A Rede Nossa São Paulo divulgará, na próxima semana, dados atualizados do Mapa da Desigualdade de São Paulo nas áreas da saúde e da cultura. Publicado anualmente há mais de dez anos, o mapa se consolidou como uma importante ferramenta para auxiliar a prefeitura, a sociedade civil e demais interessados na identificação de necessidades e prioridades da população paulistana. É um trabalho que reúne 50 indicadores de diversas áreas por distrito, ou seja, que permite avaliar a situação e as disparidades dos vários bairros e territórios de São Paulo em diferentes temas.
Em linhas gerais, o mapa mostra os extremos que separam os 96 distritos da capital em termos de infraestrutura urbana e acesso a bens e serviços públicos. Em boa parte dos indicadores percebe-se que, quanto mais se afasta do centro, menor a oferta de recursos capazes de melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Nas áreas de saúde e cultura, essa realidade aparece de forma contundente. Indicadores como idade média ao morrer e gravidez na adolescência expõem a enorme distância que separa os bairros mais ricos dos mais pobres. O mesmo acontece quando observamos os dados de mortalidade materna, mortalidade infantil e realização de exames pré-natal.
O Mapa mostra, por exemplo, que em 38 distritos não ocorreu nenhuma mortalidade materna de 2022 a 2024. É uma boa notícia, se olharmos isoladamente para esses lugares. Porém, em outros locais da mesma cidade, os números apresentam uma realidade bem diferente. Em Anhanguera, no extremo da Zona Norte, a taxa é de 155 óbitos maternos para cada 100 mil nascidos vivos. É o distrito que registra o pior indicador.
Para entender melhor esse número, um bom começo é observar o que acontece no Brasil e no mundo. Em nível global, houve uma queda de 45% nas taxas de mortalidade materna de 1990 a 2013. No Brasil, esse valor caiu vertiginosamente em 20 anos: de 141, em 1991, para 64, em 2011. Hoje, a taxa do país é de 50 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos. A meta é chegar a 35 até 2030.
Isso significa que, em Anhanguera, a mortalidade materna é três vezes maior do que a média do Brasil. Outros 23 distritos da capital paulista também registram taxas maiores do que a nacional.
Outro indicador que resume a desigualdade é a diferença da idade média ao morrer entre um distrito rico e um mais vulnerável: é de 20 anos, há mais de uma década. Sim, na mesma cidade há distritos onde as pessoas vivem 20 anos a menos do que em outros. Infraestrutura, homicídios de jovens, mortalidade infantil e materna, acesso a saúde e educação de qualidade e habitação precária são algumas das explicações para essa aberração.
O mérito do mapa é mostrar a desigualdade abissal dentro da mesma cidade, uma capital pujante, a mais populosa e mais rica do país. Nos 75 quilômetros que separam o extremo norte do extremo sul de São Paulo, encontramos indicadores equivalentes aos dos países mais desenvolvidos do mundo e, também, dos mais vulneráveis.
Em síntese, as cidades reproduzem o país, um dos mais desiguais do mundo. O que é lamentável e não justifica sua permanência, já que esses problemas são produtos de políticas públicas que os provocaram. Até por isso, são passíveis de reversão —basta assumi-los como prioridade.
A desigualdade precisa ser enfrentada pelo poder público com mais investimento para os distritos mais vulneráveis e a descentralização da gestão e administração a partir das subprefeituras, de modo que elas possam atuar com autonomia e tomar decisões com base em participação social efetiva. É o oposto do que acontece há muitos anos em São Paulo.
Entra governo, sai governo, não há mudança na vergonhosa desigualdade na cidade mais rica do país —o que prova que um dos temas mais importantes para a vida em sociedade não é prioridade para a gestão pública. E ajuda a explicar os baixos índices de aprovação da administração pública, prefeitura e câmara de vereadores, pela sociedade.

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