Investidores estão intrigados com um movimento coordenado que envolve uma empresa de Tercio Borlenghi Junior, dono da Ambipar; o Fidc (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) Fênix, ligado à companhia de gestão ambiental; e uma compra massiva de ações por Borlenghi, tudo a partir junho de 2024.
O período bate com uma investigação na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) sobre uma suposta manipulação do preço da ação da Ambipar. O órgão quer saber se fundos e operações ligados ao Banco Master, ao empresário Nelson Tanure e a Borlenghi contribuíram para uma alta irregular dos papéis da companhia.
De junho a agosto, as ações da Ambipar saltaram cerca de 780%. Segundo dados da empresa, nesse período, Borlenghi comprou sozinho R$ 334 milhões em ações da companhia. Nos meses anteriores, não há registro de compra de papéis da empresa pelo seu controlador.
Se considerar o período de junho de 2024 a janeiro de 2025, foram R$ 375 milhões em ações adquiridas por Borlenghi.
Também a partir de junho de 2024, o Fidc (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) Fênix teve o registro de funcionamento aberto na CVM. O fundo tinha nessa época como cedentes de crédito, além de subsidiárias do grupo Ambipar, uma empresa chamada Everest Participações e Empreendimentos, que, segundo dados da Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo), tem Tercio Borlenghi Junior como sócio.
Desde julho daquele mesmo ano, porém, a Everest passa a constar como a principal cedente de recebíveis do Fidc. Em junho, o fundo possuía R$ 199,8 milhões em ativos. Em julho, esse montante saltou para R$ 554,8 milhões, uma elevação de 177,6%. Nos meses seguintes, os aportes para o Fênix diminuíram consideravelmente.
Consultada, a Ambipar disse que não comentaria.
Acionistas e credores que conversaram com a coluna sob condição de anonimato disseram suspeitar de que o Fidc foi usado para direcionar recursos da própria Ambipar, por meio de cessões de recebíveis simuladas, para a Everest e, depois, para seu controlador. Este, por sua vez, teria utilizado esses recursos para financiar a aquisição das ações da companhia de gestão ambiental.
O sumiço de R$ 4,7 bilhões do caixa da companhia, que foram reportados no segundo trimestre do ano passado, pouco antes de a empresa pedir recuperação judicial, tem levantado suspeitas por parte de credores e acionistas sobre operações envolvendo a empresa e seu controlador.
O estopim para a crise da Ambipar foi uma cobrança de um valor bem inferior, de R$ 60 milhões, por parte do Deutsche Bank a título de "margem de garantia" de contratos de swap cambial, atrelados a dívidas da companhia no exterior.
Os investidores buscam entender, desde então, para onde foram esses R$ 4,7 bilhões reportados pela Ambipar. A companhia adiou por tempo indeterminado a divulgação de seu balanço do terceiro trimestre.
No site de relações com investidores da empresa de gestão ambiental não constam nem mais os resultados anteriores, que já haviam sido divulgados. O último balanço que aparece no portal é o do terceiro trimestre de 2024.

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