terça-feira, 14 de abril de 2026

O PROMOTOR DE JUSTIÇA E A DÚVIDA HAMLETIANA, por José Benjamim de Lima, in site APMP


José Benjamim de Lima



“Como as coisas andam fora dos eixos! Ó

tarefa de irritar ter eu nascido para pô-las no

lugar.” (Hamlet)



Nas reuniões semestrais dos promotores de justiça substitutos, um

dos ilustres Corregedores-Gerais da época em que ingressei na

carreira costumava dizer que promotor não pode ter dúvidas, tem

de ser decidido e firme. – Promotor de Justiça indeciso não é

promotor - dizia ele.

Recém-formado em Direito, e sem qualquer experiência

profissional na área jurídica, o que mais tinha eram dúvidas, de

forma que ouvia um pouco constrangido (e calado) as preleções do

ilustre Procurador de Justiça.

Vinham-me à cabeça, em franca colisão, a advertência do

Purgatório de Dante - “Quem em ideias múltiplas cogita, // sempre

a hesitar, perturba-se na ação, // pois que uma na outra a força

debilita.” - e os versos da Tabacaria de Fernando Pessoa: “Em

todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! // Eu,

que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?”.

O que fazer? É claro que o Corregedor estava preocupado com a

eficiência de seus pupilos; e seu discurso, estrategicamente

exagerado, buscava formar nos recém-ingressos na carreira uma

mentalidade combativa.

Independentemente de minhas dúvidas de início de carreira, tive

sempre a convicção de que um certo grau de dúvida é bastante

saudável e conveniente em qualquer atividade humana, como

postura metódica. No caso do promotor de justiça ela o ajuda a

evitar sucumba a certas tentações que o rodeiam permanentemente,

entre elas a arrogância, o legalismo frio e burocrático, a atração

pela ribalta dos modismos culturais do momento, assim como a

absoluta indiferença em relação às conseqüências de sua atuação.

É atualmente muito grande o grau de jurisdicionalização da vida

social, com o Judiciário sendo a todo momento chamado a intervir

não só na vida privada das pessoas, mas também, ativamente, nos

outros Poderes da República, à feição de um verdadeiro cogestor

da coisa pública e privada (o que a vida social efetivamente ganha

– ou perde - com isso são outros quinhentos...).

E boa parte dessa intervenção se deve à atuação do Ministério

Público; daí que, neste contexto, um pouco de dúvida sempre se

mostrará saudável, como fator de cautela e homenagem à imensa

complexidade e plurissignificação dos problemas humanos. Isto

vale, especialmente, depois da Constituição Federal de 1988, que

ampliou enormemente as atribuições do Ministério Público,

possibilitando às vezes sua interferência potencial na vida de

indeterminado número de pessoas e na administração pública, por

meio das ações coletivas.

O Ministério Público e o Judiciário foram ungidos pelo constituinte

“guardiões das promessas” (a expressão é do juiz francês Antoine

Garapon, em outro contexto) da generosa Carta de 1988. Enquanto

tal, viram-se transformados, num passe de mágica legislativo-

constitucional, em presumíveis supridores das infinitas carências

de um país que ostenta escandalosas e degradantes taxas de

miséria, pobreza, injustiça, criminalidade, corrupção, desigualdade,

doença etc. etc., lado a lado com tantas riquezas, naturais e

humanas... - “Ó tarefa de irritar, ter nascido para colocá-las no

lugar!” (e, tantas vezes, frustrar as expectativas, acrescentaria

eu...).

Em tal contexto de crise e desafios evidentes, repito, um pouco de

dúvida sempre fará bem à saúde da Instituição e de seus membros.

A dúvida gera cuidados, equilíbrio, bom senso, modéstia. Inibe a

soberba, a arrogância, a hybris que sempre ronda todos aqueles que

detém alguma parcela de poder na vida coletiva. Refiro-me não

apenas à necessária, mas insuficiente, fria e objetiva dúvida

metódica cartesiana, que rejeita as verdades aparentes ou

preconcebidas e submete as convicções e opiniões a rigoroso

controle do raciocínio lógico. Penso mais na dimensão existencial

da dúvida. Que mal haverá em se cultivar um pouco da apaixonada

e angustiada dúvida hamletiana: ser ou não ser, eis a questão? Há

mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia...

Não se trata de deixar-se levar pela dúvida paralisante, que impede

a ação ou sua eficiência. Mas do fazer com humildade e sempre

com uma pontinha de descrença que ajude a coibir o excesso ou a

suprir a insuficiência. É importante que o Promotor de Justiça não

se deixe sucumbir pela confiança excessiva em seu próprio poder

de modificar as coisas para melhor e de acreditar que estará sempre

no caminho certo. Muitas vezes estará, conscientemente ou não,

ajudando a modificar as coisas para pior ou contribuindo para a

erosão de valores que pensa defender. Ou, então, colaborando

involuntariamente para confirmar a famosa frase de Tancredi ao

Príncipe Fabrizio, n’O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di

Lampedusa: “Se quisermos que tudo permaneça como está, é

preciso que tudo mude”.

Numa avaliação talvez pessimista, um pouco hamletiana (que a

dúvida cartesiana bem poderia questionar), parece que os avanços

quanto às generosas promessas da Constituição de 1988, nos seus

quase 40 anos de vigência, foram bastante modestos. A sensação é

aquela da corrida de Alice:

“A Rainha encostou-a numa árvore e disse,

gentilmente:

- Você pode descansar um pouco agora.

Alice olhou ao redor, bastante surpresa.

- Ora, posso jurar que ficamos o tempo todo debaixo

desta árvore! Está tudo exatamente como era!

- Claro que está – disse a Rainha. – Como queria que

estivesse?

- Bem, em meu país – Alice respondeu, ainda meio

ofegante -, você geralmente chegaria a outro lugar... Se

corresse tão depressa e por tanto tempo como nós

fizemos.

- Um tipo de país bastante devagar! – disse a Rainha. –

Olhe, veja bem, aqui é preciso correr o máximo que

você conseguir, se quiser ficar onde está. Para ir a outro

lugar, tem de correr pelo menos duas vezes mais

depressa do que isso!” (Lewis Carroll, Alice através do

Espelho – destaques do original).

(limajb48@gmail.com)

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