quinta-feira, 30 de abril de 2026

Família Setúbal cria praça pública em área disputada de Pinheiros, em São Paulo, FSP

 Fernanda Mena

São Paulo

Toda vez que um tapume sobe em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, os vizinhos dão como certo: aí vem mais um prédio.

Por isso, quando uma obra tomou um dos raros quarteirões ainda horizontais da rua Doutor Virgílio de Carvalho Pinto, a apreensão veio junto com um estranhamento porque faltava o habitual anúncio imobiliário. Até o dia em que o tapume amanheceu com a frase: "Não é prédio, é praça".

Desde então, o vigilante Ivanildo Ferreira, 33, virou uma espécie de porta-voz involuntário da obra. "Todo dia, um monte de gente me pergunta o que é isso. E eu digo: vai ser uma praça mesmo."

Nos últimos anos, Pinheiros se consolidou como um dos polos de adensamento de São Paulo. O resultado é visível: uma multiplicação de empreendimentos imobiliários que vão de estúdios compactos a edifícios de alto padrão, o que transformou rapidamente a paisagem e elevou a pressão sobre os terrenos locais.

Homem de camisa azul e calça jeans caminha à esquerda em frente a muro verde com a frase 'não é prédio, é praça.' em letras grandes. No primeiro plano, área de construção com entulho e materiais.
Frase em tapume alerta que ali não está sendo erguido um prédio; obra da futura praça Igarapé, na rua Virgílio de Carvalho, em Pinheiros, estão previstas para acabar em junho de 2027 - Danilo Verpa/Folhapress

"Ouvi que seria prédio, ouvi que seria praça, ouvi que seria um projeto cultural. Mas é tudo especulação", afirma Carol Eneas, dona de uma loja de donuts quase em frente ao terreno. "Tem subido prédios loucamente por aqui. Parece Nova York."

A comparação com a maior cidade dos EUA não é coincidência. Foi lá que o núcleo familiar de Alfredo Egydio Setúbal, CEO da Itaúsa, encontrou inspiração para o projeto em vias de se materializar no bairro paulistano, batizado de Praça Igarapé.

A ideia, segundo o filho, Alfredo Nugent Setúbal, remonta a parques como Paley Park e Greenacre Park, que misturam pequenas áreas verdes com a presença de água corrente e que trazem um respiro e mais qualidade de vida para a cidade.

"A ideia sempre foi criar um refúgio que servisse de contraponto ao ritmo frenético de São Paulo", explica ele, que é sócio-fundador da editora Todavia, à Folha.

A importação desse modelo começou de fato há cerca de dez anos e se intensificou a partir de 2017, quando a família iniciou a busca por terrenos.

O processo, porém, foi atravessado pela mesma lógica que hoje alimenta a desconfiança da vizinhança e escala os preços na região. "Começou uma disputa bem agressiva com incorporadoras, que queriam os mesmos terrenos, inclusive aqueles que já eram nossos", afirma Setúbal.

Entre o primeiro terreno adquirido pela família em 2019 e os demais negociados para compor a praça, o preço do metro quadrado mais do que quadruplicou, segundo ele. Encerrada essa etapa, o projeto ficou a cargo do Escritório FGMF junto com Ciça Pinheiro e Paula Pinto.

Foram quase dois anos para obter aprovação na prefeitura. "O ineditismo da proposta gerou alguma dificuldade, mas essa demora fez com que o projeto crescesse em tamanho, ambição e maturidade. Percebemos questões urbanísticas e de saúde mental que foram gradativamente incorporadas."

As informações que passaram a associar o projeto ao sobrenome Setúbal criaram outro ruído. "Tinha ouvido que seria um Itaú Cultural. Mas é uma obra grande, que teve um bate-estaca absurdo, e ficamos com muito medo de ser mais um prédio mesmo", conta a comerciante Mariane Barcellos, 40, aliviada ao saber que a afirmação do tapume é real.

O que está em construção é uma praça de cerca de 1.750 m² com abertura prevista para junho de 2027. A iniciativa é privada e sem fins lucrativos, e deve ter a manutenção financiada com receitas dos aluguéis de três espaços projetados para o local: um café, uma sala multiuso para eventos culturais e uma livraria que deve ser inaugurada já em novembro deste ano. Em vias de assinatura de contrato, o espaço deve abrigar uma nova unidade da Livraria da Travessa na região.

"Queríamos um lugar com vida de rua, comércio e proximidade de metrô, mas que oferecesse pausa, descompressão", diz ele. "Um refúgio urbano, um pequeno oásis." O projeto incorpora elementos recorrentes nos parques que o inspiraram, como a presença de água —um espelho que atravessa o terreno e deságua em uma cascata—, além de microambientes pensados para diferentes usos, como bancos e playground.

Antes mesmo do desenho arquitetônico da Praça Igarapé, a família encomendou uma pesquisa sobre a história hídrica do bairro, marcada por rios canalizados e enterrados. O nome, segundo Setúbal, "é, portanto um aceno a esses rios esquecidos".

Setúbal explica que a proposta é do casal Alfredo e Rose Setubal, dele e de sua irmã, Marina, tanto do ponto de vista financeiro como de governança. "Não tem nada de institucional, nada ligado à Itaúsa."

A iniciativa de criar um espaço privado de uso público não escapa a críticas ao mesmo tempo em que chama a atenção para o papel do poder público e para os limites da atuação privada numa cidade marcada pela desigualdade no acesso a áreas verdes.

"Tem tanta praça que não é frequentada porque está mal cuidada ou por questão de segurança. Por que não recuperar uma delas em vez de demolir construções para dar lugar a uma praça nova?", questiona Mônica Gimenez, profissional de RH e moradora do bairro.

Setúbal defende que a família sonhou com algo que vai além de uma praça usual e que congrega natureza e cultura. Mas a própria família reconhece o caráter limitado da intervenção. "É uma gota no oceano", afirma ele. "Não substitui o poder público, mas pode servir de exemplo." A ambição, admite, é inspirar iniciativas privadas semelhantes em benefício da cidade.

Por ora, a família não pretende replicar a experiência. "Este é um projeto de vida. E o verdadeiro trabalho começa quando a praça for inaugurada."

Em um dos bairros onde a especulação imobiliária mais avançou, a especulação sobre o destino daquele terreno acabou revelando o quanto a cidade se acostumou a esperar sempre o mesmo desfecho. Desta vez, no entanto, não é prédio, é praça.

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