No último dia 8, o jornal O Estado de S. Paulo publicou a reportagem "Gilmar Mendes viajou para Brasília em avião de empresa de Vorcaro". Republicou-a no dia seguinte, no papel, ao lado de "Master pagou R$ 27 milhões a site de Luiz Estevão; Coaf aponta suspeita". Tal dobradinha colocou o jornal paulistano numa linha de tiro incomum.
Quando a informação sobre a viagem do ministro do STF veio à tona, a Folha a confirmou, publicou e atribuiu o furo ao Estado, seguindo boas práticas jornalísticas: "Gilmar Mendes pegou carona em avião de Daniel Vorcaro". Outros sites fizeram o mesmo.
Nove dias depois, o Estado resolveu se retratar pela reportagem. Numa nota de correção, afirmou que "o título não refletia como deveria o conteúdo integral do texto" e que "a presença de Gilmar Mendes no voo não se deveu ao fato de o avião, à época, pertencer a uma empresa, a Prime You, na qual o banqueiro Vorcaro tinha participação. Gilmar viajou como convidado de Marcos Molina, presidente do Conselho de Administração da MBRF". A MBRF, não custa lembrar, é a gigante fruto da união entre Marfrig e BRF e é dona da Sadia e da Perdigão.
A Folha continua a sustentar o que colocou no ar sobre o voo. "Nosso título e texto não continham erro", afirma o jornal, via Secretaria de Redação. "É fato que Gilmar viajou em avião de empresa de Vorcaro, deixamos claro que foi a convite de Marcos Molina, da MBRF, e não fizemos ilação de que isso implicasse favor do banqueiro ao ministro."
Já o Grupo Estado se viu enredado em mais duas polêmicas. Há uns dias, anunciou o fechamento da rádio Eldorado, emissora tradicional em São Paulo. E, depois da publicação sobre os R$ 27 milhões, virou assunto no portal brasiliense Metrópoles, de propriedade do ex-senador Luiz Estevão. Em uma década, o Metrópoles cresceu e se impôs na paisagem jornalística com apurações e furos importantes, como a recente investigação sobre os descontos do INSS.
Depois que o Estado noticiou os pagamentos do Master ao Metrópoles, tidos como "suspeitos" e "inusitados" pelo Coaf, o portal passou a investigar e a se referir ao jornal como "dos banqueiros".
Horas antes de o Estado se retratar pela reportagem sobre Gilmar, o Metrópoles colocou no ar "quem são os bancos e empresários que aportaram R$ 142,5 milhões em debêntures no Estadão". A captação de recursos havia sido feita em 2024 e divulgada na época pelo jornal, sem detalhar investidores, e por outros veículos, como a Folha.
O Metrópoles afirmou também que o Estado contratou a Trustee, "gestora de Maurício Quadrado, sócio de Vorcaro no banco e na Prime You [a empresa do jatinho], para estruturar" a operação. Ao noticiar a correção feita pelo jornal, o Metrópoles fez uso do novo aposto: "Controlado por banqueiros, Estadão diz que errou ao relacionar Gilmar Mendes a Vorcaro". E voltou à carga informando que o Estado recebeu R$ 1,12 milhão do Master como pagamento por publicidade.
Assim como no caso do jatinho, a Folha publicou depois do concorrente paulistano a informação sobre os R$ 27 milhões, sem grandes consequências. Um detalhe, porém, chamou a atenção do leitor Pedro Marra, 64, de São Paulo.
O jornal informava que Luiz Estevão atribuía os pagamentos "a patrocínios de futebol e ‘divulgação de conteúdo publicitário e marketing das marcas’ do Master e do Will Bank (...). ‘Em meio às negociações com o BRB, que perduraram até setembro de 2025, o grupo Master/Will Bank buscou fortalecer a marca no ambiente local’, disse o ex-senador à Folha em março".
O leitor questionou: "Se a Folha falou com o Luiz Estevão em março, foi antes de o Estadão publicar seu furo. Se a Folha tinha a história antes, por que não publicou? Faltou coragem?". Em resposta, a Secretaria de Redação da Folha informou que "o Estado avançou na apuração e cruzou o pagamento do Master para a Série D com a demora da execução do patrocínio no campeonato. A partir daí, a Folha publicou o dado que tinha, atribuindo [ao concorrente] o furo".
Procurado pela ombudsman, o Estadão enviou nota e informou que "a captação de R$ 157,5 milhões realizada pelo Grupo Estado em 2024, (...) teve como objetivos a reorganização financeira do grupo" e "não resultou em mudança na estrutura societária". "A governança do grupo permanece a definida por seu estatuto social, tendo a linha editorial sob responsabilidade exclusiva da família Mesquita. A operação foi estritamente de crédito de mercado, contratada em condições usuais, e não impõe qualquer restrição ou influência sobre a cobertura diária e crítica que o jornal realiza sobre as instituições envolvidas. O Grupo Estado reafirma seu propósito liberal e republicano de 151 anos e sua missão essencial de informar o público com precisão, independência e responsabilidade."
O Metrópoles também foi procurado, mas não se manifestou até o fechamento do texto. O espaço continua aberto.

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