segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Antonio Prata - Contracultura, FSP

 Há mais de 20 anos, quando estava na faculdade de ciências sociais, tínhamos claro para nós que "o sistema" era de direita. As "big farma" eram de direita. A mídia era de direita e tratava de tapar os olhos da população para as injustiças do mundo, ajudando a perpetuar esta entidade amorfa, porém bem concreta, denominada "o sistema".

Vinte e tantos anos se passaram e a direita roubou da esquerda todo o seu discurso. Será que o Olavo de Carvalho, vindo com um papinho pra cima de um moço ou moça do centro acadêmico, "eu sou de peixes, você é de câncer, será que rola?", conseguiu se enturmar no CA para surrupiar nossas ideias? Faz sentido.

Deu no que deu. O Maga, nos EUA, e o bolsonarismo, no Brasil, acreditam na mesma coisa: "O sistema", para a direita, é de esquerda, controlando o mundo com "ideologia de gênero" e discursos "identitários". Na indústria farmacêutica, como se vê pelas campanhas contra vacinas (antes coisa de hippie), não se deve confiar. A Globo e os grandes jornais, como este aqui, são a ponta de lança para a implementação de um comunismo cujo objetivo é acabar com a "família tradicional", transformando todas as crianças em transexuais maconheiras que só largarão as "mamadeiras de piroca" para mamar nas tetas da Lei Rouanet.

A ilustração de Adams Carvalho, publicada na Folha de São Paulo no dia 01 de fevereiro de 2026, mostra o desenho de uma mulher usando uma camisa vermelha e lenço vermelho amarrado na cabeça. Ela está com o braço esticado para frente segurando uma mamadeira com o bico de borracha com formato de pênis. Ao fundo há a silhueta de uma fábrica e no céu um grafismo abstrato multicolorido.
Adams Carvalho

Quando se deu essa loucura e como tanta gente acredita nela? A ideia de uma hegemonia cultural da esquerda não se sustenta por qualquer métrica. A trilha sonora do Brasil não é Vinicius de MoraesCaetano Veloso e Chico Buarque, é Gusttavo Lima, Henrique & Juliano, Bruno & Marrone —todos esses que, desde sempre, declararam apoio ao Bolsonaro.

No cinema, os três filmes mais vistos da história do país são "Nada a Perder", biografia do Edir Macedo, "Os Dez Mandamentos – O Filme" e "Tropa de Elite 2". "Ainda Estou Aqui" só aparece em nono, atrás de "Nada a perder 2". Na literatura, os três livros mais vendidos ano passado foram "Café com Deus Pai", "A Psicologia Financeira" e "As 48 Leis do Poder". Meio "Handmaid’s Tale", né? Já "O livro Vermelho de Mao Tsé Tung", "O Capital", de Karl Marx e "Pedagogia do Oprimido", do Paulo Freire, não aparecem nem entre os lanterninhas. Não parece doutrinação comunista.

Nas últimas décadas vivemos, globalmente, o desmonte do Estado de bem-estar social. Os EUA nem sequer têm um sistema de saúde pública e estão fugindo de acordos internacionais como quem foge do grupo de zap do condomínio. (E se sair do grupo de zap do condomínio apenas me livra da briga do Ancelmo do 21 com a Dona Leila do 76 sobre estacionar em cima da faixa amarela da garagem, sair do Acordo de Paris pode fazer com que, num futuro próximo, não haja nem Ancelmo, nem Dona Leila, nem eu —só a garagem).

Os "movimentos identitários" (e bota aspa nisso) têm um monte de posições questionáveis, ok. Mas racismofeminicídiohomofobia são problemas inquestionáveis. Ano passado registramos o maior número de feminicídios da série histórica e os dados até agora indicam que 2026 será ainda pior. Sobre racismo: em 2025 a polícia matou mais de 4.000 pessoas. 86% delas eram negras. Como se não bastasse, matéria da CNN mostra que Brasil lidera, pelo 16º ano consecutivo, o primeiro lugar em assassinatos de transexuais.

Diante dessa tragédia humanitária, afirmar que o problema do Brasil é o monopólio da esquerda é uma doença. Doença de quem acredita que o Haddad, na prefeitura, distribuía mamadeiras com bicos imitando pintos pra "treinar" bebês a fazer boquetes, para quando crescessem "virarem" todos gays. Não sei muito bem como a homossexualidade e o sexo oral ajudam na implementação do comunismo, mas tenho certeza de que muita gente aí têm explicações bem feitinhas e redondas. Redondamente enganadas.


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