sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Tolerância com Trump saiu caro - Hélio Schwartsman, FSP

 O homem é o mesmo, mas a diferença entre o Donald Trump do primeiro mandato e o do segundo é abissal. Os desatinos da primeira administração, que não foram poucos, ainda podiam ser interpretados como um acidente de percurso, consequência de um resultado eleitoral que surpreendeu não apenas os desavisados eleitores americanos como o próprio Trump, que entrara na disputa com baixas expectativas.

O primeiro ano do segundo mandato, porém, não dá dúvidas. As tendências autoritárias do Agente Laranja e seu desapreço pelas instituições, que já haviam aparecido em germe em sua passagem anterior, se tornaram a matéria-prima do governo.

Policiais em equipamento tático avançam em rua com fumaça densa. Um policial aponta arma para frente, enquanto outro detém pessoa no chão. Detritos espalhados pelo chão indicam confronto recente.
Agentes confrontam manifestantes durante protestos contra as ações do ICE em Minneapolis - David Guttenfelder - 24.jan.26/NYT

Trump 2 fez terra arrasada da ordem global do pós-Guerra, dinamitou a política de alianças dos EUA e está destruindo o sistema universitário do país, que lhe assegurava liderança na ciência, entre outras realizações duvidosas. Criou até uma guarda pretoriana, o ICE, quem vem usando com objetivos políticos—uma marca inequívoca de regimes totalitários.

Dado que a personalidade é mais ou menos estável ao longo de toda a vida, a transformação se explica pela curva de aprendizagem. Na primeira gestão, Trump precisou apoiar-se em quadros do Partido Republicano para compor seu secretariado. Esse pessoal, que não era antissistema, operou para limitar os estragos que os impulsos mais selvagens do mandatário poderiam causar. Foram secundados nessa tarefa pela burocracia estável do governo.

Trump viu e não gostou. Atribuiu a derrota de 2020 ao "deep state" e, quando reconquistou o cargo, evitou cercar-se de gente que poderia moderá-lo, convocando auxiliares tão ou mais radicais que ele. Também procedeu a uma razia nos quadros da burocracia estável.

Outra lição assimilada foi a de que as instituições não agiriam para contê-lo. Nem a Justiça nem o Congresso o responsabilizaram pelos muitos desmandos da primeira gestão, que incluíram a insurreição de 6 de janeiro de 2021.

O resultado desse duplo movimento é o Trump sem freios com o qual o mundo agora lida.

Governo prevê R$ 100 mil para Datena na EBC e programação focada na segurança pública, FSP

 Catia Seabra

Brasília

O governo Lula (PT) deve pagar R$ 100 mil mensais para José Luiz Datena comandar programas em horários de destaque da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), voltados aos públicos das classes C, D e E e focados no debate sobre segurança pública.

O presidente foi convidado pelo apresentador para ser o entrevistado da edição de estreia do "Na mesa com Datena", programa semanal com uma hora e 30 minutos na TV Brasil. O convite foi feito em um recente encontro de quase duas horas.

Apesar de demonstrar simpatia à ideia, Lula não confirmou presença. Datena ainda apresentará o "Alô Alô Brasil", noticiário matinal de duas horas que será veiculado na Rádio Nacional, com os principais fatos do dia.

Dois homens de meia-idade estão em um escritório com mapa-múndi ao fundo. Um veste terno cinza e o outro, blazer azul com calça jeans e tênis bege. Eles sorriem e apertam as mãos em gesto de cumprimento.
O presidente Lula (PT) e o apresentador José Luiz Datena - Ricardo Stuckert/Divulgação

Com estreia esperada para fevereiro, o apresentador ainda não assinou o contrato com a EBC, que também prevê pagamentos de até R$ 65,8 mil em viagens. No total, o acordo é estimado em R$ 1,26 milhão por um ano.

O jornalista se notabilizou por comandar programas de larga audiência, com tom elogioso às ações policiais. O plano de contratá-lo foi revelado pela Folha.

Em dezembro, a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) e sindicatos criticaram o plano de contratá-lo e disseram, em nota, que o apresentador "consolidou um tipo de jornalismo marcado pelo desrespeito sistemático aos direitos humanos e pelo proselitismo político".

Na política, foi filiado a mais de dez partidos, apoiou do PT até Jair Bolsonaro (PL) e deu uma cadeirada em Pablo Marçal (PRTB) durante a disputa para a Prefeitura de São Paulo em 2024.

Segundo petistas, a ideia é que ele leve ao ar um debate sobre política de segurança, incluindo o papel do Estado, em contraponto ao discurso da direita que deve ser explorado nas eleições deste ano.

A empresa pública cita como argumentos para a contratação sem licitação os dois prêmios Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos vencidos na década de 1980 por equipes de TVs de Ribeirão Preto que Datena integrava.

A EBC argumenta que o salário seria adequado, pois o próprio apresentador teve remunerações mais altas em outras emissoras. Cita que a empresa de Datena emitiu nota de R$ 652,3 mil, em dezembro de 2023, por serviços prestados para a Band, além de outra no valor de R$ 100 mil por programa na RedeTV!, no ano passado.

Esses cálculos excluem participação em publicidade. Para estimar o salário, a EBC menciona que Cissa Guimarães também recebe R$ 100 mil para apresentar o "Sem Censura".

Presidente da EBC, André Basbaum afirma que Datena comandará programas de pauta ampla, mas com enfoque na área de segurança pública. Ele diz que o tema ganhará destaque por ser de interesse público.

Basbaum afirma ainda que o apresentador tem visão ampla de justiça, público cativo e é ouvido por agentes de segurança pública, dentre eles o promotor de Justiça, Lincoln Gakiya, especialista no combate ao PCC.

"A gente vai ‘bukelizar’ o Brasil ou fazer um debate público, sério e qualificado sobre segurança pública?", afirma Basbaum, ao se referir ao presidente de El Salvador, Nayib Bukele, cuja política de segurança pública é descrita como arbitrária e violenta.

Segundo o presidente da EBC, o noticiário de rádio terá a participação de comentaristas, como o jornalista Jamil Chade, além de quadro de humor. Datena ainda deve replicar conteúdos da empresa pública na própria rede social —ele tem 1 milhão de seguidores no Instagram e cerca do mesmo volume no X, antigo Twitter.

A emissora planeja que Datena entreviste autoridades de segurança pública, como o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O apresentador também deseja levar ao programa de TV o presidente do PSD, Gilberto Kassab, e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), segundo interlocutores que acompanham a contratação.

O convite ao apresentador foi endossado pelo próprio Lulaque o recebeu no dia 1º de dezembro em Brasília. Os dois são amigos há várias décadas. Foi nesse encontro que Datena chamou o petista ao programa de estreia.

Imagem mostra Datena com terno e óculos escuros ao lado de Bolsonaro, durante entrevista à imprensa no Palácio da Alvorada
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o apresentador José Luiz Datena em entrevista à imprensa realizada entre o 1º e 2º turno das eleições de 2022 - Gabriela Biló - 7.out.22/Folhapress

A EBC ainda planeja uma campanha publicitária para divulgar os programas de Datena. No briefing, a empresa afirma que a propaganda de TV deve mirar classes C, D e E, além do público com mais de 50 anos. Para o noticiário da Rádio Nacional, o foco é o público adulto, com mais de 35 anos e "em deslocamento no período da manhã".

A interlocutores Datena aponta o comando de um programa de entrevistas como realização de um grande sonho, causa pela qual teria aceitado o desafio.

Nascido em Ribeirão Preto, Datena iniciou sua carreira como repórter esportivo de rádio e TV. Também atuou como locutor.

Em 1989, Datena acabou demitido da Rede Globo após ter subido no palanque de Lula, que era candidato na eleição presidencial e chegou ao segundo turno contra Fernando Collor, tendo sido derrotado. Desde 1998, passou pela Record, SBT, Band e RedeTV!, emissora que deixou no começo de 2026 para migrar para a EBC.

Na disputa presidencial de 2022, ele chegou a se aproximar do então presidente Jair Bolsonaro, tendo se afastado por discordar da condução da campanha. No mesmo ano, foi convidado por Márcio França, atual ministro do Empreendedorismo, para um encontro com Lula, mas preferiu não atuar diretamente na disputa.

Um problema patente - Hélio Schwartsman _FSP

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patente brasileira da semaglutida (Ozempic) vencerá em março, e os lobbies já se movimentam. A Novo Nordisk, empresa que desenvolveu o fármaco, tenta convencer o Congresso Nacional a aprovar um projeto de lei que ampliaria a proteção por cinco anos, enquanto laboratórios interessados em produzir versões genéricas da droga insistem em manter a regra como está.

Ao menos abstratamente, o argumento da Novo Nordisk faz sentido. A farmacêutica alega que o poder público atrasou a concessão da patente por oito anos, reduzindo assim injustificadamente o prazo que o laboratório deveria ter para explorar com exclusividade os direitos de venda da droga. Apesar de justo, acho difícil que o pleito venha a ser atendido.

A imagem mostra uma caneta de medicamento Ozempic, que é utilizada para administração de semaglutida. A caneta é de cor azul e possui uma etiqueta com o nome "Ozempic" e a dosagem de 0,5 mg. Ao fundo, há uma leve desfocagem que sugere um ambiente doméstico.
Caneta Ozempic, medicamento usado para tratamento de obesidade - Karime Xavier - 9.jan.25/Folhapress

Março está aí e com ele a perspectiva de preços menos salgados para um método eficaz de perda de peso e controle do diabetes tipo 2. O ser humano em geral e o Brasil em particular não são bons em sacrificar o curto prazo em favor do longo. E o sistema de patentes, ao conceder monopólios temporários a inventores, existe justamente para tentar assegurar que o fluxo de inovações não seque no futuro.

A questão é saber se o sistema funciona. E é aí que as coisas ficam complicadas. Pelas análises mais modernas, as patentes nunca foram uma forma muito eficaz de estimular inovações e existem situações específicas em que elas desencorajam a pesquisa. Um exemplo é o fenômeno da grilagem de patentes em biotecnologia, pelo qual grupos vão patenteando tudo o que de algum modo se relacione a uma área de pesquisa apenas para evitar que possíveis competidores entrem nesse veio.

No caso de medicamentos, contudo, não é simples trocar as patentes por outro sistema, entre os vários que se discutem. É que o volume de investimentos para desenvolver uma droga é muito elevado e a taxa de sucesso, relativamente baixa. Se os recursos para custear isso não vierem das drogas que "dão certo" teriam de vir dos orçamentos públicos e competir com outras demandas sociais como educação, segurança etc.