terça-feira, 7 de abril de 2026

O populismo é o dr. Jekyll e o mr. Hyde da política, João Pereira Coutinho -FSP

 O populismo é o quinto cavaleiro do Apocalipse. Não deveria ser.

Recentemente, numa discussão acadêmica sobre o assunto, defendi e ataquei o conceito com unhas e dentes.

Defendi o populismo como uma febre necessária das democracias liberais. É um sintoma. Como a febre. Se o organismo não sinalizasse suas disfunções com a elevação da temperatura, nossa vida seria bem mais penosa. Em muitos casos, mais curta.

Com o populismo acontece o mesmo: a divisão entre povo e elite pode ser simplista e, no limite, inútil. Mas é preciso ler nas entrelinhas. Se o povo está descontente com a forma como é governado, é preciso saber o que alimenta esse descontentamento.

Laboratório de química com várias pipetas com líquidos e gases, sendo que uma delas, em ebulição
Angelo Abu/Folhapress

Há falhas de representação?

Há indiferença por parte de quem governa em relação aos problemas concretos das pessoas comuns?

A função de um bom político é medir esses sinais e ajustar a terapia. Se os sintomas são reais, é preciso atacar as causas da inflamação, tratando a doença (insegurança, serviços públicos precários, perda de renda etc.).

Se são imaginários, vale a mesma lógica de um hipocondríaco: ele pode não ter a doença que imagina, mas tem uma doença.

Também não embarco nas caricaturas habituais sobre o fenômeno. Um populista é necessariamente antidemocrático? Em geral não. Em geral, é o mais democrático dos seres: quer tudo decidido por plebiscito, dando voz direta à vontade popular.

O populista gosta de eleições. Só não gosta de perdê-las, razão pela qual quase nunca reconhece derrotas: se ele é o representante autêntico do povo, não pode ao mesmo tempo ser rejeitado por ele. Questão de lógica.

Além disso, como explica Benjamin Moffitt em "Populism" (o melhor ensaio que conheço sobre o tema), não há nada de intrinsecamente iliberal no populismo. Há inclusive casos de populismo de direita que defenderam liberdades civis (como a liberdade de expressão) e direitos individuais (como os direitos LGBT) contra religiões ou comunidades imigrantes intolerantes.

Pim Fortuyn, líder populista holandês assassinado em 2002, ficou célebre ao dizer: "Não tenho nada contra marroquinos. Já dormi com vários deles".

Pim Fortuyn, líder direitista holandês assassinado em 2002 - Juan Vrijdag - 19.fev.02/AFP

Por fim, como lembra o próprio Benjamin Moffitt: em contextos autoritários ou oligárquicos, o populismo pode até ser uma bênção. Foi assim na Polônia, com o movimento anticomunista Solidariedade, e até no México, com o Partido da Revolução Democrática.

Antes de condenar a divisão entre povo e elites, cabe perguntar: quem é o povo? E quem são as elites?

Infelizmente, as virtudes do populismo tendem a desaparecer quando o líder populista chega ao poder.

Diversos estudos –do projeto "The New Populism", do Guardian, ao relatório "Populists in Power around the World", do Tony Blair Institute– apontam a mesma dinâmica: no curto prazo, o populismo aumenta a participação eleitoral e pode até reduzir desigualdades por meio de políticas redistributivas. Aqui não há grandes diferenças entre os populismos de esquerda e de direita.

O problema vem depois: perseguição de opositores; captura das instituições (especialmente tribunais); clientelismo; pressão sobre a imprensa. Sem falar em fraude eleitoral e concentração de poder. Também aqui, esquerda e direita se equivalem em sua capacidade destrutiva.

Em muitos casos, a democracia não volta. Segundo o mais recente relatório da V-Dem, o número de autocracias no mundo (92) já supera o de democracias (87). É a primeira vez em décadas. O populismo teve sua parcela de responsabilidade.

E se alguém ainda acredita que o populismo pode funcionar como vacina, impedindo que o povo caia novamente no canto da sereia, os mesmos estudos não sustentam essa esperança: o mais comum é substituir um populista por outro, não retornar à normalidade democrática.

O escritor escocês Robert Louis Stevenson (1850 - 1894), autor de 'O Médico e o Monstro' - Reprodução

Moral da história?

O populismo é o dr. Jekyll e o mr. Hyde da política: a mesma coisa que o torna eficaz na oposição o torna destrutivo no poder.

Na oposição, a divisão entre povo e elite mobiliza, dá voz a quem não a tem, força o sistema a ouvir. É o dr. Jekyll –carismático, enérgico, aparentemente do lado certo.

Quando chega ao poder, essa mesma lógica binária vira um veneno. É mr. Hyde quem aparece: colérico e paranoico com quem pensa de forma diferente. E com poder real para causar estragos.

O ideal seria termos populismo antes do voto, nunca depois.

Quem encontrar essa fórmula, favor avisar.

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