Há anos, contei aqui que, certa noite, tive de recorrer a meu dentista, dr. Americo, numa emergência. De repente, ouvi ruídos na sala ao lado. Eram sons de brocas, gargarejos, vozes abafadas e um ou outro gemido. Detalhe: estávamos sozinhos no consultório. Perguntei o que era e Americo não se abalou: "É um dentista que trabalhava aqui. Morreu faz tempo. Os clientes que ele atendia também já morreram, mas parece que alguns com o tratamento pelo meio. Devem ter vindo para terminar". Fiquei encantado com a naturalidade com que Americo se referia a um colega já defunto e sua clientela idem. "Não me incomoda", disse. "Ele só começa a trabalhar depois que vou embora."
Ao ler a coluna publicada, temi que ela prejudicasse Americo —quem vai querer frequentar um consultório assombrado? Mas, ao contrário, Americo se espantou com a quantidade de emergências noturnas que passou a atender. Só temia que seus clientes passassem a preferir o dentista fantasma.
Outro dia, fiquei sabendo que Leonardo, meu cabeleireiro, está passando pela mesma experiência em seu novo salão, numa casinha da velha Ipanema. Durante o dia, tudo corre sem novidades. Mas, nas noites de grandes acontecimentos sociais no Rio, em que as madames o solicitam poucas horas antes dos eventos, é possível escutar, vindo do segundo andar, a faina cortante das tesouras, a vibração dos secadores e o bzzz das maquininhas elétricas. Leonardo me explicou: é o seu falecido antecessor no salão, ainda sendo solicitado pelas clientes também já falecidas e cujo cabelo continua a crescer depois de elas terem feito a passagem.
É fácil entender por que as pessoas de quem se diz que foram desta para melhor insistam em se manter fieis aos profissionais que as atendiam em vida. Acham difícil desapegar de especialistas a quem se acostumaram. E, quando sabem que seu dentista ou cabeleireiro também morreu, retomam o contato. Com sorte, reencontram até a antiga secretária.
Talvez alguém faça brrr ao ler isto. Quem manda acreditar na vida eterna?

Nenhum comentário:
Postar um comentário