Ao longo dos anos, comparei Donald Trump com Calígula, com vantagem para o último. Dizer que Trump ("uma versão pós-moderna de um imperador julio-cláudio tardio") enlouqueceu é hoje uma banalidade. Lembro-me de ter escrito que, com Trump, vivíamos no "esplendor grotesco da ideologia do egoísmo e da ignorância". Se for perguntar a alguma IA e ela devolver essa, saiba que fui eu que escrevi primeiro.
Toda a gente sabe que Trump é uma pessoa horrível. Ainda assim, ele faz questão de nos lembrar regularmente do que isso quer dizer, sobretudo quando morre alguém de quem não gosta e ele celebra. Quando o casal de atores Rob Reiner e Michele Singer foram assassinados pelo filho, Trump preferiu ironizar as vítimas.
Toda a gente sabe que Trump mente. Sobre tudo e sobre nada. "Mente sobre coisas importantes, sobre coisas banais, sobre coisas facilmente verificáveis, mente por necessidade e mente desnecessariamente", escrevi em 2020, para terminar desejando que "as nossas melhores esperanças sobre ele possam ser apenas que ele seja muito venal, muito corrupto, muito incompetente, muitíssimo vaidoso —e não mais do que isso".
Pois bem, Trump é hoje mais do que alguém muito venal, muito corrupto, muito incompetente e muitíssimo vaidoso. Ele é sobretudo muitíssimo perigoso. Perguntem às meninas da escola de Minab, no Irã. Perguntem aos milhares de iranianos a quem ele traiu. E, de caminho, perguntem à economia mundial. Já passou o tempo em que Trump era insólito, mas pelo menos não tinha invadido nenhum país. Só desde o início do ano, já lá vão dois. Com promessas e ameaças sobre Cuba e até, pasme-se, parte da Dinamarca.
Trump é por si mesmo uma refutação das teorias deterministas, ou "necessitárias" da história. Aquelas que dizem que as guerras acontecem porque "tem mesmo de ser assim", porque as grandes tendências ou as contradições históricas o determinam. O atual presidente dos Estados Unidos está aí para provar que um único indivíduo pode provocar grandes estragos. Podemos até argumentar que o declínio dos EUA era previsível. Mas até agora não vi ninguém dizer que tinha adivinhado este declínio. Nenhum romancista se aproximou disto.
E parte do grande perigo de Trump está em que ele agora já disparou para um território pós-metafórico, para lá da barreira da comparação. Já chamei Trump de autocrata. Já chamei de oligarca. Já decidi inventar palavras e chamar de "autoligarca". Não creio que tenha exagerado de vez nenhuma. Mas Trump desafia o cronista a declarar a falência das palavras; um dia desses vai ser preciso fazer caretas ao espelho e mandar para publicar na coluna.
Porque hoje é Dia das Mentiras: quem não acredita que vá ver as ameaças aos aliados europeus, os insultos ao aliado saudita, as danças ridículas nas cerimônias militares —e parem para ver os planos da nova biblioteca presidencial, completa com uma estátua dourada colossal de Trump com o punho no ar, uma coisa para fazer a Coreia do Norte corar de modéstia.
O mais incrível é ver sempre Trump acompanhado de uma multidão de sicofantas proclamando a sua genialidade. Ele passará e um dia a gente não acreditará que foi assim. Mas haverá escárnio que chegue para os que bajularam e apoiaram?

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