terça-feira, 17 de outubro de 2023

Tédio é incentivo para crianças viverem novos aprendizados e realizações, NYT FSP

 Catherine Pearson

THE NEW YORK TIMES

Tenho algumas lembranças especialmente vívidas das férias da minha infância: o cheiro da churrasqueira, o som das cigarras –e a sensação de estar entediada.

Eu tinha uma agenda relativamente cheia e passava longos períodos no acampamento, mas havia semanas em que meus pais, que trabalhavam, não preenchiam meu tempo com muita coisa e não davam a mínima se eu me sentia suficientemente envolvida ou entretida.

Tenho pensado nisso enquanto meus filhos passam as férias numa mistura incrivelmente cara de acampamentos, babás e tempo com os avós, e ainda parece insuficiente em termos reais de cuidado ou estimulação da criança.

Meninas, irmãs brincam de construtoras infantis, constroem ferrovia de brinquedo, ferrovia com tijolos de Lego
Tédio é saudável e pode trazer oportunidade de aprendizado para crianças - Irina Velichkina/Adobe Stock

Não sou a única que sente que é meu dever de mãe (ou pai) encher seus dias de atividades e oportunidades de aprendizado. Um estudo citado em um artigo de 2018 do New York Times que lamentava como a parentalidade moderna é implacável descobriu que, independentemente da educação, renda ou raça, os pais acreditavam que crianças entediadas deviam ser inscritas em atividades extracurriculares.

Como me explicou Erin Westgate, professora assistente de psicologia na Universidade da Flórida, existe uma espécie de estigma cultural associado ao tédio.

Só pessoas tediosas ficam entediadas, diz o ditado.

Mas a realidade é que o tédio é "normal, natural e saudável", segundo Westgate, cuja pesquisa se concentra no que é o tédio, por que as pessoas têm essa sensação e o que acontece quando isso ocorre. Embora tenha alertado que há pouca pesquisa empírica que examine o tédio em crianças, Westgate acredita que em doses moderadas o tédio pode oferecer uma valiosa oportunidade de aprendizado, estimulando a criatividade e a resolução de problemas, e motivando as crianças a buscar atividades que sejam significativas para elas.

"Proteger as crianças de se sentirem entediadas é equivocado, da mesma forma que evitar que as crianças se sintam tristes, frustradas ou com raiva", diz ela.

Aqui está o que você e seus filhos podem aprender com a sensação de tédio.

O TÉDIO É INFORMATIVO

O tédio é uma emoção, afirma Westgate, que o comparou a uma luz indicadora no painel de um carro: "O tédio está lhe dizendo que o que você está fazendo agora não está funcionando". Normalmente, isso significa que a tarefa que você está realizando é muito fácil ou muito difícil, indica, ou que não tem sentido.

Uma maneira como os pais podem ajudar os filhos, especialmente os mais novos, a aprender a lidar com o tédio é trabalhar com eles no desenvolvimento do que Westgate chamou de maior "granularidade emocional". Por exemplo, você pode ajudá-los a distinguir entre estar triste ou entediado. "Nomeie-o para domá-lo", frase cunhada pelo psiquiatra Dan Siegel, é uma técnica que muitos especialistas em desenvolvimento infantil usam para ajudar as crianças a identificar seus sentimentos.

As crianças costumam dizer "estou chateada" quando estão sozinhas ou querem atenção, afirma Katie Hurley, que tem doutorado em serviço social e é autora de "The Happy Kid Handbook" (Manual da criança feliz, em português). Portanto, pode ajudar perguntar se eles estão procurando conforto ou companhia, diz ela.

Além disso, faça o que puder para normalizar o sentimento. "Temos a tendência a tratar o tédio como um sinal de angústia ou uma espécie de pedido de ajuda", disse Hurley. "É desconfortável, mas não é necessariamente negativo."

O TÉDIO PODE LEVAR À REALIZAÇÃO

O tédio oferece às crianças a oportunidade de experimentar os tipos de atividades que parecem gratificantes e interessantes para elas, indica Westgate.

Por exemplo, se você deixar seus filhos soltos no quintal, eles podem se sentir entediados inicialmente, diz ela. Mas eles podem aprender a evitar esse sentimento, ou resolvê-lo, encontrando atividades que pareçam significativas, seja contar insetos, brincar com uma bola ou desenhar com giz na calçada.

Se os pais não permitirem brincadeiras livres e imaginativas, as crianças podem nunca descobrir seu amor inato pela natureza, por esportes ou arte, ou mesmo o prazer que podem encontrar simplesmente relaxando ou brincando.

"Ser capaz de identificar e desenvolver essas fontes de significado é uma habilidade realmente crítica para se ter ao longo da vida", pontua Westgate.

ATIVIDADES QUE ELIMINAM O SENTIMENTO PODEM QUEBRAR O FEITIÇO

Os pais às vezes temem o tédio e o caos que ele pode provocar na casa, afirma Hurley. Mas o tempo livre abre espaço para descobertas. Ela recomenda olhar a programação semanal de seu filho e perguntar: "Existe algo que podemos tirar e apenas chamar de 'tempo de inatividade tranquilo'?"

Mas os pais não devem esperar que os filhos saibam instintivamente o que pode ser importante para eles. Em vez disso, os responsáveis devem lembrar seus filhos das coisas pelas quais se interessam ou com as quais se preocupam, indica Westgate.

"É a diferença entre deixar a criança numa sala sem absolutamente nada para fazer", pontua, versus "trazê-la para uma sala que você sabe que tem livros e quebra-cabeças –coisas que seriam importantes para seu filho– e isso seria bom para ele." (Ela também notou que pesquisas mostraram que sem atividades positivas as pessoas podem ficar mais inclinadas a se envolver em comportamentos nocivos.)

Hurley diz que crianças de 5 anos ou menos precisam de um cardápio específico de "caça ao tédio", como algumas perguntas: "Você quer brincar com Legos? Com massinha? Quer ir lá fora?".

Os pais muitas vezes se sentem pressionados a se jogar no chão e brincar com as crianças pequenas toda vez que elas estão entediadas, indica ela, mas isso pode impedir que as os pequenos aprendam como são capazes de usar sua imaginação.

Com crianças um pouco mais velhas, Hurley sugere dizer algo como: "Dê uma volta pela casa, tenha três ideias e me diga". Assim as crianças passam de um estado de tédio para uma ação positiva, "isso abre a criatividade, a resolução de problemas e todos os tipos de habilidades de aprendizado acadêmico".

Telefones e dispositivos eletrônicos exigem pouco esforço, observa Westgate, então crianças e adultos costumam recorrer a eles como uma forma de aliviar a sensação de tédio.

"Para as crianças, faz todo sentido que peçam telas quando estão entediadas, mas isso não significa, obviamente, que seja o melhor para elas nessa situação", afirma ela.

Tradução por Luiz Roberto M. Gonçalves

Becky S. Korich Feliz Dia das Crianças?, FSP

 O Dia das Crianças fez lotar as lojas de brinquedos, fazendo a alegria das crianças —e dos donos dos estabelecimentos. Os pequenos saíram felizes das lojas carregando pacotes maiores do que elas. É uma cena emblemática que ilustra o que vem acontecendo com as crianças: elas carregam um fardo desproporcional, excessivo ao que conseguem suportar de maneira saudável.

A infância é a única chance de o humano estar em seu estado natural, é a última possibilidade para se descobrir o mundo com uma visão isenta de interferências. É o início do autoconhecimento, o momento mágico em que se inaugura a personalidade. É o lugar que será revisitado por toda a vida, porque todo homem guarda dentro de si a criança que foi.

Balanço vazio em playground
Playground vazio em Dortmund, na Alemanha - Ina Fassbender - 10.jul.2023/AFP

Crianças precisam crescer com calma, mas a infância parece estar com pressa. Sem paciência, a infância se encolheu e abreviou o tempo natural (e tão breve) que as crianças têm para usufruí-la. A linha divisória entre o universo infantil e o universo adulto está cada vez mais frágil. O resultado são crianças cada vez mais "adultizadas", se vestindo e se portando como adultos, que por sua vez se transformarão em adultos infantilizados, com capacidades emocionais incompletas.

Pressão, compromissos, deveres, futebol, natação, mandarim, dança, programação, pintura, Kumon, judô. Os miniexecutivos estão abarrotados de compromissos. Assim, pensam os pais, estarão instruídos e mais propensos ao sucesso. Contudo, a ideia de que quanto mais precocemente a criança se instrui com atividades direcionadas, mais ela terá êxito no futuro, é um contrassenso. Ensinar prematuramente algo que ela mesma poderia descobrir sozinha mina a curiosidade, ofusca a habilidade de ela compreender o objeto do ensinamento. Há uma diferença: as crianças precisam aprender a pensar, e não o que pensar.

Preencher a agenda dos pequenos é roubar o tempo para brincadeiras, que é o que eles mais precisam. O melhor que podemos fazer pelo seu sucesso é justamente o contrário: deixá-los viver o presente, viver o que "são", sem que sejam um "projeto" do adulto que serão. A infância termina no dia em que se começa a se preocupar com o futuro.

Neil Postman, crítico ferrenho à comunicação de massa com relação ao desenvolvimento da mente das crianças, escreveu em seu livro "O Desaparecimento da Infância" (1982) que a televisão rompe a barreira entre infância e fase adulta ao revelar às crianças o que elas não deveriam saber. "Assistir televisão é algo tão primitivo que, além de não requerer nenhuma habilidade, também não desenvolve nenhuma. Nenhuma criança ou adulto se torna melhor em assistir televisão através da prática, fazendo mais do mesmo. As habilidades requeridas são tão elementares que nunca ouvimos falar de um "déficit de capacidade de assistir televisão"." Postman era feliz e não sabia: quem dera que hoje essas interferências viessem apenas da televisão. Os desafios se multiplicaram.

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No documentário "A Invenção da Infância", dirigido por Liliana Sulzbach, é dito: "Não basta ser criança para ter infância". A infância não é automaticamente garantida pela idade, depende de fatores mais amplos que envolvem as oportunidades que são proporcionadas a elas.

Quando o brinquedo se torna mais importante do que a brincadeira, é sinal de que algo não anda bem. Mais do que um quarto lotado de brinquedos, as crianças precisam de um tempo ocioso, de um espaço para querer, para buscar, inventar brincadeiras ou simplesmente observar, para poder imaginar e fantasiar.

A infância é o melhor presente que podemos dar às crianças.

Reforma, trânsito e tombamento viram desafio para nova gestão de Congonhas, FSP

 Fábio Pescarini

SÃO PAULO

O grupo espanhol Aena assume nesta terça-feira (17) a concessão do aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo, com enormes desafios.

Por contrato e sob risco de multa, a concessionária terá até cinco anos para modernizar e ampliar o velho terminal aeroportuário —dono da segunda maior movimentação de passageiros no país—, sem paralisar as operações e sem deixar que os canteiros de grandes obras estruturais levem caos ao local e à malha aérea nacional.

Congonhas e outros dez aeroportos de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Pará fizeram parte da sétima rodada de concessões, vencida em agosto do ano passado pela Aena Brasil, com lance único de R$ 2,4 bilhões.

A nova gestão dos 11 aeroportos começou a ser feita a partir de Uberlândia (MG), na última terça-feira (10), e vai em sequência até 30 de novembro (Altamira-PA).

Pela complexidade, a posse de Congonhas levará mais tempo que as demais, e a concessionária reservará um espaço de 21 dias até começar a administração do aeroporto seguinte, o de Ponta Porã (MS), em 7 de novembro.

Entre as obrigações da empresa está a de construir um novo terminal e mudar de lugar as 12 pontes de embarque (além de ampliar o número atual para ao menos 20), em um obra que precisará ficar pronta até junho de 2028.

Escadaria de acesso ao mezanino do aeroporto de Congonhas; concessionária precisará melhorar serviços no terminal atual, mas sem mudar sua arquitetura e características - Bruno Santos/Folhapress

"É um belo esforço de gerenciamento para não transformar em caos", afirma David Goldberg, diretor da divisão de infraestrutura da empresa Alvarez & Marsal.

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Um dos coordenadores do estudo de viabilidade da licitação do bloco com os 11 aeroportos, ele afirma que fazer a revitalização sem parar o aeroporto é como trocar o pneu de um carro em movimento.

Ao ser questionado pela Folha, em entrevista coletiva, sobre como minimizar os problemas aos passageiros e aos vizinhos com as obras, o diretor-presidente da Aena no Brasil, Santiago Yus, foi direto: "Não tenho a resposta hoje".

Com 27 projetos em análise e consultorias internacionais de engenharia e arquiteturas contratadas, Yus afirma que será preciso conviver com a estrutura atual até a entrega total da nova, mantendo ao máximo a operação do aeroporto, que neste ano, até agosto, recebeu 14,3 milhões de usuários.

O número, aponta a Infraero, estatal responsável por Congonhas até segunda-feira (16), ainda é inferior aos 14,9 milhões de passageiros em 2019, antes da pandemia de Covid-19.

Goldberg destaca uma janela diária, entre 23h e 6h, quando o aeroporto fecha ao público, para a realização de obras.

O anteprojeto operacional e arquitetônico da ampliação de Congonhas precisa ser entregue à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) até dezembro e as obras devem começar em 2024.

A construção do novo terminal é necessária para aumentar a distância entre a pista principal e a de taxiamento, atualmente menor do que determinam as normas internacionais.

Segundo a Anac, Congonhas opera hoje graças a procedimentos e medidas mitigatórias, aprovados em processo de certificação, renovado em maio passado. Mas a concessionária terá de adequar o aeroporto.

Estão nos planos e promessas de curto prazo, até 2026, ampliação da saturada sala de embarque atual, readequação das vias de acesso e revitalização da fachada que, segundo a concessionária, "está envelhecida e maltratada".

A fachada de Congonhas, assim como partes do atual terminal de embarque, o pavilhão das autoridades e um hangar de madeira, são tombados desde 2011 pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural) e isso pode ser uma dificuldade a mais nos planos de revitalização do aeroporto de quase 90 anos.

De acordo com a Secretaria Municipal de Cultura, a construção de um novo terminal não deve provocar qualquer interferência nas edificações protegidas, tampouco prejudicar a sua visibilidade.

O DPH (Departamento de Patrimônio Histórico) afirma ter orientado a concessionária para se guiar nas determinações especificadas da resolução de tombamento.

Valter Caldana, professor da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da Universidade Presbiteriana Mackenzie, afirma que, pela importância do aeroporto aos paulistas, a concessionária terá de tornar públicos seus projetos, sobretudo os que envolvem bens tombados.

"É um belíssimo exemplo de arquitetura de qualidade internacional aeroportuária, com parte tombada que, além de ela estar desfigurada em vários pontos, precisaria e merece ser restaurada", afirma.

Entre os estudos, estão o de transformar o terminal atual em local de desembarque, área comercial ou de escritórios.

"Não quero antecipar, pois temos de falar com patrimônio histórico e artístico da cidade de São Paulo para ver quais são os usos dentro desse terminal", diz Yus.

A nova área de terminal deverá ter 80 mil m², praticamente o dobro de hoje.

Marcus Quintella, diretor da FGV Transporte, da Fundação Getúlio Vargas, diz que Congonhas pode ser transformado em um aeroporto comercial, inclusive com salas de cinema, principalmente por estar em uma região densamente povoada. "Tem uma atratividade interessante", diz.

NOVO PROJETO TERÁ DE CONCILIAR O PASSADO E O FUTURO

O aeroporto foi construído com arquitetura inspirada no estilo art déco, assinada por Ernani do Val Penteado e Raymond A. Jehlen. O primeiro voo para o Rio de Janeiro decolou em 1936.

Por ter valor histórico, a reformulação deve se preocupar com a paisagem do local, que remete ao imaginário, diz Hugo Segawa, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Conforme a Aena, o terminal atual terá de fazer a conexão com a futura linha 17-ouro do Metrô, que deveria ter sido entregue para a Copa do Mundo de 2014 e teve obras retomadas no últimos mês —a mais nova promessa é inauguração em 2026—, além de ter ligação com o estacionamento.

Melhorar o acesso, principalmente para quem chega de carro, está entre as ações de curto prazo, mas ainda não há projeto definido.

Segundo a Aena, o trânsito no acesso ao aeroporto é pesado e confuso. Algumas alterações, diz, podem torná-lo mais fluido e menos congestionado. A CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) já iniciou conversas com a concessionária.

O aumento no fluxo de passageiros —pode chegar a 35 milhões de pessoas no fim do contrato de 30 anos e há planos para voos internacionais— tende a refletir diretamente no entorno do aeroporto.

No ano passado, associações de bairros vizinhos a Congonhas entraram na Justiça para tentar barrar a concessão. Não tiveram sucesso, mas alertaram para o temor do aumento de trânsito e poluição, inclusive sonora.

Por isso, explica o urbanista Segawa, serão necessárias mudanças inteligentes nos sistemas viário e de acesso ao transporte público.

"Existem soluções e boas, estudadas há décadas, mas que são complexas e caras", diz o também arquiteto Caldana.

Um concorrente ouvido pela reportagem afirmou que seu grupo não entrou na disputa do leilão por considerar que na modelagem do projeto, Congonhas era um risco muito grande.

Para Yus, porém, nos próximos cinco anos a Aena não deverá ter um projeto de infraestrutura tão relevante quanto o do aeroporto da cidade de São Paulo.