domingo, 1 de fevereiro de 2026

USP doa navio de pesquisa à Marinha e fica com outro que está parado à espera de manutenção, FSP

 

Bogotá (Colômbia)

USP (Universidade de São Paulo) doou o navio Alpha Delphini do IO (Instituto Oceanográfico) para a Marinha em agosto de 2025. Para suas atividades de ensino e pesquisa, o instituto permaneceu com outro barco, o Alpha Crucis. Este, porém, está parado à espera de manutenção desde 2024.

Na última terça-feira (27), o atual diretor do instituto, Eduardo Siegle, disse que a embarcação Crucis aguarda o processo de docagem —processo em que passa por inspeção e potenciais reparos. Após essa etapa, ela poderá retomar as atividades.

"A primeira licitação, na metade do ano passado, foi fracassada, sem propostas compatíveis com o edital. A segunda licitação aconteceu no final do ano passado. Houve uma empresa vencedora, e no momento o contrato esta sendo finalizado e o navio está sendo preparado para a docagem, que deve acontecer nas próximas semanas, em um estaleiro no Rio de Janeiro", afirmou ele.

Barco branco de patrulha identificado como H16 navega em águas calmas da Baía de Guanabara, com a cidade do Rio de Janeiro e montanhas ao fundo sob céu parcialmente nublado.
O antigo navio Alpha Delphini do IO (Instituto Oceanográfico), da USP, já modificado sob posse da Marinha; a embarcação agora se chama Aviso Hidroceanográfico Cananéia (H-16) - Divulgação/Marinha

O agora doado Delphini, inaugurado em 2013, é tido como o primeiro barco de pesquisa do tipo construído no Brasil —ele foi feito com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), no estaleiro da Inace (Indústria Naval do Ceará), em FortalezaCeará.

O Crucis, de 1973, chegou a Santos, no litoral paulista, para uso do instituto da USP em 2012. A embarcação antes se chamava Moana Wave, pertenceu à Universidade do Hawaí e esteve a serviço da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), a agência norte-americana para ciência climática e meteorologia.

A decisão oficial de doação do Delphini foi tomada durante reunião do Conselho Universitário no fim de agosto do ano passado. A justificativa dada pela USP para se desfazer da embarcação seria a sua subutilização.

No entanto, atas de reuniões de 2024 da Congregação do IO, órgão máximo do instituto, indicaram preocupação de pesquisadores com a paralisação do Crucis e a doação do Delphini.

Em reunião de abril de 2024, o então diretor do IO, Paulo Sumida, afirmou que um edital relacionado ao Crucis estava em andamento para a docagem quinquenal obrigatória.

Em agosto do mesmo ano, a ata mostrou um pedido à direção do instituto para que o Crucis estivesse apto para um cruzeiro científico agendado para o fim de setembro. O mesmo documento apontou que, naquele momento, a embarcação estava em estaleiro —onde barcos podem ser colocados, entre outras coisas para reparos— e havia urgência para que fosse tirado do local.

Em nova reunião em outubro, houve menção de que a direção do IO estava se esforçando para que o Crucis voltasse, "no prazo mais breve possível, à condição de plena operação".

Neste começo deste ano, a embarcação continua parada. Só no início de dezembro do ano passado, foi licitada a docagem da embarcação no valor de pouco mais de R$ 9 milhões.

Não é a primeira vez que o navio tem problemas. Pouco depois de ser adquirido, o Crucis ficou meses parado à espera de manutenção, como mostrou reportagem da Folha em 2014.

As atas de reuniões mostram que ao menos parte dos pesquisadores do instituto eram favoráveis à permanência do Delphini. Há registrada uma fala de que a reitoria da USP teria "se negado a 'assumir' as embarcações" e que havia a impressão de que a liderança da USP teria uma visão de "falta de competência do IOUSP para gerir suas embarcações".

A reportagem ouviu relatos sobre impactos da atual falta de navios nas atividades do instituto, com interrupção de projetos de pesquisa e teses, e a necessidade de alugar barcos da iniciativa privada.

A entidade estudantil do instituto fez críticas nessa mesma linha à doação. Durante reunião do conselho universitário da USP no qual houve a confirmação da doação, uma estudante leu uma carta do Centro Acadêmico Panthalassa, do IO. Na carta consta que "a doação do barco faz com que um dos maiores institutos de pesquisa oceanográfica do país fique dependente de barcos terceirizados e sem equipamento próprio, além de depender da própria Marinha do Brasil que já mantém, antes mesmo da doação oficial, o barco em um porto no Rio de Janeiro".

Ainda segundo a carta, houve a paralisação de pesquisas. Em 2025, houve duas licitações do Instituto Oceanográfico para aluguel de embarcações.

Problemas anteriores à doação

Havia problemas de acesso às embarcações já antes da doação do Delphini, havendo, segundo relatos de estudantes, até mesmo pessoas que passaram pela graduação sem embarcar nos navios.

Um dos problemas centrais seria a falta de tripulação. Em 2023, a USP demitiu pessoas que trabalhavam nas embarcações e passou a se apoiar em contratação terceirizada. Houve protestos e ocupação dos navios de pesquisa do Instituto Oceanográfico.

A reportagem tentou contato em outubro de 2025 com a reitoria da USP, que encaminhou as perguntas para o Instituto Oceanográfico. A direção da USP afirmou que o posicionamento do instituto poderia ser considerado como "manifestação tanto do IO quanto da reitoria".

Em setembro de 2025, Siegle, então vice-diretor em exercício do IO, afirmou que "a questão da subutilização aconteceu ao longo de um período maior, não depois que o navio ficou sem tripulação".

"É verdade que existem alunos ingressantes em 2020 que ainda não embarcaram. No entanto, esses alunos só entram na ordem de prioridade de embarque quando estão cursando o Trabalho de Graduação (TG), o que equivale ao último ano para a conclusão do curso", afirmou Siegle à época.

Ainda de acordo com ele, os estudantes estavam conseguindo as horas de embarque necessárias para a sua formação e que havia um esforço para busca de oportunidades de embarque de alunos, inclusive em navios da Marinha.

Segundo Siegle, com a terceirização da tripulação e com a adequação à legislação marítima, o IO precisou optar por um dos seus navios. "Portanto, importante destacar que nenhum aluno está atrasando sua formação ou deixando de se formar porque não cumpriu as horas de embarque."

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