terça-feira, 7 de abril de 2026

Saia do rebanho político, ouse pensar por si mesmo, Wilson Gomes, FSP

 Se você já não aguenta mais gente patrulhando cotidianamente a sua opinião, exigindo-lhe um posicionamento moral explícito sobre qualquer coisa como condição para decidir se você presta ou não, se já não suporta militante apertando a sua mente e forçando a sua mão, você não está sozinho. Há muitos brasileiros como você —e me incluo entre eles— sentindo-se como a bola de um pinball político alucinado, arremessada para lá e para cá, à procura de uma saída em meio a tanto barulho e histeria.

Reconhece o ambiente? Ele impõe, semana após semana, uma rotina de julgamentos morais, como se fosse preciso decidir o tempo todo quem merece crédito e quem não na vida e na política. Ele transforma tudo —ideias, pensamentos, atitudes e comportamentos, seus e dos outros— em questão política, sujeita à vigilância e à punição segundo critérios ideológicos. Ele exige que você tenha —e exiba— uma opinião política (frise-se o adjetivo "política") sobre quase tudo: o estreito de Hormuz, projetos de lei sobre antissemitismo e antimisoginia, o powerpoint da GloboNews, uma declaração de Trump sobre a mulher de Macron, a não convocação de Neymar ou de Endrick, ou até se, afinal, "lá ele!" é uma expressão homofóbica .

O mais curioso é que o remédio mais eficiente para enfrentar essa sensação é um clássico do Iluminismo e vem na forma de um imperativo: atreva-se a pensar com a sua própria cabeça. "Sapere aude". Tenha a audácia de pensar; ouse servir-se do seu próprio entendimento.

Ilustração em bico de pena mostra, em primeiro plano, um grande grupo de ovelhas brancas como nuvens  muito próximas umas das outras, formando um “rebanho”. Todas usam óculos escuros, “cegas”, o que sugere ausência de individualidade. Elas ocupam quase toda a parte inferior da imagem. Ao fundo, ergue-se a figura de uma cabeça humana em perfil, construída com formas geométricas e segmentadas, como se fosse composta por peças encaixadas. A cabeça, colorida em tons pasteis, está voltada para a esquerda, com a boca aberta, como se estivesse falando, comunicando seu pensamento. Dos olhos dessa figura sai um feixe de luz branco, semelhante a um holofote, projetado no sentido contrário à direção do “rebanho”. A cena como um todo transmite a sensação de controle ideológico da figura humana, pensamento próprio e autonomia individual diante do grupo “rebanho” homogêneo.
Ariel Severino/Folhapress

Isso pode significar muitas coisas nos dias que correm. Um dos seus significados é que ninguém manda em você, quer dizer, no seu juízo, no seu modo de ver as coisas. Nem o seu círculo de afinidade social, nem o seu grupo de pertencimento ideológico. Divergir e desafiar valores e pontos de vista de quem está no "outro lado" é fácil, e todo mundo faz isso. Emancipação intelectual de verdade é ter a ousadia de resistir ao soft power dos "nossos", é não aderir automaticamente, é se recusar a substituir o próprio julgamento pela voz do próprio rebanho. Há um custo —grupos punem dissidentes, desafiantes e até hesitantes com isolamento. Dane-se! Esse é o preço a pagar para ser o capitão própria alma, senhor das próprias ideias.

Outra decorrência da máxima iluminista é a liberdade de rediscutir consensos, reabrir decisões ideológicas que os grupos dão por encerradas, reexaminar premissas e pressupostos já adotados. Isso é o que significa recusar os dogmas do grupo e as suas bíblias particulares, assim como se recusar a confundir afinidades ideológicas, que é uma coisa normal, com conversão sectária e suicídio intelectual. Não conceda a autoridades, livros e bulas papais do seu campo o direito de decidir o que você deve considerar certo ou errado, discutível ou intolerável. Mantenha esse direito como uma prerrogativa política e humana pessoal.

Em um momento em que os campos políticos, tantos e tão fragmentados, reforçam os apelos por coesão grupal e por hostilidade contra os inimigos externos, tenha a liberdade de escolher contra o que lutar, se preciso, e por que razão o faria, se necessário. Contra a pressa do grupo por movimentos de manada, retarde o seu julgamento; contra a pressão por um incessante ativismo de guerrilha, suspenda por um tempo o seu julgamento até que as coisas fiquem mais claras; contra as simplificações de quem vê tudo em preto e branco, assuma a atitude mais rebelde de todas: faça distinções e aceite paradoxos.

Você vai descobrir como é libertador, por exemplo, apoiar um princípio —sei lá, a condenação da misoginia e do antissemitismo— e, ao mesmo tempo, reprovar a solução proposta com a criminalização. Ou pedir evidências quando todos estão entronados em certezas, demandar que sejam demonstradas crenças que os grupos consideram sagradas, desconfiar de soluções fáceis para problemas difíceis, pensar a contrapelo quando todos buscam nos consensos grupais a estima de que tanto precisam, dispor-se a ouvir os outros lados e a entender as suas razões, mesmo quando não concorda com elas.

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Talvez você fique surpreso ao notar que um tal individualismo —que não é isolamento, mas autonomia de juízo— pode ser, paradoxalmente, mais democrático que os coletivismos que anulam a liberdade de pensar e dissolvem a autonomia do pensamento individual nas obrigações de lealdade e coesão grupal. Mas é isso mesmo. A voz do rebanho sempre serviu melhor a outros regimes; a democracia depende, desde sempre, de indivíduos capazes de pensar com liberdade e independência.

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