das classes C, D e E e focados no debate sobre segurança pública.

O presidente foi convidado pelo apresentador para ser o entrevistado da edição de estreia do "Na mesa com Datena", programa semanal com uma hora e 30 minutos na TV Brasil. O convite foi feito em um recente encontro de quase duas horas.

Apesar de demonstrar simpatia à ideia, Lula não confirmou presença. Datena ainda apresentará o "Alô Alô Brasil", noticiário matinal de duas horas que será veiculado na Rádio Nacional, com os principais fatos do dia.

Dois homens de meia-idade estão em um escritório com mapa-múndi ao fundo. Um veste terno cinza e o outro, blazer azul com calça jeans e tênis bege. Eles sorriem e apertam as mãos em gesto de cumprimento.
O presidente Lula (PT) e o apresentador José Luiz Datena - Ricardo Stuckert/Divulgação

Com estreia esperada para fevereiro, o apresentador ainda não assinou o contrato com a EBC, que também prevê pagamentos de até R$ 65,8 mil em viagens. No total, o acordo é estimado em R$ 1,26 milhão por um ano.

O jornalista se notabilizou por comandar programas de larga audiência, com tom elogioso às ações policiais. O plano de contratá-lo foi revelado pela Folha.

Em dezembro, a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e sindicatos criticaram o plano de contratá-lo e disseram, em nota, que o apresentador "consolidou um tipo de jornalismo marcado pelo desrespeito sistemático aos direitos humanos e pelo proselitismo político".

Na política, foi filiado a mais de dez partidos, apoiou do PT até Jair Bolsonaro (PL) e deu uma cadeirada em Pablo Marçal (PRTB) durante a disputa para a Prefeitura de São Paulo em 2024.

Segundo petistas, a ideia é que ele leve ao ar um debate sobre política de segurança, incluindo o papel do Estado, em contraponto ao discurso da direita que deve ser explorado nas eleições deste ano.

A empresa pública cita como argumentos para a contratação sem licitação os dois prêmios Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos vencidos na década de 1980 por equipes de TVs de Ribeirão Preto que Datena integrava.

A EBC argumenta que o salário seria adequado, pois o próprio apresentador teve remunerações mais altas em outras emissoras. Cita que a empresa de Datena emitiu nota de R$ 652,3 mil, em dezembro de 2023, por serviços prestados para a Band, além de outra no valor de R$ 100 mil por programa na RedeTV!, no ano passado.

Esses cálculos excluem participação em publicidade. Para estimar o salário, a EBC menciona que Cissa Guimarães também recebe R$ 100 mil para apresentar o "Sem Censura".

Presidente da EBC, André Basbaum afirma que Datena comandará programas de pauta ampla, mas com enfoque na área de segurança pública. Ele diz que o tema ganhará destaque por ser de interesse público.

Basbaum afirma ainda que o apresentador tem visão ampla de justiça, público cativo e é ouvido por agentes de segurança pública, dentre eles o promotor de Justiça, Lincoln Gakiya, especialista no combate ao PCC.

"A gente vai ‘bukelizar’ o Brasil ou fazer um debate público, sério e qualificado sobre segurança pública?", afirma Basbaum, ao se referir ao presidente de El Salvador, Nayib Bukele, cuja política de segurança pública é descrita como arbitrária e violenta.

Segundo o presidente da EBC, o noticiário de rádio terá a participação de comentaristas, como o jornalista Jamil Chade, além de quadro de humor. Datena ainda deve replicar conteúdos da empresa pública na própria rede social —ele tem 1 milhão de seguidores no Instagram e cerca do mesmo volume no X, antigo Twitter.

A emissora planeja que Datena entreviste autoridades de segurança pública, como o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O apresentador também deseja levar ao programa de TV o presidente do PSD, Gilberto Kassab, e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), segundo interlocutores que acompanham a contratação.

O convite ao apresentador foi endossado pelo próprio Lulaque o recebeu no dia 1º de dezembro em Brasília. Os dois são amigos há várias décadas. Foi nesse encontro que Datena chamou o petista ao programa de estreia.

Imagem mostra Datena com terno e óculos escuros ao lado de Bolsonaro, durante entrevista à imprensa no Palácio da Alvorada
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o apresentador José Luiz Datena em entrevista à imprensa realizada entre o 1º e 2º turno das eleições de 2022 - Gabriela Biló - 7.out.22/Folhapress

A EBC ainda planeja uma campanha publicitária para divulgar os programas de Datena. No briefing, a empresa afirma que a propaganda de TV deve mirar classes C, D e E, além do público com mais de 50 anos. Para o noticiário da Rádio Nacional, o foco é o público adulto, com mais de 35 anos e "em deslocamento no período da manhã".

A interlocutores Datena aponta o comando de um programa de entrevistas como realização de um grande sonho, causa pela qual teria aceitado o desafio.

Nascido em Ribeirão Preto, Datena iniciou sua carreira como repórter esportivo de rádio e TV. Também atuou como locutor.

Em 1989, Datena acabou demitido da Rede Globo após ter subido no palanque de Lula, que era candidato na eleição presidencial e chegou ao segundo turno contra Fernando Collor, tendo sido derrotado. Desde 1998, passou pela Record, SBT, Band e RedeTV!, emissora que deixou no começo de 2026 para migrar para a EBC.

Na disputa presidencial de 2022, ele chegou a se aproximar do então presidente Jair Bolsonaro, tendo se afastado por discordar da condução da campanha. No mesmo ano, foi convidado por Márcio França, atual ministro do Empreendedorismo, para um encontro com Lula, mas preferiu não atuar diretamente na disputa.