domingo, 19 de abril de 2026

Alexander Turra - Sem oceano saudável, não há futuro (e o tempo de agir é agora), FSP

 Alexander Turra

Professor titular do Instituto Oceanográfico da USP, é coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano

Baleias encalhadas, tartarugas sufocadas por plásticocorais branqueados e peixes cada vez mais escassos. Não são episódios isolados, mas sintomas de um oceano em colapso silencioso.

O oceano, que sustenta a vida no planeta, está sob ameaça crescente e os sinais são claros, preocupantes e, em muitos casos, já irreversíveis. A ciência mostra que estamos alterando profundamente os sistemas marinhos por meio da pesca predatória, da poluição, da destruição de habitats, da introdução de espécies exóticas e da mudança climática. Esses impactos, somados, colocam em risco a biodiversidade e os benefícios que o oceano proporciona à humanidade.

A imagem mostra um recife de corais subaquático, com formações de corais brancos e texturizados em primeiro plano. Ao fundo, há uma variedade de peixes pequenos nadando em águas claras e azuis, com outras formações de corais visíveis.
Corais embranquecidos em recife na ilha de Koh Mak, província de Trat, na Tailândia - Napat Wesshasartar - 08.mai.24/Reuters

Hoje, sabemos que o oceano, que cobre cerca de 70% da superfície da Terra, regula o clima, a produção de alimentos e o equilíbrio ambiental do planeta. No entanto, ele vem sendo cada vez mais transformado por uma combinação de impactos humanos que se acumulam ao longo do tempo. Os efeitos já são visíveis: recifes de coral branqueiam, manguezais desaparecem, estoques pesqueiros se reduzem e eventos extremos se intensificam. O próprio diagnóstico científico brasileiro alerta para a perda de biodiversidade, a contaminação por plásticos e poluentes e a queda na riqueza de espécies, sinais de um sistema sob pressão.

Esse cenário nos aproxima perigosamente de uma possível extinção em massa nos oceanos. E isso não é apenas um problema ambiental; é uma ameaça direta à economia, à segurança alimentar e ao bem-estar humano. No Brasil, a economia ligada ao mar representa cerca de 20% do PIB, o que evidencia o quanto dependemos de um oceano saudável.

Diante desse quadro, as áreas marinhas protegidas (AMPs) surgem como uma das principais estratégias para reverter esse cenário. Elas funcionam como verdadeiros refúgios para a vida marinha, permitindo a proteção de habitats, a recuperação de espécies e o fortalecimento da resiliência dos ecossistemas frente às mudanças climáticas.

PUBLICIDADE

O Brasil avançou recentemente nessa agenda. A criação do Parque Nacional Marinho do Albardão e da Área de Proteção Ambiental do Albardão elevou para cerca de 26,7% a área protegida da nossa zona econômica exclusiva, aproximando o país da meta global 30x30, que prevê proteger 30% dos oceanos até 2030.

Mas é preciso cautela: ampliar as áreas no mapa não basta. O verdadeiro desafio é garantir que essas áreas funcionem na prática. Sem plano de manejo, financiamento, monitoramento e fiscalização, corremos o risco de criar os chamados "paper parks" —unidades de conservação que existem apenas no papel.


Ecossistemas estratégicos, como manguezais, fundamentais para o armazenamento de carbono e a proteção costeira, e recifes de coral, que abrigam uma enorme biodiversidade, seguem sob forte pressão.

Ao mesmo tempo, ambientes menos conhecidos, como regiões de mar profundo e bancos de rodolitos (algas calcárias que formam "pedras vivas" no fundo do mar e criam habitats marinhos importantes), ainda carecem de proteção e conhecimento científico.

É nesse contexto que a discussão sobre o futuro do oceano ganha urgência. Em maio, a SP Ocean Week reunirá cientistas, pesquisadores, gestores públicos, organizações da sociedade civil e educadores para debater caminhos para "fazer o oceano renascer". Nos Painéis Ideias Azuis, o tema das áreas marinhas protegidas e da meta 30x30 estará no centro das discussões. Trata-se de um espaço de construção coletiva. As contribuições desses debates darão origem a um documento com recomendações que será encaminhado à Conferência da Década dos Oceanos de 2027 —um passo importante para alinhar ciência, políticas públicas e ação global.

O oceano ainda tem capacidade de se recuperar, mas depende das escolhas que fazemos agora. Proteger, restaurar e usar de forma sustentável os recursos marinhos não é apenas uma agenda ambiental. É uma agenda de desenvolvimento, de justiça social e de sobrevivência. Ainda é possível fazer o oceano renascer, mas isso exige ação imediata.

Nenhum comentário: