quinta-feira, 30 de abril de 2026

Castelinho da rua Apa, em São Paulo, deixou de ser visto como lugar amaldiçoado, FSP

 

Castelinho da rua Apa, na esquina com a avenida General Olímpio da Silveira e bem perto do Minhocão, é um típico lugar que foi ressignificado.

Considerado, durante décadas, mal-assombrado por ter sido palco de uma tragédia em 12 de maio de 1937, ele foi restaurado há dez anos e se tornou um espaço de beneficência administrado pelo Clube das Mães do Brasil, que desenvolve importantes programas sociais e acolhe moradores de rua. É um prédio amarelo, imponente, bem pintado.

A imagem mostra um edifício em estilo de castelo, pintado de amarelo, com torres e janelas em estilo gótico. O prédio está localizado em uma área urbana, cercado por outros edifícios e árvores. Há uma pessoa em pé na frente do castelo, e ao fundo, é possível ver prédios altos e um céu claro.
Castelinho da rua Apa, em São Paulo - Divulgação

Mas o crime praticado ali nunca foi esclarecido. Envolveu a endinheirada família Guimarães Reis, dona de uma das principais salas de cinema de São Paulo na época chamada Cine Teatro Broadway, e deixou um rastro de sangue.

Em meio a uma discussão de família, houve três mortes naquele dia: a de Maria Cândida Guimarães dos Reis, 73, e a de seus dois filhos, Álvaro César Guimarães Reis, 45, e Armando Guimarães Reis, 43. A tese oficial indica que Álvaro teria matado a mãe e o irmão e depois se suicidado.

A motivação do crime teria sido a intenção de Álvaro de transformar o Broadway em um rinque de patinação, esporte que praticava com brilho e que o levou a vencer campeonatos na Europa.

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Maria Cândida e Armando, que era o administrador do negócio, não concordavam com a ideia e queriam manter o cinema funcionando. O patriarca da família, Virgílio César dos Reis, havia morrido dois meses antes da tragédia.

Há pelo menos cinco livros que tratam do caso e apontam contradições no inquérito policial. O mais conhecido é o de Leda de Castro Kiehl, sobrinha-neta de Maria Cândida, lançado em 2015.

Em "O Crime do Castelinho: Mitos e Verdades", a autora questiona a qualidade do laudo pericial, cheio de lacunas, feito na ocasião e cogita a presença de uma quarta pessoa em cena, que seria o verdadeiro assassino.

Castelinho da Rua Apa antes da restauração
A partir dos anos 1980 o imóvel ficou abandonado e sua restauração só foi concluída em 2017 - Clube de Mães do Brasil/Divulgação

O último livro saiu do prelo em 2023. O título é "Uma Nova Versão do Crime do Castelinho da Rua Apa" e o autor, Marcus Rogério Oliveira dos Santos. Na obra, Álvaro é isento de culpa e dois atiradores nunca identificados são colocados no local dos acontecimentos.

Segundo Santos, nenhuma das três vítimas teria feito disparos de armas de fogo, embora nas mãos de Armando tenham sido encontrados vestígios de pólvora. Outra inconsistência é o fato dos corpos de Álvaro e Armando estarem um ao lado do outro na mesma direção e não na linha de tiro.

Algumas constatações tornaram a situação ainda mais obscura. Foram identificados dois tiros no peito de Álvaro, o que tornaria pouco plausível a tese do suicídio. Além do mais, as balas encontradas na mãe não eram compatíveis com a arma de calibre 9 mm achada no local do crime que pertencia a Álvaro.

Um boato propagado na ocasião dizia que ele estava neurastênico, esgotado física e mentalmente e extremamente nervoso por causa da recusa da família em aceitar seu projeto de conversão do cinema. Também estaria com uma dívida impagável.

Família César Reis
Família César Reis, com Maria Cândida (última à esq.), Armando (ao centro) e Álvaro (à sua dir.) - Domínio Público

Depois do crime, como não havia herdeiros diretos, o castelinho ficou nas mãos do governo federal. Na década de 1950 passou a ser ocupado pelo funcionário da Receita Federal Otávio Manzaro, que residiu ali com a família até 1982.

Depois disso, foi abandonado por várias décadas, servindo de abrigo para a população sem teto e dependentes químicos, que diziam ouvir vozes e ruídos estranhos durante a noite. Sua fama de lugar nefasto ganhou força.

O Clube das Mães do Brasil, coordenado pela ativista social e ex-moradora de rua Maria Eulina Hilsenbeck, foi fundado em 1993 e recebeu a concessão de uso do imóvel, pertencente ao INSS, quatro anos depois.

Só em 2017, após uma longa espera pela sua restauração, o castelinho se tornou a sede da organização, que oferece vários serviços para pessoas carentes, como cursos profissionalizantes e atendimento psicológico e odontológico.

O casarão, concluído em 1917, foi tombado pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) em 2004. A lenda de que seria mal-assombrado caiu por terra.

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