quinta-feira, 12 de junho de 2014

Empresário faz sua 'Rede' sair do papel


Aliados incondicionais e parceiros de chapa na eleição presidencial de 2010, o empresário Guilherme Leal, dono da fabricante de cosméticos Natura, e a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, pré-candidata do PSB a vice-presidente de Eduardo Campos, separaram seus projetos políticos.
Em vez de abraçar a causa da Rede Sustentabilidade, grupo idealizado por Marina que não obteve assinaturas necessárias para registro na Justiça Eleitoral e opera hoje dentro do PSB, Leal criou sua própria organização: a Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps).
Apesar dos nomes parecidos, as propostas das duas "Redes" são bem diferentes. E elas não caminharão juntas na campanha. "Continuo respeitando muito a Marina Silva. Entendo que a alternância de poder será positiva, mas não estarei na linha de frente desta vez", afirmou Leal ao Estado no intervalo de um dos encontros da Raps na semana passada, em Indaiatuba, interior paulista.
A ajuda financeira de R$ 25 milhões, que há quatro anos elevou Leal à condição de principal financiador do projeto presidencial do PV, partido ao qual a ex-ministra estava filiada na época, também não está garantida nesta sucessão. "O tempo dirá", afirmou, sobre possíveis aportes de recursos no projeto Campos-Marina.
Inspirado em uma organização argentina, a RAP (Rede de Ação Política), o projeto da Raps começou a ser gestado pelo empresário logo após o término da eleição de 2010. A ideia era montar uma estrutura "transversal" aos partidos políticos para garimpar lideranças e formar quadros.
Para os "marineiros" mais engajados, essa parecia seria a oportunidade perfeita para lançar o embrião de um partido político e começar a desenhar a estratégia da campanha de Marina em 2014. A ideia, porém, foi rechaçada por Leal. "Marina buscou formar um partido. Partido é parte. Nossa abordagem é diferente", explica. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Agência Estado

Fornecimento de água na Grande SP já era 'crítico' antes de crise

Antes mesmo da crise de abastecimento no Estado, a escassez de água era uma realidade para pelo menos 1,6 milhão de pessoas. Ou seja, 9,5% dos consumidores atendidos pela Sabesp na região metropolitana de São Paulo.
Os números referentes ao ano de 2012, obtidos pela Folha, são da própria companhia de saneamento.
Várias áreas da Grande São Paulo, inclusive na capital, estão listadas como críticas nos mapas da empresa.
"Há anos temos o problema de abastecimento de água, apesar de a situação ter piorado muito nos últimos seis meses. Ficamos pelo menos dez vezes sem água nas torneiras neste período", afirma o advogado Ronaldo Joaquim Patah Batista, síndico do condomínio Tamboré 4.
Para a Sabesp, o loteamento é abastecido pela rede da cidade de Barueri.
A situação ficou tão grave, conta Batista, que ele entrou com uma ação na Justiça contra a companhia estadual.
"Temos todos os registros, os funcionários da Sabesp vêm aqui todos os dias [do lado de fora, onde está a entrada da rede] e fecham o registro, sem aviso", afirma.
O condomínio de 320 casas na zona oeste da Grande São Paulo não é o único a ter problemas antigos de fornecimento de água.
Mesmo antes da grave crise hídrica, não é raro faltar água em ruas e bairros de Cotia, Santana de Parnaíba, Itapecerica da Serra e Embu-Guaçu, por exemplo.
Muitos moradores dizem conviver, há anos, com um rodízio informal, sem avisos.
"É por isso que entramos com a ação. Queremos que a Sabesp, pelo menos, seja obrigada a nos avisar que vai cortar a nossa água", diz Batista, morador do Tamboré.
De acordo com a Sabesp, a maior parte da população afetada está em áreas periféricas da região metropolitana, no que a empresa chama de "cidade informal".
Por meio de nota, a empresa informa "que não tem competência legal para regularização de ocupações [...] e áreas informais".
ESCALA
Para definir as regiões críticas de abastecimento, a Sabesp monitora três tipos de indicadores, que são medidos durante todo o ano.
Um deles é a quantidade de água que chega ao local -a empresa tem uma divisão própria das regiões, chamadas de setores.
O segundo é o índice de distribuição, que mostra quantos dias do ano a área ficou sem água.
O terceiro mapeia o número de contatos que a empresa recebeu, de uma determina região, sobre falhas.
Segundo o Plano Metropolitano de Água III, para melhorar a situação das áreas críticas, serão necessários, pelo menos, R$ 5,1 bilhões -contando o novo sistema São Lourenço, até 2018.
Segundo pesquisa Datafolha divulgada ontem (31/5), 35% dos paulistanos dizem ter enfrentado problemas no fornecimento de água no último mês. 

Por que Piketty incomoda?




Nos bastidores, movem-se as forças que levaram a humanidade ao moinho satânico
por Luiz Gonzaga Belluzzo — publicado 11/06/2014 03:58, última modificação 11/06/2014 03:59
A crise, em vez de unir os que foram prejudicados por ela, está a aumentar a força ideológica e o poder político daqueles que a causaram. Falo isso sob o impacto da leitura do livro de Thomas Piketty, uma incursão corajosa nas casamatas da Economia Política, sempre sitiadas pelos esbirros que simulam defender os espaços da “economia científica” com os argumentos da superstição.
O estado atual do mundo das coisas e das pessoas resulta da desestruturação que as sociedades criadas no Pós-Guerra sofreram nas últimas quatro décadas. Nos bastidores do livro de Piketty, entre linhas, entrelinhas, gráficos e equações movem-se as mesmas forças impessoais da riqueza socializada que em seus desatinos e inconsciências da ganância privada levaram a humanidade aos tormentos do moinho satânico que desatou duas guerras mundiais e deflagrou a Grande Depressão dos anos 30.
Nos anos 1980, a eleição de Reagan na esteira de Thatcher deu início à derrota do arranjo político e social que, nas ruínas do capitalismo dos anos 20 e 30 do século passado, abriu um espaço de convivência e de solidariedade ao erigir as instituições do Estado de Bem-Estar.
Dados minuciosos sobre a evolução do emprego, dos salários e da distribuição da riqueza e da renda não deixam nenhuma dúvida sobre a natureza das agruras vividas pelos assalariados e dependentes nas últimas três décadas. A eclosão da crise de 2008 tornou ainda mais grave e ainda mais confrangedora a sensação de que a situação vai ficar pior, porque o debate entre políticos, economistas e os arautos da mídia está circunscrito a uma agenda mesquinha: keynesianos e ortodoxos estão discutindo bagatelas.
Ao comentar o livro de Piketty, o colunista do Guardian/Observer Will Hutton chama atenção para a concentração da riqueza nos Estados Unidos e na Europa. Os 10% mais ricos detêm 60% a 70% da riqueza, representada por imóveis, ações de empresas, títulos públicos e outros ativos financeiros. A interação entre essa concentração de riqueza sob a forma financeira, ou seja, a predominância crescente da acumulação de direitos de propriedade que reivindicam uma fração maior do valor criado pelo esforço coletivo favorece os ganhos rentistas e enfraquece o espírito empreendedor.
A “natureza” intrinsecamente rentista do capital financeiro e de sua valorização fictícia se apoderou da gestão empresarial, impondo práticas destinadas a aumentar a participação dos ativos financeiros na composição do patrimônio, inflar o valor desses ativos e conferir maior poder aos acionistas. Particularmente significativas são as implicações da “nova finança” sobre a governança corporativa. A dominância da “criação de valor” na esfera financeira expressa o poder do acionista, reforçado pela nova modalidade de remuneração dos administradores, mediante o exercício de opções de compra das ações da empresa.
A crise não deve ser relegada às querelas dos economistas. Suas consequências já afetam profundamente as formas de convivência criadas no Pós-Guerra e que sustentaram as democracias. O que se observa é que as democracias, massacradas pelo poder da finança, parecem impotentes para formular soluções que preservem os direitos sociais e retomem o caminho da prosperidade compartilhada. Vimos recentemente a manifestação dos espanhóis cercando o Parlamento. Qual foi a palavra de ordem? “Que se vayan todos”. Muito bem. Que se vayan todos. E o que deriva dessa consigna? Qual é a proposta? Qual é o projeto? Estamos muito além de uma crise cíclica do capitalismo.
Estamos em uma crise estrutural da vida civilizada. É isso que está em questão, na Europa, nos Estados Unidos. Apontarei uma manifestação que sustenta esta minha opinião. O candidato à Presidência dos Estados Unidos, Mitt Romney, disse, em uma reunião de coleta de fundos, que os 47% que declaram seu voto no presidente Barak Obama não pagam impostos, não querem trabalhar, não querem ganhar de acordo com seu mérito, como se esses cidadãos tivessem espontaneamente corrido para o colo do Estado em busca de proteção, quando na verdade eles foram compelidos a isso. Curiosamente, a maioria desses cidadãos sobrevive nos estados em que os republicanos costumam ganhar eleições. Há duas questões aí. A primeira delas é a completa incapacidade de perceber – e isso é impressionante – qual é a natureza da situação em que se encontram. Por quê? Porque os Estados Unidos têm o mito da utopia realizada. Se já estamos no paraíso, é impossível sofrer desse jeito. O mundo assiste ao espetáculo que Max Weber chamaria de reencantamento do mundo.