quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Hélio Schwartsman - Nova ordem trumpiana, FSP

 

São Paulo

A estratégia de Donald Trump é entupir os EUA e o mundo de declarações, decretos e ações concretas altamente controversos, criando o ambiente caótico no qual ele tende a prosperar.

Como ninguém sabe distinguir direito o que é factoide, tática de negociação e o que é para valer, a resultante é a incerteza. Na confusão, Trump vai testando interlocutores e os limites de seu próprio poder.

O dono do X, Elon Musk, conversa com a imprensa na Casa Branca ao lado do presidente dos EUA, Donald Trump; o filho de Musk, X Æ A-Xii, cutuca o nariz ao fundo - Jim Watson - 11.fev.25/AFP

Dois eixos de sua "política" causam especial preocupação. O primeiro é o externo. A confirmar-se a perspectiva de um entendimento entre Washington e Moscou para entregar a Vladimir Putin um belo naco da Ucrânia, é a própria ordem mundial liberal que vai para o espaço.

Trump estaria substituindo décadas de esforço de vários presidentes americanos em prol de uma governança global baseada em regras pelas velhas zonas de influência. Seria a troca de um multilateralismo, ainda que muito imperfeito, por um antiliberalismo carl-schmittiano.

As implicações não são triviais. Seria, por exemplo, um sinal verde para os chineses retomarem Taiwan. Mais do que isso, um sinal verde com cronograma. Se Pequim optar pela via militar, deve fazê-lo nos próximos quatro anos, antes do fim do mandato de Trump, pois ninguém sabe o que virá depois.

PF mira grupo de traficantes de drogas suspeito de fraudar o programa Farmácia Popular - FSP

 A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (13) em Goiás operação para desarticular grupo criminoso que atua no tráfico internacional de drogas e é apontado como o responsável por prejuízos milionários ao programa Farmácia Popular do governo federal.

De acordo com a apuração, por meio de empresas farmacêuticas, algumas delas de fachada, a quadrilha obtinha vantagens indevidas junto ao programa federal

O Farmácia Popular disponibiliza à população medicamentos utilizados na Atenção Primária à Saúde, por meio de parceria com estabelecimentos da rede privada.

A imagem mostra o interior de uma farmácia popular no Brasil. No balcão, uma mulher está conversando com duas funcionárias que usam uniformes verdes. Ao fundo, há prateleiras com caixas organizadas. Na parede, há um letreiro vermelho com o texto 'FARMÁCIA POPULAR DO BRASIL' e um símbolo da bandeira do Brasil.
Balcão de uma unidade do programa Farmácia Popular, do governo federal - Rodrigo Nunes/Ministério da Saúde

Foram cumpridas mais de cem ordens judiciais decretadas pela Justiça Federal em Goiás, incluindo mandados de prisão e de busca e apreensão, além do bloqueio de R$ 39 milhões e sequestro de bens móveis e imóveis. As ações ocorreram no Distrito Federal, na Paraíba, no Mato Grosso, no Acre e em Minas Gerais, além de Goiás.

A apuração teve início em 2022, após a prisão em flagrante de dois suspeitos que estavam transportando grande quantidade de cocaína no interior de Goiás.

A partir do rastreamento de suas movimentações financeiras, os investigadores chegaram a indícios de que o grupo agia também contra o Farmácia Popular.

Foram identificadas ao menos 28 pessoas jurídicas diretamente utilizadas pelos suspeitos para os atos de estelionato em desfavor da União.

De acordo com os autos, os investigados adquiriam empresas que estavam licitamente cadastradas no Farmácia Popular, mas que haviam encerrado suas atividades.

O grupo fazia as alterações societárias pertinentes e, na maioria dos casos, vinculava as empresas a laranjas. Feitas essas alterações, ocorria aumento do número de lançamentos de medicamentos comercializados por meio do programa, seja na modalidade gratuidade ou subsidiária.

"Para a operacionalização das fraudes, eram realizadas vendas simuladas de medicamentos que, na prática, nunca chegaram a ser fornecidos ao beneficiário declarado", afirmou a PF em nota.

"Os investigados lançaram dados de consumidores que, sequer, possuem conhecimento quanto a utilização indevida de suas informações de qualificação."

Ainda de acordo com a PF, os repasses mensais do Farmácia Popular não ultrapassavam R$ 5 mil e que, após o início das fraudes, cada farmácia passava a receber valores que giravam em torno de R$ 60 a R$ 90 mil por mês.

Comunidades religiosas vivem teste nos EUA, Lucia Guimarães - FSP

 A convulsão em curso nos Estados Unidos está exacerbando mais do que divisões políticas. Convicções religiosas de pelo menos um quarto da população estão sendo testadas.

Numa carta enérgica aos bispos, o papa Francisco exortou os 52 milhões de adultos católicos americanos a resistir à discriminação contra imigrantes e refugiados —uma clara crítica ao recém-convertido católico e ex-ateu vice-presidente J. D. Vance.

Manifestantes realizam ato em Nova York, nos EUA, para relembrar ataque de 7 de outubro; cartaz diz 'judeus a favor de justiça racial e econômica' - Michael M. Santiago - 7.out.24/AFP

Já na comunidade judaica americana, sinais de dissidência pelo apoio à matança de palestinos são mais abafados, além de ser enfrentados com penalidades como demissões e isolamento social em comunidades.

Um novo livro deve custar ainda mais ostracismo ao autor, um cientista político e membro de uma sinagoga ortodoxa de Nova York. É "Being Jewish After the Destruction of Gaza, a Reckoning" (ser judeu depois da destruição de Gaza, uma avaliação), escrito por Peter Beinart especialmente para os amigos que perdeu. "Este livro é sobre a história que contamos para nós mesmos como virtuosas vítimas permanentes, para bloquear o som dos gritos," ele escreve.

Beinart é descendente de sul-africanos e visitava Israel regularmente desde a infância, em viagens que ele recorda com enorme afeto. Só depois dos 30 anos se engajou em diálogos com palestinos. Ele se diz envergonhado pela demora em compreender que a história que ouviu e ia transmitir aos filhos é incompleta. "Hoje é mais perigoso questionar a legitimidade das ações de Israel do que desacatar a autoridade da Torá", diz Beinart. Ele acredita que a secularização do judaísmo levou a uma evasão moral, à negação dos textos sagrados.

A acusação mais comum desde o terror do 7 de Outubro é de "contextualizar violência." Beinart, que denuncia os antissemitas Hamas e Hezbollah como supremacistas islâmicos, não foge da discussão e deixa claro que ela nada tem a ver com justificação. Sem contextualização, argumenta, não se interrompe ciclos trágicos de violência, como os EUA descobriram ao não refletir melhor sobre o que levou ao terror do 11 de Setembro.

O autor destaca que um grande pecado na fé judaica é a idolatria —venerar criações humanas— e lembra que "um Estado, criado por seres humanos, é avaliado pela maneira como respeita a santidade do indivíduo. A vida das crianças de Gaza é santa."

A filósofa Hannah Arendt alertou logo cedo para o sionismo descolado da fé. Quando foi recebida em Israel para cobrir o histórico julgamento do nazista Adolf Eichman, uma investigação que resultaria no clássico "A Banalidade do Mal", Arendt saiu consternada de um encontro com a então chanceler Golda Meir que lhe disse não acreditar em Deus, mas no povo judaico.

Arendt comentou: "A grandeza deste povo brilhou num momento em que eles acreditavam em Deus e acreditavam nele de tal maneira que o seu amor e a confiança Nele eram maiores do que o seu medo. E agora esse povo só acredita em si mesmo? Que bem pode ser derivado disso?".

Peter Beinart, que é professor de jornalismo na City University de Nova York, dá de ombros para as represálias inevitáveis e confessa que sua angústia maior vem de conversas com jovens judeus praticantes. "Eles me procuram dizendo que estão se sentindo intimidados em sinagogas e não têm coragem de conversar francamente com rabinos."

"Onde estão nossos líderes religiosos para nos lembrar do que significa moralmente ser um judeu?", pergunta.