segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Água 4.0, uma nova revolução, Tasso Azevedo , Época



Coluna;Bússola;Meio Ambiente (Foto: Thinkstock)
Em um livro recente, o engenheiro David Sedlak, da Universidade de Berkeley, descreve três revoluções pelas quais passou o desenvolvimento de sistemas de água em centros urbanos. O primeiro foi a inovação romana de captar água potável e despejar esgoto fora dos centros mais populosos. Já a segunda revolução foi o tratamento da água para consumo, matando microorganismos patógenos. A terceira, por fim, foi a implantação dos sistemas de tratamento de esgoto.
Sedlak complementa indicando a necessidade de uma quarta revolução da água, essencial para enfrentar um conjunto de problemas bem atuais: o aumento da escassez de água provocada pelas mudanças do clima, o consumo desproporcional à capacidade de produção e a excessiva e cada vez mais complexa contaminação química da água. Ainda poderia acrescentar a desigualdade de condições para tratamento e oferta de água em diferentes regiões do planeta, devido aos custos de implementação.
A coleta e o tratamento de esgoto são absolutamente fundamentais para a geração de um ambiente saudável no meio urbano, mas, infelizmente, ainda é uma realidade muito distante do mundo em desenvolvimento. No Brasil, segundo o Instituto Trata Brasil, metade da população não conta com sistema de coleta de esgoto, e só 40% do esgoto é tratado. Tratamento de esgoto exige infraestrutura cara de coleta, demanda espaço grande e muita
energia para a operação (cerca de 2 KWh/m3).
Outro desafio é a dessalinização da água para viabilizar o abastecimento em regiões de grande déficit hídrico. É um processo caro, em geral realizado por osmose reversa, onde a água é empurrada por meio de pressão através de vários filtros, com enorme consumo de energia (cerca de 4 KWh/m3). Em Fernando de Noronha, a unidade de dessalinização da água chega a representar 50% da demanda de energia da ilha.
Existem várias iniciativas no mundo em busca de soluções para acelerar, baratear e simplificar o tratamento de água e esgoto. Nos Estados Unidos, uma startup chamada Janicki Bionergy desenvolveu o Omniprocessor, uma usina onde de um lado entra esgoto e do outro saem energia, água potável e cinzas fertilizantes. O vídeo de Bill Gates tomando um copo
d’água que vinha da usina viralizou na internet. NoBrasil, outra startup – MoOmi (água limpa,
em Iorubá) – desenvolveu um sistema ainda mais inovador, que separa a água das demais partículas do esgoto usando ultrassom – sem utilizar produtos químicos ou decomposição bacteriana. O sistema de tratamento é contínuo e rápido, o que reduz em 75% a área por ele ocupada. O consumo de energia é apenas 10% do que consome o sistema tradicional, e os custos de implementação e operação caem pela metade. A primeira unidade operacional, com capacidade de 240 m3/hora, já funciona em Ubatuba, no litoral paulista. O mesmo sistema pode ser utilizado para dessalinizar água, com reduções no consumo de energia superiores a 95%. Por usar área menor e com capacidade de ser feita em diferentes escalas, pode viabilizar redes de coleta de esgoto menos complexas – facilitando a implementação da infraestrutura de saneamento básico.
É mais um bom exemplo de inovação que pode acelerar o alcance das metas globais de desenvolvimento sustentável.
*Tasso Azevedo é engenheiro florestal e empreendedor socioambiental

Nenhum comentário: