terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Falta homem no mercado?, Mirian Goldenberg, FSP

 

Na semana passada encontrei a primeira edição do meu livro "A Outra: um Estudo Antropológico sobre a Identidade da Amante do Homem Casado", de 1990. Escrevi "A Outra" um mês após a morte da minha mãe. Ela acreditava que havia tido um câncer por ter descoberto que meu pai tinha uma amante há mais de 20 anos: sua secretária.

Um dos conceitos centrais da minha análise sobre as amantes de homens casados é o de "pirâmide da solidão", de Elza Berquó. Para a demógrafa, o aumento de separações legais, de uniões consensuais (sem legitimação), do número de mães solteiras e de celibatários, leva à constatação de que a família brasileira já não é mais a mesma. Quando analisou a população com mais de 65 anos no censo de 1980, Berquó descobriu que 76% dos homens estavam casados, enquanto 32% das mulheres estavam casadas, 55% viúvas, 9,5% solteiras e 3,5% separadas.

Berquó revelou que os homens teriam muito mais possibilidades de escolha no mercado de casamento, pois poderiam se casar com mulheres de sua idade ou mais jovens, enquanto as mulheres, à medida que envelheciam, tinham diminuídas suas chances de casamento.

Três rostos femininos estilizados em arte abstrata com cores sólidas. À esquerda, perfil marrom com olho verde e vermelho. No centro, rosto oval com cabelo ruivo, olho verde com sombra azul. À direita, rosto oval com cabelo azul, olho vermelho com sombra rosa e colar de contas vermelhas. Fundo roxo escuro.
Claudia Liz

De acordo com Berquó, apenas em 9% dos casos a mulher era mais velha do que o homem. Ela destacou que a regra seria de que o homem deveria ser mais velho do que a mulher, uma diferença de dois ou três anos no primeiro casamento. Mais ainda, a tendência do homem separado era a de recasar com uma mulher ainda mais jovem do que a ex-esposa. Com isso, as mulheres teriam até os 30 anos, no máximo, chances iguais às dos homens no mercado de casamento.

Berquó afirmou que o mercado matrimonial era muito desfavorável para as mulheres maduras: para cada homem solteiro ou divorciado de 50 anos, havia cerca de 50 mulheres disponíveis, já que ele poderia escolher mulheres mais jovens (e cada vez mais jovens em seus recasamentos), mulheres da sua idade e até mesmo mulheres mais velhas. No Brasil, o celibato feminino, definido por Berquó como a chegada da mulher aos 50 anos sem ter casado, era muito mais elevado do que o masculino.

Berquó ainda assinalou que a maior mortalidade dos homens estaria gerando um superávit de mulheres e levantou a hipótese de que, no Brasil, poderia estar havendo uma espécie de poliginia disfarçada. O grande contingente de mulheres sem possibilidades de casamento daria margem a que elas se unissem a homens casados com outras mulheres.

Na época, o que eu mais escutava das mulheres era: "falta homem no mercado!". No entanto, como escrevi em "A Outra", a lógica do mercado matrimonial —excessiva oferta de mulheres versus escassez de homens— não justificaria a infidelidade masculina. Na minha pesquisa sobre infidelidade, encontrei, por exemplo, homens que disseram ser "monogâmicos sucessivos" (casavam, separavam, recasavam...) e outros que afirmaram ser "monogâmicos por preguiça".

Os monogâmicos preguiçosos disseram que uma única mulher já dava muito trabalho, e que não conseguem administrar as excessivas demandas de duas mulheres. Para eles, tudo era mais fácil no passado, quando as mulheres "faziam vista grossa" e achavam natural que "todo homem fosse machista, galinha e infiel".

Seria interessante analisar o conceito de "pirâmide de solidão" à luz das profundas transformações das relações amorosas e sexuais nas últimas décadas. Será que, para as mulheres de 2026, ainda falta homem no mercado?

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