sábado, 18 de abril de 2020

Luís Francisco Carvalho Filho Algoritmo, urubu e água tônica, FSP

Estado brasileiro cria nova modalidade de desaparecimento de pessoa

  • 13
Até prova em contrário, ser ministro de Jair Bolsonaro é uma ambição de insanos. O pior líder do planeta é perigosamente errático. Ora surge como boneco de borracharia, acenando para legiões de gente estúpida, ora como “comensal da morte”, predestinado ao malefício.
Luiz Henrique Mandetta sai com a imagem reconstruída. Deixa, sobretudo, mensagem de fortalecimento do SUS —sistema de saúde pública e universal— que esta administração, supostamente liberal, adoraria destruir.
É cedo para avaliações, mas o discurso de entrada de Nelson Teich é vazio. Oportunismo, medo de fazer barulho e criar encrenca com presidente tão esquisito.
Todos os países se preocupam com a economia e trabalham para a retomada das atividades. Não é sensibilidade especial do sábio Jair Bolsonaro.
As redes hospitalares não estão preparadas para a pandemia. O isolamento é estratégia econômica, quase consensual, para espaçar no tempo e no território o contágio e obter mais eficiência orçamentária e médica.
A Suécia não aderiu ao isolamento horizontal e tem mais mortos que a Dinamarca, que, por ter feito esta lição de casa, já planeja o reaquecimento.
A cerimoniosa, porém fria, fala do novo ministro da Saúde sobre a escolha entre o idoso e o adolescente, quando os recursos são limitados (como agora), é de um ano atrás.
Não tem a ver com a crise de hoje. Mas o vídeo circula como vírus e é tempo de apresentação de credenciais. Fortaleza esgotou o sistema de atendimento. Tem fila para UTI.
Reportagem da Folha sobre a lotação do Hospital Emilio Ribas assinala que “médicos correm para não
escolher quem morre”.
A decisão de optar entre vidas reais, palpáveis, é dramática. Não costuma ser programática. É compreensível no calor hospitalar, como revelam desabafos de médicos italianos, mas a escolha arbitrária não pode ser política pública.
Se a escolha é inevitável, é melhor desfavorecer o idoso (60 anos) ou definir critérios para algoritmo que, além de prometer justiça em matéria de igualdade social, seja capaz de detectar as melhores perspectivas de cura?
O jornalismo, heroico durante o isolamento, mostra que a Covid-19 deixa o planeta de ponta-cabeça.
Aviões desaparecem dos céus brasileiros. Nos céus de Guayaquil, no Equador, os corpos nas ruas, aparecem os urubus.
Portaria conjunta do Conselho Nacional de Justiça e do Ministério da Saúde autoriza sepultamento e cremação sem lavratura do registro civil de óbito, “na hipótese de ausência de familiares ou pessoas conhecidas” ou por “exigência de saúde pública”. O Estado brasileiro cria novo roteiro para o desaparecimento de pessoas.
A cidade de Nova York abre valas comuns. A cidade de São Paulo cria comitê de contingência funerária.
Diminuem os acidentes de trânsito. Cresce o assassinato de mulheres.
O Metrô faz campanha para que profissionais da saúde não sejam agredidos.
Ao deixar o hospital, o premiê Boris Johnson, do Reino Unido, gestor da saída da Europa, agradece a dedicação do enfermeiro português.
Na Índia, líder religioso muçulmano é acusado de homicídio culposo por provocar aglomeração de fiéis e transmissão do vírus.
No Brasil, Bolsonaro atrapalha criminosamente o isolamento. Contraria a realidade e a ciência. Agora, tenta interferir no segundo escalão do Ministério da Saúde, lugar de técnicos. Seguidores do presidente acreditam em curas milagrosas, oração, remédio mágico e água tônica.
Luís Francisco Carvalho Filho
Advogado criminal, presidiu a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (2001-2004).
  • 13

Rodrigo Zeidan Falsa dicotomia, FSP


Não existe a escolha entre economia e saúde. Essa é uma falsa dicotomia.
No começo da pandemia, até fazia sentido tentar adiar uma quarentena. Mas desde o início de março já temos informações concretas sobre a progressão da Covid-19 no mundo, e não há sombra de dúvidas: para discutir a retomada da atividade econômica, primeiro devemos fazer uma quarentena de verdade, diminuindo a rapidez da disseminação de infecções para não sobrecarregar o sistema.
Presidente Jair Bolsonaro em momento descontraído com o ex-ministro da Saúde Luiz Mandetta, demitido na quinta-feira (16)
Presidente Jair Bolsonaro em momento descontraído com o ex-ministro da Saúde Luiz Mandetta, demitido na quinta-feira (16) - Lucio Tavora/Xinhua
Essa não é uma crise como outra qualquer. Em crises passadas, o que importava era o tamanho da resposta, mais do que o timing da decisão das autoridades de saúde e de economia. Agora não. Na atual crise, todo dia importa, seja para a saúde das pessoas ou para aumentar a probabilidade de solvência das famílias e empresas.
Quanto antes um país entra numa quarentena séria, antes pode sair. Na Dinamarca, as aulas já estão voltando: o sistema educacional está fazendo testes para ver se comporta uma retomada de todas as aulas.
Mas no Brasil temos o pior dos mundos: uma quarentena parcial que mata o fluxo de caixa de várias empresas sem gerar o benefício para o sistema de saúde. E uma falta de liderança na área econômica estarrecedora: a equipe econômica que ainda está presa na ideia de que o déficit público deve ser o menor possível.
No momento, desperdício não é nosso principal problema. A destruição da estrutura produtiva e a morte de milhares de pessoas são os maiores riscos.
O Ministério da Economia ficou soltando medidas parciais quase diariamente, sem, em nenhum momento, enfrentar o problema de frente. Assim, o fluxo de caixa das empresas e dos estados foi minguando.
O resultado? O Congresso Nacional tomou a diantei- ra, criou (em cima de um projeto inicial sofrível que veio do governo) uma renda bá- sica emergencial e agora vai socorrer os estados com um pacote multibilionário.
Esse pacote pode realmente criar um problema nas contas públicas. Mas a culpa é do ministério. Como não fez o seu trabalho, vai ver a Câmara e o Senado darem um cheque quase em branco para os governos estaduais.
Em tese, ainda poderíamos evitar a catástrofe. O governo deveria criar um plano coordenado de operacionalização do resgate para empresas e famílias. As filas para o saque da renda emergencial vão acabar aumentando a transmissão do vírus.
O pacote de ajuda financeira para manutenção de empregos ainda está parado nos bancos. A resposta que um médio empresário obteve quando perguntou para seu gerente quando ele ia poder sacar o dinheiro para não demitir seus funcionários foi: "A fila é grande".
Hoje, apesar do governo federal, não faltam recursos para a crise. Mas falta operacionalização. O crédito continua empoçado nos bancos, e falta clareza sobre quem pode receber a renda básica emergencial.
Estudo do governo do Rio Grande do Sul mostrou que são 2,6 milhões os empregados vulneráveis no estado que deveriam ser cobertos pela renda básica emergencial, mas, com as regras e operação atual, somente 600 mil devem conseguir sacar o benefício. Precisamos de liderança não só para desenhar os pacotes de auxílio mas para implementá-los.
Era para termos parado o país há mais de um mês. Se tivéssemos feito isso, poderíamos, agora, fazer como a Dinamarca e pensar em retomar atividades. Com liderança coordenada, poderíamos estar dando sinais claros para a sociedade. Será que veremos isso, antes tarde do que nunca?
Rodrigo Zeidan
Professor da New York University Shanghai (China) e da Fundação Dom Cabral. É doutor em