A ideia de que a competição desenfreada para superar o próximo carrega uma natureza diabólica pode parecer um exagero retórico, mas é exatamente essa a conclusão de Miroslav Volf, um dos teólogos mais respeitados da atualidade.
Volf observa que a satisfação dos alunos pelo ingresso na Universidade Yale, uma das mais importantes universidades estadunidenses, vai se desfazendo à medida que percebem que estão cercados por colegas igualmente brilhantes e terão de provar para si mesmos e para os outros que são melhores que eles.
A busca pela superioridade sobre os outros, não importa a área da vida, é um vício transformado em virtude pela sociedade. A cultura atual frequentemente disfarça essa ambição implacável, mas o objetivo de Volf no livro "O Custo da Ambição: Como o Esforço de Superar os Outros Pode nos Derrubar" (Mundo Cristão, 2025) é mostrar que se trata de um vício socialmente aceito e autodestrutivo, e não uma virtude.
Para compreender o problema, é preciso entender a distinção central da obra. O esforço por excelência baseia-se em buscar um aprimoramento real diante de um padrão objetivo, por exemplo, tocar melhor um instrumento ou atingir metas de sustentabilidade. Já o esforço por superioridade é estritamente competitivo; seu alvo primário não é a qualidade do que se faz, mas simplesmente "ser melhor que outra pessoa".
Miroslav confessa como esse vício surge no cotidiano. No aeroporto, ao carregar sua mala, ele costuma usar as escadas convencionais em vez das escadas rolantes. Nesse momento, admite sentir-se superior aos outros, julgando-os intimamente por não se exercitarem e por gastarem energia elétrica em vez de calorias.
Logo, porém, ele percebe que esse sentimento é uma completa loucura. Afinal, ele não sabe nada sobre a vida dos outros viajantes, ignorando se eles possuem limitações físicas, problemas de saúde ou qual é o verdadeiro compromisso deles com a sustentabilidade.
Para piorar, o teólogo nota a própria hipocrisia: é contraditório orgulhar-se de poupar energia logo após voar de avião e enquanto ele próprio dirige um carro a combustão, ignorando que as pessoas ao redor podem ter hábitos de vida muito mais sustentáveis que ele.
A grande trapaça psicológica desse vício em superioridade é dar como certo que o fato de uma pessoa ser melhor em algo, defender as causas certas ou conquistar medalhas no esporte, a torna um indivíduo de valor humano superior às outras pessoas.
Segundo Volf, o estrago do vício em superioridade é ainda maior na política polarizada, pois corrói o respeito fundamental pela dignidade humana. Ao transformar a preferência ideológica na medida de valor de uma pessoa, a política deixa de ser um esforço para resolver problemas comuns e se transforma em uma mera competição por domínio.
O resultado é o que Volf chama de "deterioração da verdade": líderes são motivados a dizer qualquer coisa que mantenha seu público, criando suas próprias regras e obscurecendo fatos e análises apenas para manter a superioridade e o poder sobre os adversários.
O desfecho final desse esforço contínuo não é um mundo melhor, mas o inferno no qual estamos mergulhados. Não por acaso, o Satanás de John Milton, na obra "Paraíso Perdido", é apresentado por Volf como o arquétipo e o exemplo literário mais extremo e perfeito desse vício.
A ânsia de ser maior e melhor que os outros é inerentemente irracional, destrutiva e geradora de um sofrimento sem fim. Como o próprio Satanás lamenta em um solilóquio, consumido pelo ódio de si mesmo diante de sua ambição inútil: "sob que tormentos interiores gemo [...] eu mesmo sou o Inferno".


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