quinta-feira, 30 de abril de 2026

Opep conseguirá sobreviver à saída dos Emirados Árabes Unidos?, FT FSP

 Verity Ratcliffe

Malcolm Moore
Londres | Financial Times

Quando os Emirados Árabes Unidos anunciaram na terça-feira (28) que planejavam deixar a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), ameaçando a capacidade de sobrevivência do cartel global, os mercados de petróleo simplesmente ignoraram.

O petróleo Brent subiu pelo sétimo dia consecutivo, enquanto os traders prestavam mais atenção aos desdobramentos da guerra com o Irã do que às consequências da perda, pela Opep, de seu terceiro maior produtor e um de seus membros mais influentes.

Nesta quinta-feira (30), o barril Brent chegou a ser vendido a US$ 114,68, maior valor desde 31 de março, mas impulsionado pelo travamento das negociações entre EUA e Irã pelo fim do conflito entre os dois países.

Silhueta de uma bomba de petróleo em destaque contra um fundo azul com o logo branco da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).
Miniatura de uma bomba de petróleo em frente ao símbolo da Opep - Dado Ruvic - 9.jan.26/Reuters

A reação contida dos preços reflete a importância desproporcional da escassez global decorrente do fechamento do estreito de Hormuz. Mas também é um sintoma da relevância decrescente da Opep para os mercados globais de petróleo.

"Este é o começo do fim da Opep", disse Saul Kavonic, analista de energia da MST Financial. "A Arábia Saudita terá dificuldades para manter o resto da Opep unido. Podemos ver outros membros seguirem o mesmo caminho, incluindo a Venezuela."

Fundada em 1960 por países que se rebelavam contra o controle de seus recursos por empresas petrolíferas estrangeiras, a Opep emergiu como uma grande potência em 1973, quando uma aliança de seus membros árabes realizou um embargo contra países que apoiavam Israel, incluindo os Estados Unidos, com efeitos devastadores.

Mas seu poder diminuiu nas últimas décadas à medida que países fora do cartel, particularmente os EUA, aumentaram a produção de petróleo. Excluindo os Emirados Árabes Unidos, a Opep produziu cerca de um quarto do petróleo mundial no ano passado, contra aproximadamente metade no auge de seu controle.

A expansão do grupo para outros dez países sob a chamada aliança Opep+ há uma década aumentou um pouco sua influência. Mas a adesão irregular aos limites de produção e o poder limitado para adicionar ou subtrair barris do mercado enfraqueceram o impacto das decisões do grupo.

Enquanto isso, os mercados ficam cada vez mais atentos às declarações dos EUA, até mesmo em contas de redes sociais do presidente Donald Trump. "A guerra no Irã mostrou que os EUA podem ter tanta influência, se não mais, sobre os fluxos globais de petróleo quanto a Opep", disse Kavonic.

O controle do Irã sobre o estreito de Hormuz, por onde normalmente passa um quinto do petróleo mundial, é mais um golpe na capacidade da Opep de controlar o mercado. Mais da metade da produção de petróleo do cartel vem da Arábia Saudita, Iraque e Kuwait. Teerã mostrou que pode interromper a maioria desses fluxos imediatamente.

"Isso dilui completamente o poder de mercado do grupo e coloca o Irã no controle da grande maioria das exportações da Opep", disse Joel Hancock, analista sênior de commodities do Natixis Bank. "Sob esse status quo, a Opep perde muito poder de mercado e efetivamente se torna um instrumento da política externa do Irã."

Ainda assim, embora a saída dos Emirados Árabes Unidos provavelmente não afete os preços do petróleo no curto prazo, é provável que pese sobre os preços no longo prazo, já que o país poderá produzir mais, segundo analistas do UBS.

Pessoas próximas ao governo saudita minimizaram a decisão. "A saída dos Emirados Árabes Unidos não terá muito impacto nos mercados globais de petróleo, já que o país tem excedido e ainda excede suas cotas de produção", disse Mohammad al-Sabban, ex-conselheiro sênior de petróleo da Arábia Saudita, no X. "Sempre foi 'o menino travesso'." O autor posteriormente deletou a mensagem.

A relação entre os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, líder de fato da Opep, azedou nos últimos anos. Os dois países apresentaram uma frente unida em momentos cruciais da história da aliança, impulsionados por seu interesse compartilhado em mercados de petróleo estáveis e na manutenção da coesão entre os Estados do golfo.

Mas eles estão em rota de colisão há quase uma década, desde que Abu Dhabi estabeleceu a meta de expandir sua capacidade de produção de petróleo de 3 milhões para 5 milhões de barris por dia, originalmente com prazo para 2030, mas posteriormente revisado para 2027. À medida que a capacidade dos Emirados de produzir mais petróleo crescia, o país precisava de uma cota maior na Opep.

A Arábia Saudita inicialmente resistiu à mudança, temendo a crescente importância de seu vizinho como produtor de petróleo e uma diluição da principal ferramenta do grupo para influenciar os preços. Mas em 2021, Abu Dhabi abocanhou uma fatia maior da produção total da Opep ao ameaçar sair. Desde então, tem enfrentado repetidas acusações de bombear acima de seus limites acordados.

A saída dos Emirados Árabes Unidos pode tornar a tomada de decisões da Opep mais fluida, já que a Arábia Saudita poderá consolidar seu poder. No entanto, também levará os formuladores de políticas do reino a questionar se podem arcar com todo o ônus de implementar os cortes da Opep.

"Com a Arábia Saudita, [os Emirados Árabes Unidos] é um dos poucos membros com capacidade ociosa significativa, o mecanismo pelo qual o grupo exerce influência no mercado e responde a choques de oferta", disse Jorge León, chefe de análise geopolítica da Rystad Energy e ex-funcionário da Opep.

"Sua saída, portanto, remove um dos pilares centrais que sustentam a capacidade da Opep de gerenciar o mercado", disse.

Os Emirados Árabes Unidos não são o primeiro país a deixar a Opep desde sua criação; nos últimos anos, Indonésia, Qatar, Equador e Angola também saíram.

Mas Raad Alkadiri, associado sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, disse que o que era "impressionante" no anúncio dos Emirados era o timing.

"Isso tem muito mais cara de motivação política do que de motivação de mercado de petróleo", avaliou Alkadiri. "Fala tanto sobre as linhas de falha geopolíticas no Oriente Médio quanto sobre qualquer coisa relacionada ao mercado no curto e médio prazo."

As relações entre os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita já estavam abaladas devido aos alinhamentos com facções em guerra no Iêmen e à crescente rivalidade como polos de negócios concorrentes na região. A guerra no Irã exacerbou essas diferenças.

A saída dos Emirados provavelmente não seria "fatal" para o grupo, a menos que desencadeasse uma onda de outras saídas.


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