Toda vez que um tapume sobe em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, os vizinhos dão como certo: aí vem mais um prédio.
Por isso, quando uma obra tomou um dos raros quarteirões ainda horizontais da rua Doutor Virgílio de Carvalho Pinto, a apreensão veio junto com um estranhamento porque faltava o habitual anúncio imobiliário. Até o dia em que o tapume amanheceu com a frase: "Não é prédio, é praça".
Desde então, o vigilante Ivanildo Ferreira, 33, virou uma espécie de porta-voz involuntário da obra. "Todo dia, um monte de gente me pergunta o que é isso. E eu digo: vai ser uma praça mesmo."
Nos últimos anos, Pinheiros se consolidou como um dos polos de adensamento de São Paulo. O resultado é visível: uma multiplicação de empreendimentos imobiliários que vão de estúdios compactos a edifícios de alto padrão, o que transformou rapidamente a paisagem e elevou a pressão sobre os terrenos locais.
"Ouvi que seria prédio, ouvi que seria praça, ouvi que seria um projeto cultural. Mas é tudo especulação", afirma Carol Eneas, dona de uma loja de donuts quase em frente ao terreno. "Tem subido prédios loucamente por aqui. Parece Nova York."
A comparação com a maior cidade dos EUA não é coincidência. Foi lá que o núcleo familiar de Alfredo Egydio Setúbal, CEO da Itaúsa, encontrou inspiração para o projeto em vias de se materializar no bairro paulistano, batizado de Praça Igarapé.
A ideia, segundo o filho, Alfredo Nugent Setúbal, remonta a parques como Paley Park e Greenacre Park, que misturam pequenas áreas verdes com a presença de água corrente e que trazem um respiro e mais qualidade de vida para a cidade.
"A ideia sempre foi criar um refúgio que servisse de contraponto ao ritmo frenético de São Paulo", explica ele, que é sócio-fundador da editora Todavia, à Folha.
A importação desse modelo começou de fato há cerca de dez anos e se intensificou a partir de 2017, quando a família iniciou a busca por terrenos.
O processo, porém, foi atravessado pela mesma lógica que hoje alimenta a desconfiança da vizinhança e escala os preços na região. "Começou uma disputa bem agressiva com incorporadoras, que queriam os mesmos terrenos, inclusive aqueles que já eram nossos", afirma Setúbal.
Entre o primeiro terreno adquirido pela família em 2019 e os demais negociados para compor a praça, o preço do metro quadrado mais do que quadruplicou, segundo ele. Encerrada essa etapa, o projeto ficou a cargo do Escritório FGMF junto com Ciça Pinheiro e Paula Pinto.
Foram quase dois anos para obter aprovação na prefeitura. "O ineditismo da proposta gerou alguma dificuldade, mas essa demora fez com que o projeto crescesse em tamanho, ambição e maturidade. Percebemos questões urbanísticas e de saúde mental que foram gradativamente incorporadas."
As informações que passaram a associar o projeto ao sobrenome Setúbal criaram outro ruído. "Tinha ouvido que seria um Itaú Cultural. Mas é uma obra grande, que teve um bate-estaca absurdo, e ficamos com muito medo de ser mais um prédio mesmo", conta a comerciante Mariane Barcellos, 40, aliviada ao saber que a afirmação do tapume é real.
O que está em construção é uma praça de cerca de 1.750 m² com abertura prevista para junho de 2027. A iniciativa é privada e sem fins lucrativos, e deve ter a manutenção financiada com receitas dos aluguéis de três espaços projetados para o local: um café, uma sala multiuso para eventos culturais e uma livraria que deve ser inaugurada já em novembro deste ano. Em vias de assinatura de contrato, o espaço deve abrigar uma nova unidade da Livraria da Travessa na região.
"Queríamos um lugar com vida de rua, comércio e proximidade de metrô, mas que oferecesse pausa, descompressão", diz ele. "Um refúgio urbano, um pequeno oásis." O projeto incorpora elementos recorrentes nos parques que o inspiraram, como a presença de água —um espelho que atravessa o terreno e deságua em uma cascata—, além de microambientes pensados para diferentes usos, como bancos e playground.
Antes mesmo do desenho arquitetônico da Praça Igarapé, a família encomendou uma pesquisa sobre a história hídrica do bairro, marcada por rios canalizados e enterrados. O nome, segundo Setúbal, "é, portanto um aceno a esses rios esquecidos".
Setúbal explica que a proposta é do casal Alfredo e Rose Setubal, dele e de sua irmã, Marina, tanto do ponto de vista financeiro como de governança. "Não tem nada de institucional, nada ligado à Itaúsa."
A iniciativa de criar um espaço privado de uso público não escapa a críticas ao mesmo tempo em que chama a atenção para o papel do poder público e para os limites da atuação privada numa cidade marcada pela desigualdade no acesso a áreas verdes.
"Tem tanta praça que não é frequentada porque está mal cuidada ou por questão de segurança. Por que não recuperar uma delas em vez de demolir construções para dar lugar a uma praça nova?", questiona Mônica Gimenez, profissional de RH e moradora do bairro.
Setúbal defende que a família sonhou com algo que vai além de uma praça usual e que congrega natureza e cultura. Mas a própria família reconhece o caráter limitado da intervenção. "É uma gota no oceano", afirma ele. "Não substitui o poder público, mas pode servir de exemplo." A ambição, admite, é inspirar iniciativas privadas semelhantes em benefício da cidade.
Por ora, a família não pretende replicar a experiência. "Este é um projeto de vida. E o verdadeiro trabalho começa quando a praça for inaugurada."
Em um dos bairros onde a especulação imobiliária mais avançou, a especulação sobre o destino daquele terreno acabou revelando o quanto a cidade se acostumou a esperar sempre o mesmo desfecho. Desta vez, no entanto, não é prédio, é praça.

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