O populismo é o quinto cavaleiro do Apocalipse. Não deveria ser.
Recentemente, numa discussão acadêmica sobre o assunto, defendi e ataquei o conceito com unhas e dentes.
Defendi o populismo como uma febre necessária das democracias liberais. É um sintoma. Como a febre. Se o organismo não sinalizasse suas disfunções com a elevação da temperatura, nossa vida seria bem mais penosa. Em muitos casos, mais curta.
Com o populismo acontece o mesmo: a divisão entre povo e elite pode ser simplista e, no limite, inútil. Mas é preciso ler nas entrelinhas. Se o povo está descontente com a forma como é governado, é preciso saber o que alimenta esse descontentamento.
Há falhas de representação?
Há indiferença por parte de quem governa em relação aos problemas concretos das pessoas comuns?
A função de um bom político é medir esses sinais e ajustar a terapia. Se os sintomas são reais, é preciso atacar as causas da inflamação, tratando a doença (insegurança, serviços públicos precários, perda de renda etc.).
Se são imaginários, vale a mesma lógica de um hipocondríaco: ele pode não ter a doença que imagina, mas tem uma doença.
Também não embarco nas caricaturas habituais sobre o fenômeno. Um populista é necessariamente antidemocrático? Em geral não. Em geral, é o mais democrático dos seres: quer tudo decidido por plebiscito, dando voz direta à vontade popular.
O populista gosta de eleições. Só não gosta de perdê-las, razão pela qual quase nunca reconhece derrotas: se ele é o representante autêntico do povo, não pode ao mesmo tempo ser rejeitado por ele. Questão de lógica.
Além disso, como explica Benjamin Moffitt em "Populism" (o melhor ensaio que conheço sobre o tema), não há nada de intrinsecamente iliberal no populismo. Há inclusive casos de populismo de direita que defenderam liberdades civis (como a liberdade de expressão) e direitos individuais (como os direitos LGBT) contra religiões ou comunidades imigrantes intolerantes.
Pim Fortuyn, líder populista holandês assassinado em 2002, ficou célebre ao dizer: "Não tenho nada contra marroquinos. Já dormi com vários deles".
Por fim, como lembra o próprio Benjamin Moffitt: em contextos autoritários ou oligárquicos, o populismo pode até ser uma bênção. Foi assim na Polônia, com o movimento anticomunista Solidariedade, e até no México, com o Partido da Revolução Democrática.
Antes de condenar a divisão entre povo e elites, cabe perguntar: quem é o povo? E quem são as elites?
Infelizmente, as virtudes do populismo tendem a desaparecer quando o líder populista chega ao poder.
Diversos estudos –do projeto "The New Populism", do Guardian, ao relatório "Populists in Power around the World", do Tony Blair Institute– apontam a mesma dinâmica: no curto prazo, o populismo aumenta a participação eleitoral e pode até reduzir desigualdades por meio de políticas redistributivas. Aqui não há grandes diferenças entre os populismos de esquerda e de direita.
O problema vem depois: perseguição de opositores; captura das instituições (especialmente tribunais); clientelismo; pressão sobre a imprensa. Sem falar em fraude eleitoral e concentração de poder. Também aqui, esquerda e direita se equivalem em sua capacidade destrutiva.
Em muitos casos, a democracia não volta. Segundo o mais recente relatório da V-Dem, o número de autocracias no mundo (92) já supera o de democracias (87). É a primeira vez em décadas. O populismo teve sua parcela de responsabilidade.
E se alguém ainda acredita que o populismo pode funcionar como vacina, impedindo que o povo caia novamente no canto da sereia, os mesmos estudos não sustentam essa esperança: o mais comum é substituir um populista por outro, não retornar à normalidade democrática.
Moral da história?
O populismo é o dr. Jekyll e o mr. Hyde da política: a mesma coisa que o torna eficaz na oposição o torna destrutivo no poder.
Na oposição, a divisão entre povo e elite mobiliza, dá voz a quem não a tem, força o sistema a ouvir. É o dr. Jekyll –carismático, enérgico, aparentemente do lado certo.
Quando chega ao poder, essa mesma lógica binária vira um veneno. É mr. Hyde quem aparece: colérico e paranoico com quem pensa de forma diferente. E com poder real para causar estragos.
O ideal seria termos populismo antes do voto, nunca depois.
Quem encontrar essa fórmula, favor avisar.



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