sábado, 17 de janeiro de 2026

Modelo transforma casarões arruinados em moradia para os mais pobres em Campos Elíseos, FSP

 Clayton Castelani

São Paulo

Idealizado por empresários europeus no final dos anos 1800, o loteamento nomeado em referência à avenida parisiense Champs-Élysées foi preenchido por mansões da elite ligada à economia cafeeira. Mais de um século depois, o trecho do distrito Santa Cecília chamado de Campos Elíseos se tornou sinônimo da decadência da região central da cidade de São Paulo.

Transformar palacetes arruinados do bairro em moradia e local de trabalho para grupos vulneráveis é o cerne do modelo de requalificação urbana dos professores de arquitetura e urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie Lizete Maria Rubano e Antônio Aparecido Fabiano Júnior. O projeto "Reconstruir sem destruir" é o quarto da série Centro em Transição, que discute ideias para transformar o coração da capital paulista.

Cinco propostas serão publicadas até 24 de janeiro, véspera do aniversário da capital paulista. Um minidocumentário consolidando as sugestões irá ao ar nessa data. Já foram reportados projetos para o parque Dom Pedro 2ºBom Retiro e Centro Histórico.

Estátua dourada do Cristo Redentor vista de costas, com halo circular, sobre pedestal azul com estrelas, cercada por prédios residenciais e comerciais em área urbana sob céu parcialmente nublado.
Imagem do Cristo Redentor, no alto do Liceu Coração de Jesus, diante de quarteirões com casarões arruinados e novos conjuntos de prédios residenciais em Campos Elíseos, na região central de São Paulo - Folhapress

O fim do ciclo do café nos anos 1930 e a chegada de um terminal rodoviário na Luz nos anos 1960 marcaram a transição de um reduto de ricos para um bairro de migrantes. Casarões foram transformados em pensões e a desvalorização imobiliária se agravou com a desativação do terminal nos anos 1980.

Pensões muito baratas se tornaram abrigo para traficantes de drogas. A chegada do crack nos anos 1990 atraiu milhares de usuários para os arredores da estação Júlio Prestes —a cena de consumo da droga ao ar livre ficou conhecida como cracolândia.

Iniciativas do poder público na região fracassaram até que, em meados dos anos 2010, o governo estadual apresentou um plano que conseguiu sair do papel: uma PPP (Parceria Público-Privada) com valor inicial de 1,4 bilhão para a construção de quase 3.700 apartamentos.

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Quarteirões inteiros foram demolidos para dar lugar ao megacondomínio, cujos prédios —em sua maioria já construídos e habitados— atendem famílias com renda a partir de um salário mínimo.

Esses novos imóveis, porém, seguem inacessíveis para pessoas ainda mais pobres ou que não conseguem comprovar renda, argumentam os professores de urbanismo do Mackenzie.

Para atender esse público, Rubano e Fabiano defendem que casarões e outros prédios abandonados sejam restaurados para servir de moradia para indivíduos que vivem em pensões precárias e cortiços, além de pessoas em situação de rua.

Restaurar esses imóveis ou ao menos suas fachadas também resultaria na preservação de elementos históricos da urbanização paulistana, alegam os autores da proposta.

Imóveis reconstruídos e novos —nos casos em que a recuperação fosse inviável— abrigariam habitações transitórias, fixas e coletivas, além oficinas e cozinhas comunitárias para também promoverem renda e socialização.

O projeto, embora faça referência aos Campos Elíseos, serve de método para discutir moradia acessível em outras localidades em que há necessidade de equilibrar a oferta de habitação, especialmente em projetos de requalificação urbana, com a inclusão daqueles que não conseguem ingressar em programas habitacionais convencionais.

"Campos Elíseos está em todos os lugares, justamente porque está na tensão entre dois momentos: agora que todo mundo quer estar aqui, os pobres, que tinham permanecido quando os ricos saíram, acabam ficando sem lugar", diz Fabiano.

Informada sobre o projeto dos especialistas, a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que a PPP da habitação foi uma ação fundamental para marcar o início de um processo de revitalização da região central.

O governo também afirmou que o lançamento de uma nova PPP para requalificação de toda a área central prevê 6.500 novas moradias.

Já a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) disse que 40% de todo o volume arrecadado com outorga onerosa (a taxa que dá o direito de construir) na região central é destinado para famílias com renda de até dois salários mínimos.

Abaixo, alguns destaques da proposta dos professores do Mackenzie:

Reconstruir sem destruir - Habitação acessível no centro

Reconstruções das quadras 37 e 38

  • Casarões em ruínas na rua Helvétia e alameda Dino Bueno teriam fachadas restauradas e interiores reconstruídos, sem prejuízo à unidade de saúde, à escola estadual e ao recém-inaugurado condomínio residencial com 190 apartamentos na mesma quadra 38;
  • A gestão do prefeito Ricardo Nunes tem outro plano para esta quadra. Uma PPP municipal de habitação prevê a construção de 307 unidades habitacionais no local;
  • A proposta dos professores também se aplica às pensões desativadas que funcionam nos casarões arruinados da quadra ao lado, a 37, localizada diante do tradicional Liceu Coração de Jesus;
  • A quadra 36 estava originalmente incluída no projeto, mas o governo estadual construiu no local o Hospital da Mulher

Oficinas para trabalho e renda

  • Atividades econômicas comunitárias que já são comuns a esses grupos, como a produção de alimentos, seriam estruturadas;
  • Áreas internas seriam adaptadas para a geração de trabalho e renda, com a construção de oficina de costura, serralheria e carpintaria.

Método para reconstruir sem destruir

  • O projeto procura combinar a preservação de imóveis e a redução ou eliminação dos despejos nos casos de imóveis já ocupados;
  • Esse método prevê que, em diferentes etapas, andares de edifícios sejam mesclados e incorporados a imóveis e terrenos vagos nas suas laterais;
  • O entulho gerado por demolições seria separado, triturado e reaproveitado na tentativa de reduzir o custo das obras.

Elementos e dinâmicas

Prédios seriam reformados ou reconstruídos de forma a potencializar dinâmicas sociais que já ocorrem em pensões e cortiços da região central. Cinco elementos em comum identificados em casarões dos Campos Elíseos podem ser aprimorados:

  • Terraço - Funcionam tanto como espaços de contemplação, quanto para atividades práticas comunitárias, como hortas;
  • Pátio - Com luz natural, áreas abertas no centro das construções seriam adaptadas para atividades recreativas e coletivas;
  • Quintal - Corredores e quintais são frequentemente usados como áreas de serviço e poderiam ser efetivamente adaptados para esse uso;
  • Fosso - Espaços obrigatórios para ventilar construções também podem funcionar como áreas para contemplação;
  • Soleiras - Portas dos edifícios voltadas para a rua e bancos nas calçadas estimulam a convivência e integração com a rua.
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Será que ele é?, Helio Schwartsman, FSP

 O governador Tarcísio de Freitas afirma e reafirma que é candidato à reeleição em São Paulo, mas mantém deliberada ambiguidade em relação ao pleito presidencial. É secundado nessa tarefa pela própria esposa e por Michelle Bolsonaro. Não dá para dizer que o cálculo de Tarcísio esteja errado.

Embora já haja petistas comprando enxoval para a segunda posse de Lula, não penso que a disputa será um passeio. A última leva de pesquisas mostra que a direita continua forte. A soma das intenções de voto em pré-candidatos conservadores fica próxima das do petista e, mesmo nas simulações de segundo turno em que Lula vence seus adversários, ele o faz por poucos pontos. Dez meses antes da eleição, essa diferença é mais um empate do que uma vantagem real.

Homem de terno azul fala ao microfone em evento com bandeiras do Brasil e de São Paulo ao fundo. Painel com logotipo do governo paulista aparece atrás.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), durante confraternização com o corpo consular no Palácio dos Bandeirantes - Paulo Guereta - 09.dez.25/Divulgação Governo do Estado de SP

Até meados do ano passado, Lula parecia estar nas cordas, amargando baixos índices de popularidade. O motivo principal da reviravolta foi uma cortesia involuntária de Donald Trump, cujas sandices econômicas derrubaram o valor do dólar. E o dólar barato conteve a inflação dos alimentos, que é o que mais erodia a aprovação ao petista. Ocorre que uma das previsões fáceis para este 2026 é que, se o Lula gastador aparecer de forma consistente à frente nas pesquisas, o dólar vai subir. Dependendo de quando isso ocorrer e da escala do fenômeno, poderemos ter um repique inflacionário, que não o ajudaria na campanha.

Lula até poderia se vacinar contra isso apresentando um plano crível para lidar com o problema fiscal a partir de 2027, mas não consigo imaginar o PT abandonando o populismo e sendo honesto em relação à situação da economia. Dilma não foi em 2014, e não penso que o partido tenha aprendido a lição.