quarta-feira, 29 de abril de 2026

Candidatos à eterna infâmia, Ruy Castro, FSP

 Em 1977, num show no Canecão, Vinicius de Moraes cantou para Tom Jobim: "Rua Nascimento Silva, 107/ Você ensinando pra Elizeth/ As canções de ‘Canção do amor demais’/ [...] // Mesmo a tristeza da gente era mais bela/ E, além disso, se via da janela/ Um cantinho de céu e o Redentor// É, meu amigo, só resta uma certeza/ É preciso acabar com essa tristeza/ É preciso inventar de novo o amor". Tom respondeu: "Rua Nascimento Silva, 107/ Eu saio correndo do pivete/ Tentando alcançar o elevador/ Minha janela não passa de um quadrado/ A gente só vê Sérgio Dourado/ Onde antes se via o Redentor.// É, meu amigo, só resta uma certeza/ É preciso acabar com a natureza/ É melhor lotear o nosso amor".

Sérgio Dourado era a imobiliária que, nos anos 1970, por conluios imorais com os poderes, botou no chão os predinhos de quatro andares de Ipanema e levantou espigões, decuplicando a população do bairro e o número de carros na rua. Eram os anos dourados, mas também "sérgio-dourados". Seu nome se tornou sinônimo de especulação imobiliária, empreendedorismo velhaco e ocupação desastrosa do espaço urbano.

Hoje são os predinhos do antigo Leblon, também de humanos quatro andares, sem garagem e sem elevador, que vão abaixo para a construção de monstros de 17 andares em área residencial. Com a diferença de que os apartamentos de Sérgio Dourado eram de luxo, como os do "Brasil grande" que a ditadura servia aos seus abonados. Os caixotões atualmente em obras são colmeias de "estúdios", como se chamam agora as mesmas quitinetes do passado, e com os mesmos 20 metros quadrados.

Nesses cubículos, só há espaço para um sofá-cama, um freezer e um cooktop de duas bocas. Entra-se de frente no banheiro e sai-se de costas, única manobra possível. Abertas as vendas, 80% das unidades são vendidas em minutos. Evidente que se destinam a Airbnbs, promessa de tornar impossíveis os aluguéis na região.

São inúmeros os novos Sérgio Dourados no país. Um dia, seus nomes carregarão eterna infâmia, igual ao dele.

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